domingo, 31 de maio de 2015

Enfim, uma análise profissional da direita brasileira. A de um psicanalista







O psicanalista Thales Ab’Sáber, autor de diversos livros, faz hoje, noEstadão, uma análise imperdível do papel desempenhado por Eduardo Cunha.

Brilhante, porque de personagens com o atual Presidente da Câmara, a política está cheia: conservador, ousado, oportunista e sempre à procura de portas que possa abrir com os métodos mais espertos do que éticos.

O que diferencia e dá importância ao homúnculo moral que preside aquela casa é o fato de que a direita, estéril como é na produção de líderes – veja-se o caso do playboy Aécio Neves, erigido em zelador dos bons costumes – ter de lançar mão deste tipo de agentes políticos de baixa extração, retirados lá do pântano de um carreirismo sabujo que começou com uma “boquinha” na Telerj de Collor e PC Faria.

Cunha é um personagem horrendo, mas menos tenebroso do que os interesses que, por seu intermédio, tentam e vão se impondo.

Em parte porque são assim, em parte porque o PT acreditou que bastavam as alianças – necessárias – para governar – deixando que muito de sua ação se confundisse com a “geléia geral” da política que “é assim mesmo”.

Ab’Sáber merece ser lido com atenção e com o prazer da clareza de ideias. O pensamento conservador brasileiro precisa, de tão minúsculo que é na sua visão de país, de quem veja o país seus complexos e vícios patrimonialistas e elitistas.
Mesmo que seja alguém extraído do pântano da esperteza.


Thales Ab’Sáber, no Estadão

Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, assumiu a presidência da Câmara dos Deputados em 1º de fevereiro de 2015. Sua vitória, por 276 votos contra 136 de Arlindo Chinaglia, o candidato do governo, foi a primeira das várias derrotas que a partir de então, em ritmo vertiginoso, ele passaria a promover no Congresso contra temas, pautas e princípios do governo petista de Dilma Rousseff. A organização pessoal de Cunha, e de seus interesses conservadores amplos, imediatamente ganhou nítido contraste com a dissolução geral da política petista que acontecia ao seu redor.

Apesar da vitória para a Presidência e de conquistar a maior bancada no Congresso, o Partido dos Trabalhadores pareceu ter saído das urnas em 2014 simplesmente derrotado. A crise de corrupção na Petrobras ­ envolvendo possíveis propinas do cartel que controlava a empresa endereçadas a PT, PMDB e PP e a 17 políticos investigados, entre eles Eduardo Cunha e Renan Calheiros, além de um senador do PSDB ­ e o acirramento da oposição que levou Aécio Neves a meros 3% de distância da presidente reeleita marcaram de maneira negativa o espírito do novo governo. O desgaste total da sua política econômica, que manteve o pleno emprego no Brasil, mas gastou todas as fichas disponíveis no limite da responsabilidade fiscal e não conseguiu promover crescimento no último ano e meio, levou o ânimo e a autoconcepção do governo petista à lona. O governo só parece fazer política na plena posse de seu modelo de economia ­ uma  espécie de social-desenvolvimentismo, ou capitalismo social, se olharmos daqui ou dali ­, e ter de realizar cortes fortes nos gastos públicos, de tipo neoliberal, desorientou definitivamente a bússola governista para a própria política. Além disso, logo a nova organização social à direita, a nova paixão política à direita, prosseguiu sua feroz crítica ao governo nas ruas, criando um fator de forte instabilidade que o PT não conhecia.

O quadro de fraqueza de governo, de falência de projeto, de falta de predomínio sobre a própria base, além da velha inapetência para a política parlamentar petista ­ uma agremiação viciada no seu bonapartismo lulista ­, não foi criado por Eduardo Cunha, mas é o setting que permitiu a força e o colorido de sua atuação surpreendente. E desde o primeiro segundo ele soube ler com grande acuidade a situação: “Eu acho pouco provável o sucesso de uma candidatura do PT em qualquer disputa contra qualquer um, e não vejo dentre os deputados do PMDB nenhuma vontade de apoiar uma candidatura do PT [à presidência da Câmara] (…) Até para a governabilidade é melhor que se tenha alguém que seja representativo de uma maioria, que tenha capacidade de discussão e que esteja completamente distante do centro da polarização eleitoral que aconteceu”.

Buscando legitimidade, como nome da maioria informe em nome da sua independência e como mediador da grande polarização eleitoral de 2014, ele se elegeu presidente da Câmara, contra um movimento político ligeiro e desorgânico do governo. Imediatamente declarou que só passando sobre seu cadáver o tema do aborto ­ e o da regulação da mídia seriam pautados na casa presidida por ele. Aliás, de modo acintoso, e sinalizando claramente seu vínculo com um grande sistema de poderes, também afirmou que “regulação econômica de mídia já existe no Brasil, você não pode ter mais de cinco geradoras de televisão”. As declarações deixavam claro, no mundo da vida e das grandes aspirações e perspectivas de poder, a posição de compromissos de Cunha e, ainda mais, a sua forte vontade de exercer ao máximo o seu poder, empenhando simbolicamente o próprio corpo. Ele assumia a responsabilidade por sua pauta conservadora, ainda mais à direita do grupo em geral voraz de parlamentares que passou a liderar, dar cérebro e coluna, conhecido historicamente como centrão.

Sobre o aborto, a sua posição já era tradicional. Homem ligado ao movimento político de massas das Igrejas Evangélicas brasileiras ­ mais precisamente à Assembleia de Deus, ministério Madureira ­, em 2011 ele se tornou conhecido pela excentricidade e desfaçatez de propor o projeto de lei do “dia nacional do orgulho hétero”, para defender a “maioria discriminada”, segundo ele próprio. Após a novela da Globo Amor à Vida exibir em seu último capítulo o muito aguardado beijo gay entre Felix e Nico, ele se manifestou pronta e assertivamente, como é sua característica, agora no Twitter: “Estamos vivendo a fase dos ataques, tais como a pressão gay, a dos maconheiros e abortistas. O povo evangélico tem que se posicionar”. Não se pode negar que Cunha é um político em busca de ação. Ele se baseia na força social real da massa de evangélicos, popular e moralista, e expressa para esse povo que o sustentou até agora uma espécie pós-­moderna de amplo populismo conservador, meio religioso, meio moral, meio midiático, que, como se tornou comum comentar a seu respeito, não esconde o vínculo entre o desejo de ocupar espaço na política, o caráter conservador e a ação afirmativa, muitas vezes autoritária.
Quanto aos negócios em grande escala de monumentos voltados à ascensão da sua própria classe média, Eduardo Cunha é também explicitamente ativo. Além de se preocupar pessoalmente com a limitação de cinco geradoras de televisão por cidadão brasileiro, assim que assumiu a mesa diretora da Câmara deu início ao processo de construção de um novo conjunto de prédios ligados ao Congresso nos quais estão previstos maiores gabinetes, estacionamento, um auditório, um novo plenário, mais amplo e para mais deputados, desbancando o prédio icônico e tombado, patrimônio da arquitetura mundial, de Oscar Niemeyer? E um shopping de luxo para os congressistas e suas mulheres. O valor total do empreendimento imobiliário, que envolverá muitas das empreiteiras que investiram forte nas campanhas dos próprios deputados, está orçado em R$ 1 bilhão. Os luxos e os mimos de Cunha aos seus pares deverão ser construídos no período de maior aperto fiscal e orçamentário do País dos últimos 15 anos, que atingirá em cheio a vida econômica e a classe trabalhadora brasileira. Eles dão indício do tipo de responsabilidade e comprometimento em jogo. O governo de Cunha para o Congresso se expressa na máxima brasileira do político conservador, sob suspeição, que justifica e legitima sua prática social meramente ao fazer construções de imenso porte. E as obras, agora, são gabinetes de luxo e shopping center particular, no mundo dos chiques entre si do parlamento brasileiro. Trata-­se de um sintoma mais que perfeito do tempo. E, além do negócio imobiliário bilionário para o maior conforto da própria classe, há indícios importantes, segundo promotores públicos, com declaração explícita do delator Alberto Youssef na Operação Lava Jato, de Eduardo Cunha ter recebido propinas e tentar chantagear a empresa japonesa Mitsui & Co. quando os pagamentos, ligados aos grandes desvios acontecidos na Petrobrás, cessaram.

Eduardo Cunha é, portanto, uma mistura de Severino Cavalcanti e pastor Marco Feliciano que deu certo. Hábil com a linguagem, sempre de prontidão e com imenso gosto pelo poder, mais estruturado em sua bases, ele se tornou rapidamente, voando baixo sob a ruína da política petista, o homem de que a direita brasileira havia muito tempo não dispunha. Uma verdadeira liderança, produtiva para os próprios interesses de classe, com um aceno conservador nítido ao novo público político produzido nas igrejas, nas rádios e nas televisões evangélicas. É egresso dessa nova elite, popular, telerreligiosa, empreendedora, ativa e pós-­moderna.

Politicamente, em dois meses de direção da Câmara, liderou duas derrotas históricas, em velocidade de blitzkrieg, que sinalizaram claramente a atual alienação política do governo dito de esquerda: a aprovação na Comissão de Constituição e Justiça da proposta de diminuição da maioridade penal no Brasil e a aprovação em plenário de uma ampla lei de terceirização do trabalho no Brasil,  produzindo a maior derrota nas leis trabalhistas brasileiras desde a sua instauração por Getúlio Vargas. Em uma frente, a pauta conservadora visava à sociedade civil e noutra, se articulava aos maiores interesses empresariais, que aproveitaram o homem muito disposto no Congresso e a falência do governo para tramitar da noite para o dia, sem debate, um projeto de imenso impacto social, parado havia 11 anos. Cunha valeu­-se do vácuo de governo para governar o Brasil, desde o Congresso.

Na última semana, com requintes de arbítrio, tentou fazer o mesmo com a reforma política: aprovar a da sua preferência, sem discussão. Pela primeira vez foi derrotado, em parte. Havia mais interesses em jogo do que a sua liderança agressiva podia dar conta. Sua política acelerada e afirmativa, que já enfiou vários gols no time do governo perdido em campo, é também um modo de colocar no ataque os interesses dos seus políticos denunciados na Lava Jato, entre eles ele próprio e Renan Calheiros; não apenas frente ao Planalto, para quem pretendem transferir toda a responsabilidade das próprias possíveis propinas, mas também, agora, frente ao Ministério Público e a Justiça, que estão na mira dos canhões da Casa. Há algo de rei nu em Cunha. Daí, também, tanta movimentação.

E é apenas o elemento da virtual Justiça democrática, com a novidade radical no panorama brasileiro que é o juiz Sérgio Moro, o dado que diferencia hoje a situação de um político como Eduardo Cunha de outros políticos brasileiros da mesma estirpe, desde um Bernardo Pereira de Vasconcelos, no Império, até um Carlos Lacerda, no pré­64. Seria realmente interessante, e importante, vermos um dia a Justiça brasileira julgar alguém como ele, quando houver motivos, com a mesma diligência e rigor com que se julgou José Dirceu e a cúpula petista no episódio do mensalão.

Apenas para, como costuma dizer o nobre deputado, garantir a plena autonomia dos poderes no Brasil.




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