sexta-feira, 17 de julho de 2015

Delator acusa Eduardo Cunha de receber propina de 5 milhões de dólares e apresenta planilha; “o meu preciso rapidamente”





Delator da Lava-Jato diz que Cunha pediu propina de US$ 5 milhões




SÃO PAULO – O consultor Júlio Camargo afirmou à Justiça Federal, nesta quinta-feira, que foi pressionado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a pagar US$ 10 milhões em propinas para que um contrato de navios-sonda da Petrobras fosse viabilizado. A informação foi confirmada ao GLOBO por três pessoas presentes no depoimento. Segundo Camargo, Cunha pediu US$ 5 milhões pessoalmente a ele.
Ao GLOBO, Cunha negou a acusação e afirmou que o delator é um “mentiroso”.
— Ele (Júlio Camargo) é mentiroso. Um número enorme de vezes dele negando qualquer relação comigo e agora (ele) passa a dizer isso. Obviamente, ele foi pressionado a esse tipo de depoimento. É ele que tem que provar. A mim, eu nunca tive conversa dessa natureza, não tenho conhecimento disso. É mentira — disse Eduardo Cunha.
Um dos primeiros delatores da Lava-Jato, Júlio Camargo trabalhou como consultor das empreiteiras Toyo Setal e Camargo Corrêa. Nesta semana, ele voltou a ser interrogado pelo juiz Sérgio Moro e fez novas revelações que não constavam de seus primeiros depoimentos.
Anteontem, disse ter dado R$ 4 milhões em propina para o ex-ministro José Dirceu (PT) a pedido do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, indicado pelo PT. Nesta quinta, segundo os relatos colhidos pela reportagem, acusou Eduardo Cunha de tê-lo extorquido.
Pelo relato de presentes no depoimento, Júlio Camargo afirmou que Cunha teria lhe dito que estava “no comando de 260 deputados” e mostrado “agressividade” na conversa.
Ao ser questionado por que não havia revelado esses fatos antes, o consultor afirmou que tinha medo de possíveis retaliações às empresas que ele representava e a sua própria pessoa.
Ao fim do depoimento, pelos menos três advogados que deixaram a sala de audiência confirmaram que Camargo citou Cunha e que ele seria responsável pela divisão dos pagamentos irregulares com Fernando Baiano.
Um dos defensores ouvidos pelo GLOBO confirmou a citação ao presidente da Câmara:
— Cunha é o beneficiário final. Júlio Camargo imputou ao Eduardo Cunha divisão da eventual propina ou do valor que o Fernando Baiano ganhou, metade para cada um — disse um advogado.
Da propina que Camargo afirmou ter pago em nome de Cunha, US$ 5 milhões foram repassados por meio do doleiro Alberto Youssef, também delator da Operação Lava-Jato.
De acordo com o consultor, Youssef foi acionado porque a operação precisava ser feita com agilidade, e o doleiro tinha dinheiro disponível. A outra metade da propina foi paga por meio de outro operador, Fernando Baiano.
— Fernando Baiano é sócio oculto de Eduardo Cunha — declarou Camargo, segundo pessoas que acompanharam a audiência desta quinta-feira.
O clima da audiência foi descrito como tenso por quem acompanhou o interrogatório. Depois que o advogado Nélio Machado se exaltou, o juiz Moro pediu “urbanidade” aos presentes.
O advogado de Júlio Camargo pediu decretação de sigilo sobre o interrogatório do seu cliente. mas o juiz Moro ainda não decidiu.
DOCUMENTOS REFORÇAM ACUSAÇÃO DE YOUSSEF

Dois requerimentos da Câmara encontrados pelo GLOBO, em março, reforçam as acusações do doleiro Alberto Youssef que relacionaram o esquema de propina na Petrobras ao presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Procuradores da Operação Lava-Jato incluíram em abril nas investigações sobre Cunha, o documento com a indicação de que dois requerimentos de informação sobre empresas vinculadas ao executivo Júlio Camargo foram emitidos num dos computadores do gabinete gabinete da Câmara, em 2011.
Em um dos depoimentos da delação premiada, Youssef disse que os dois requerimentos eram parte de uma manobra de Cunha para pressionar o executivo a pagar propina para Fernando Baiano.
Youssef afirmou que Cunha era um dos beneficiários das propinas vindas da estatal, mais especificamente em um contrato de aluguel de um navio-plataforma das empresas Samsung e Mitsui, que teria como representante no Brasil o executivo Júlio Camargo.
CÂMARA DOS DEPUTADOS RECEBEU CONTRATOS DA MITSUI

Os requerimentos de informação atribuídos ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) — e sob investigação do Ministério Público na Operação Lava-Jato —, levaram a Petrobras, o Ministério de Minas e Energia e o Tribunal de Contas da União (TCU) a fornecer ao Congresso detalhes estratégicos de contratos, empréstimos e sociedades das empresas do grupo Mitsui.
Documentos sigilosos obtidos pelo GLOBO mostram que dois requerimentos protocolados na Câmara em 2011 pela então deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) foram respondidos pelos três órgãos, com informações sobre todos os contratos e operações empresariais da Mitsui.




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