domingo, 25 de setembro de 2016

DALLAGNOR - O FALSO PROFETA - E A LAVA-JATO, FAZEM NO BRASIL O QUE NÃO TERIAM CORAGEM DE FAZER NOS EUA





Num bom perfil de Deltan Dallagnol no Valor há um trecho que teve intensa repercussão. Reproduzo-o aqui:

“O coordenador da Lava-Jato tem uma interpretação culturalista da história. Acha que foi a colonização portuguesa quem legou a corrupção à terra natal. ‘Quem veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam realizar seus sonhos, era um outro perfil de colono’”.

Dallagnol tem mestrado em direito em Harvard e é americanófilo. Até aí, ninguém tem nada com isso. Como ele, o juiz Sérgio Moro também recorre muito aos EUA. Em audiência na Câmara sobre medidas contra a corrupção, Moro mencionou quinze vezes aquele país, citando especialmente a expressão “jurisprudência americana”.

A simplificação histórica ginasiana de Dallagnol, não totalmente errada, não lhe deixa atentar para o seguinte: muito provavelmente, nem ele e nem Moro fariam lá o que fazem aqui.

Em junho, um procurador de Orlando foi exonerado por fazer comentários no Facebook sobre o atentado na boate Pulse. Kenneth Lewis, eleitor de Trump, evangélico, escreveu que a cidade toda deveria se sentir aliviada e que a região da Pulse era um “cadinho para descrentes de terceiro mundo e valentões de gueto”. Dançou dias depois, esperneando.

Dallagnol é fã de Martin Luther King, a quem homenageia em suas apresentações em igrejas. A devoção vem principalmente do fato de que King era pastor batista. Dallagnol é membro da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba.

É uma apropriação indevida. King, defensor dos direitos civis, foi preso 30 vezes. Em 1964, quando ganhou o Nobel da Paz, falou que os Estados Unidos teriam muito a aprender com o “socialismo democrático” da Escandinávia. Era preciso encarar as “questões de classe” e o que ele descreveu como “o fosso entre os que têm e o que não têm”.

Deltan usa bobagens de auto ajuda como esta: “As palavras de Martin Luther King Jr nos inspiram e mostram que quem sonha tem o poder de transformar o mundo”. É a versão pocket palatável de Luther King, falsa como uma nota de 7 dólares.

Recursos que ele copia dos EUA são vistos com cada vez mais resistência. Os powerpoints são pesadamente criticados na Justiça por ser uma peça para manipular os jurados. O expediente é chamado de “advocacia visual” por acadêmicos americanos da área de direito, como apontou o Paulo no DCM. 

No que se refere a Moro, sua vida não seria fácil. O código de conduta dos juízes americanos tem um capítulo sobre as “proibições gerais”. Uma delas: “Um juiz não deve agir como líder ou ter cargo em organização política; fazer pronunciamentos ou apoiar uma organização política ou candidato”.
Como seriam vistas as palestras de Moro nos eventos do tucano João Doria?

Em julho, Ruth Bader Ginsburg, da Suprema Corte, teve de pedir desculpas por causa de uma crítica a Donald Trump. “Juízes devem evitar comentar a respeito de um candidato a cargo público. No futuro, serei mais circunspecta”, declarou, depois da reprovação inclusive de apoiadores de Hillary Clinton.

“Sem as desculpas dela, outros juízes poderiam tomar partido em disputas políticas e usar o exemplo de Ginsburg”, disse o professor de direito da Universidade de Nova York Stephen Gillers ao LA Times. “Eles poderiam alegar: ‘Se é ok para ela, é ok para mim’. Agora não existe mais esse precedente”.

Necessitamos da separação dos poderes, sem a qual, segundo Montesquieu, “tudo estaria perdido”. No Brasil, é mais fácil vender espelhinhos pros índios.

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