terça-feira, 8 de novembro de 2016

PAPA FRANCISCO (OU “VELHO CHICO”, COMO PREFIRO CHAMÁ-LO): "A VERGONHA DE SALVAR BANCOS E NÃO PESSOAS"






Francisco, um homem admirável

Parafraseando texto da Rádio do Vaticano





Na tarde de sábado dia 5 de novembro o Papa encontrou-se no Vaticano, na Sala Paulo VI com cerca de 5 mil membros dos Movimentos Populares que vieram a Roma para o seu 3º Encontro Mundial subordinado ao tema “Trabalho, Teto, Terra”.





O dinheiro governa



“Terra, casa e trabalho para todos”, o “Velho Chico” fez seu o grito dos Movimentos Populares que exprime um real sentimento de sede de justiça. Francisco recordou o encontro que aconteceu na Bolívia em 2015 e louvou o caminho percorrido até agora no diálogo entre “milhões de pessoas que trabalham diariamente pela justiça no mundo”.



Mas, a justiça está ameaçada pelas desigualdades da violência económica, social, cultural e militar que provocam cada vez mais violência, pois é “o dinheiro” que governa – afirmou o Papa que considerou ser terrorista um sistema que “expulsa a maravilha da criação, o homem e a mulher”.



Palavras como: “existe uma ditadura econômica global, ou: o imperialismo internacional do dinheiro.” E ainda: “uma nova forma abusiva de domínio econômico no plano social, cultural e também político”, já vinham sendo usadas por alguns antecessores de Chico. E ele próprio, que já tantas vezes mostrou mais o homem sensível, corajoso e sábio, que o santo que os tolos esperam, afirma: “Rebelo-me contra o ídolo do dinheiro que reina, e que ao invés de servir, tiraniza e aterroriza a humanidade”.



Desenvolvimento Humano Integral



Francisco referiu, assim, que está a ser alimentado o medo que para além de ser “um bom negócio para os mercadores das armas e da morte, enfraquece-nos, desestabiliza-nos, destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais” – disse Francisco, recordando que, “quando vemos que se prefere a guerra à paz, quando vemos que se difunde a xenofobia, quando constatamos que ganham terreno as propostas intolerantes; por trás desta crueldade que parece massificar-se existe o frio sopro do medo”. 



“Devemos ajudar a curar o mundo da sua atrofia moral. Este sistema atrofiado é capaz de fornecer algumas ‘próteses’ cosméticas que não são verdadeiro desenvolvimento: crescimento económico, progressos tecnológicos, maior ‘eficiência’ para produzir coisas que se compra, ao invés de estimular a produção de produtos com baixa durabilidade, envolvendo-nos a todos numa vertiginosa dinâmica do descarte” – declarou Francisco que afirmou que, o desenvolvimento do qual temos necessidade, deve ser “humano, integral, respeitoso”.



A bancarrota da humanidade



Um ponto importante referido por Francisco foi “o drama dos migrantes, dos refugiados e dos deslocados” que o ele descreveu com uma palavra: “vergonha”. O digno representante da moralmente falida Igreja Católica  recordou a sua ida a Lampedusa e à ilha de Lesbos na Grécia onde, nesta última, teve a oportunidade de “ouvir de perto o sofrimento de tantas famílias expulsas da sua terra por motivos económicos ou violências de todo o tipo, multidões exiladas”, que, segundo Francisco acontece “por causa de um sistema socioeconómico injusto” e por causa das “guerras”.



O “Velho Chico” vê-se nos “olhos das crianças” nos campos de refugiados, a “bancarrota da humanidade” pela qual se faz pouco para salvar, mas se for a bancarrota de um banco imediatamente se procura salvar – disse Francisco.



“O que acontece no mundo de hoje quando ocorre a bancarrota de um banco, é que, imediatamente, aparecem somas escandalosas para salvá-lo, mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto. E assim o Mediterrâneo transformou-se num cemitério e não somente o Mediterrâneo… tantos cemitérios próximos dos muros, muros manchados de sangue inocente. ”



Formatação



Francisco falou em seguida de “formatação” e “corrupção”. Desde logo, deixou claro que há o perigo de os povos se deixarem formatar pelas ‘políticas sociais’ que são toleradas e que passam pelas microempresas, pelas cooperativas, pelos projetos assistenciais.



Contudo, segundo o líder católico, é partindo do bairro, da localidade, da organização do trabalho comunitário que é possível discutir a “política maiúscula”, indicando “ao poder um planejamento mais integral”. Mas, essa forma de intervenção – disse Francisco – não é tolerada porque, dessa forma, estariam a sair do formato “que alguns pretendem monopolizar em pequenas castas” – observou.



“Assim a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai desencarnando-se porque deixa de fora o povo na sua luta quotidiana pela dignidade, na construção do seu destino” – afirmou.



Corrupção



Francisco alertou também para a corrupção que não é apenas “uma questão de políticos, a corrupção não é um vício exclusivo da política” – sublinhou – pois ela existe também nas empresas, nos meios de comunicação social, nas Igrejas e também nas organizações sociais e nos movimentos populares.



“… é necessário viver a vocação de viver com um forte sentido de austeridade e humildade. Isto vale para os políticos, mas vale também para os dirigentes sociais e para nós pastores” – disse ele que, de imediato, esclareceu que ao afirmar a palavra austeridade refere-se à austeridade moral e humana e não àquela apontada pelas “ciências do mercado” e que significa ajuste sempre em detrimento dos mais fracos. “Não é a isso que eu me refiro” – afirmou.



Vida de serviço e amor



No final do seu discurso o Papa Chico exortou os Movimentos Populares a continuarem a “combater o medo com uma vida de serviço, solidariedade e humildade em favor dos povos e especialmente daqueles que sofrem”.







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