terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CARTA DE UM MILITANTE PETISTA PERNAMBUCANO AO SENADOR HUMBERTO COSTA



O índio e o fujão



A militância do PT tem convivido intensamente com a inquietante sensação de traição, e essa sensação, em cada estado, cada cidade, embora revestida de descoloração  e despudor próprios, tem a mesma origem e é o porquê dos atos indignos e covardes de políticos do nosso querido PT.
 

A insensibilidade com a desgraça alheia leva os humanos tanto à ganância, ao corporativismo desmedido, quanto ao crime. E o que difere a Militância Petista das demais é que ela é formada, em sua quase totalidade, por pessoas que sonham com um mundo onde todos possamos ter as mesmas oportunidades, receber os mesmos cuidados, realizar a maioria dos nossos sonhos.


Demitido no governo Collor em 1990 como um dos “marajás” que ele prometeu caçar se eleito fosse, me vi atirado à própria sorte, passando a conviver com o susto do inesperado e com os olhares furtivos daqueles que acreditaram que eu era mesmo um marajá, e que o presidente Collor é que era um homem honrado e merecedor de respeito... imaginem!


Foram longos 19 anos rompendo diariamente as madrugadas como “dono de bar”. Do primeiro deles – o  “El Bodegón” – Barzinho Típico Cubano – você foi um ilustre e assíduo frequentador bem-comportado, que dançava com a namorada entre as mesas, já que o barzinho não era dançante, apesar das salsas, rumbas e merengues intermitentes.  

Muitas outras vezes nos encontramos em inúmeros atos de campanhas ou em comemorações por vitórias bravamente alcançadas, e conversávamos descontraidamente sobre o que, de fato, acontecia nos bastidores da política nacional.


Encerrada a campanha, você passava a viver engravatado nos gabinetes e nas tribunas, e eu, com a militância petista, seguíamos prontos para novas mobilizações todas as vezes em que fosse candidato, lhe apoiando na expectativa de ver nossos sonhos de igualdade bravamente defendidos em Brasília.


Voltei anistiado ao Serviço Público em 2008 e, nunca... nunca lhe pedi coisa alguma, mas você recebeu o meu voto todas as vezes em que se candidatou a um cargo público, desde vereador em 2000, deputado estadual, federal e, por último, senador em 2010, embalado na primeira campanha de Dilma Rousseff.


Sua mudança de comportamento começou a ser notada nos Atos Pela Democracia e Contra o Impeachment realizados durante os anos de 2015 e 2016 com concentração na Praça do Derby aqui em Recife. Na maioria deles você não apareceu. Cheguei a comentar pelas redes sociais com outros políticos do PT pernambucano sobre as ausências sua, de João Paulo e de outros ex-deputados num momento tão crucial para o Partido dos Trabalhadores e para nossa democracia, mas as respostas eram todas evasivas, até porque estavam também justificando suas próprias ausências.


Lembro-lhe que Pernambuco não elegeu em 2014 um único deputado federal pelo PT, embora Dilma tenha derrotado Aécio Neves de forma acachapante na mesma eleição. Por que o PT elegeu Dilma com larga vantagem e não elegeu nenhum deputado federal?


Nos meses que antecederam a votação do Impeachment, vi nitidamente no Senado, você recolher as armas ao passar de um orador brilhante e contundente em defesa da nossa democracia e do mandato legítimo da Presidenta Dilma, a um simples cumpridor de pauta, repentinamente desmotivado, liberador de meias palavras do alto da tribuna, enquanto olhava assustado para os lados. De que tinha medo, senador? Que o seu “recuo” fosse notado? O que teria lhe levado a essa mudança tão radical de postura? Não sei... ou até sei, porque, estes últimos anos me trouxeram, com uma clareza solar, toda a canalhice e despudor que rasteja entre os gabinetes, tribunas e plenários ocupados por todos vocês políticos.


Vê-lo votar num asqueroso golpista de primeira linha como Eunício Oliveira para ocupar o cargo de presidente do Senado Brasileiro, citado nas delações da Lava Jato com codinome “índio”, que prometia cumprir a pauta preestabelecida por Temer e Aécio, feriu de morte toda a militância petista. Não porque esse senado não mereça o “índio” como seu presidente. Merece sim. Mas, sua traição anunciada desavergonhadamente, desrespeitosamente, e miseravelmente justificada pela troca com a primeira secretaria da mesa, fechava realmente um ciclo de militância para muita gente, quem sabe senão até para esse PT que lhe sobrou.


Como se isso não bastasse, você abandonou hoje Lindbergh Farias, Fátima Bezerra, Décio Lima e Gleisi Hoffmann para travarem a desigual batalha contra todos os demais senadores durante a sabatina de Alexandre de Moraes, e foi em viagem a Israel juntamente com o titular da CCJ Jorge Viana, aquele que tremeu ao saber que assumiria a presidência do Senado se Renan tivesse sido afastado da presidência pelo STF, e logo declarou que não tinha condição alguma de assumir. Que dupla é essa!?... O que acontecia na surdina... na moita?...


Você, em nota, respondendo à Coluna Painel, teve a coragem de simplesmente anunciar que não era suplente de Viana na CCJ, escondendo de todos que renunciou à suplência apenas 6 dias antes da sabatina. Quais foram os compromissos assumidos para calar uma voz do PT durante a sabatina? O que lhe caberá depois de 2018 se Lula não concorrer ou não se eleger?... Veremos.


Quanta covardia, quanta traição.


Espero vê-lo, ao fim desse seu mandato, no mesmo limbo em que os pernambucanos colocaram Roberto Freire.


Rodolfo Vasconcellos

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