sexta-feira, 28 de outubro de 2005

ÚLTIMA COMUNHÃO


Paramentado para viver uma
assustadora estória de Trancoso...


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Escolhi esta foto pensando em "filosofar" um pouco sobre o que já nos aguarda desde o nascer: um kit religioso que, na verdade, já vem sendo utilizado desde a confirmação da fecundação, quando promessas e projeções, as mais variadas, já são negociadas em nosso nome.

Após o nascimento, nos amarram fortemente a alguma crença relacionada a seres incorpóreos, que passariam a nos acompanhar a vida inteira, vigiando cada passo, punindo ou recompensando os crédulos, de acordo com sua capacidade de obediência, e incapacidade de questionamento.

Fiquei parado um pouco diante do monitor. Lembrei-me do texto de Ysolda(*), espontâneo, inteligente... gostoso de ler. Não. Não era nada disso que eu deveria escrever. Não conseguiria me aprofundar tanto quanto gostaria e, se conseguisse, talvez o texto ficasse muito pesado, embora tivesse a vantagem de direcionar os próximos diálogos nesse sentido, o que muito me interessaria.

Desliguei o computador e saí meio decepcionado comigo mesmo. Não consegui mais, durante todo o dia, me esquecer desse compromisso; dessa enrascada em que Ysolda me havia colocado.

 

Ah! A morte de Rosa Parks noticiada naquela manhã. A ativista negra americana que tanto atiçou meu espírito revolucionário na juventude, poderia ser um ótimo assunto. Com ele eu poderia debulhar os meus inconformismo e revolta com a arrogância e a beligerância existentes mais ao Norte. Mas, venho fazendo isso com uma certa freqüência. Na última delas, quando da invasão do Iraque, minha posição contrária e as medidas adotadas em nome do Farândola (meu barzinho), ganharam dimensões inesperadas com repercussão nacional e internacional. Seria redundante voltar a esse determinante tema.

Instantes depois, o carteiro trazia um convite da querida prefeita para a solenidade de posse da cidade de Olinda ao título de Capital Brasileira da Cultura. Vaidoso, fui ao Palácio dos Governadores.

Então!?... Poderia ser esse o assunto para abrir esse blogg, pegando carona no meu texto "Olinda, meu amor".

Lá estavam Gilberto Gil, Maracatus, Boi Surubim, Passistas, o Povo... e, ao microfone, o mestre de cerimônias: "Queremos registrar a presença do ator Luiz Carlos Vasconcelos". Nossa! Meu irmão, famoso desde sempre, estava ali. Viera de João Pessoa como presidente da Fundação de Cultura para uma reunião com o amigo e ministro Gil. Transpirávamos, todos, amor por Olinda. Mas, e essa foto com gravatinha!? Não. Eu queria colocá-la aqui no blogg, e não teria nada a ver com essa festa para Olinda.

 

Noite a dentro, Luiz Carlos chegava ao Farândola, com o grupo de artistas e amigos paraibanos que o acompanhava. Descontração geral: gargalhadas, piadas, mais gargalhadas, confidências, entusiasmo com os projetos do Ministério da Cultura e da Funjope, fotos, saudades...

Esqueci até o compromisso com o blogg. Fui para casa e, nos últimos noticiários, a motivação que eu precisava: aniversário de trinta anos da morte de Vladimir Herzog. Esse meu espírito revolucionário que tão cedo instalou-se em mim, parou no tempo... Cronologicamente estacionário, tem a mesma idade do meu coração: "quinze anos incompletos". 

 Vladmir Herzog.

Seria empolgante iniciar o blogg destilando meu ranço ao golpe de Estado de 1964, que tantas vezes me levou às ruas do Recife e João Pessoa no final da década de sessenta: farda do Liceu Paraibano, pedras nas mãos e, no peito, um desejo nunca satisfeito... fabricar e atirar um "coquetel Molotov" em algum torturador. Mas, nós não os víamos, embora transitassem disfarçadamente como pessoas de bem entre nós. Puxa! Me arrepio... Esse coração que parou no tempo quase aos quinze anos, me forçando a abrigá-lo no peito como a um inimigo que temo ofender... sempre sonhador, apaixonado, e atento a tudo, insiste em sentir tudo o que sonho como se fosse real.

Preciso dormir.

Vou ao banheiro pela última vez e também à cozinha. Na sala, passo por Laghaer Teacher, adolescente notívago, hóspede meu e de minha envelhecida companheira Pandora di Módena, sempre se escondendo quando me vê, mesmo que eu não o perceba.

No banheiro, como sempre, está a ninfeta Hanns Di Bannieri, que apenas encolhe-se um pouco para me dar passagem. Por um canto dos grandes olhos me observa, paralisada, como se aguardasse uma iniciativa minha, mas, como de costume, saio indiferente, já acostumado a tomar banho com ela lá.

Ah! Amanhã, vinte e seis de outubro de 2005, será aniversário de Santos Dumont ou da aviação, não sei bem... mas... não, isso também não tem nada a ver com o Terço e o Catecismo na minha mão esquerda.
Mas, vou deixar esta foto aí mesmo, para lembrar-me do tema que mais me motiva.

(*) Conhecera Ysolda Cabral há apenas quinze dias. Chegara como uma "tempestade tropical": de repente, incapaz de causar prejuízos mas, da mesma forma, incapaz de passar despercebida. Dona de muita franqueza, usa-a sem moderação, porém, embutida em histórias divertidas, contadas sempre com um simpático sorriso. Criou o seu blogg - http://ysoldacabral.blogspot.com/ - e ficou me tentando a criar o meu.

"Ser livre não é ser desta ou daquela maneira; ser livre não é agir desta ou daquela forma. Liberdade é a sensação íntima de alegria que deriva da coerência entre pensamento e conduta".Flávio Gikovate.