quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

De Repente ! ... M A D O N A ! ! !


À Zero Hora Madona Tirou a Roupa e DanSou Para Mim...



Dedico este texto a Carlos Franca - também conhecido, pelo seu amor à Ilha de Fidel, como Carlos Cuba - a quem devo tantos favores e não reencontro há muitos anos.

Adoro o inverno aqui no litoral nordestino. Talvez por ser curto, não trazer muito frio, nem chuvas excessivas. Talvez, também, por funcionar mais como um pedaço de estação a evitar que o verão seja único, e venha a se tornar cansativo. É como a noite entre os dias: por mais que nos ofereça atrações, por mais que nos atiremos aos seus prazeres, é nela também que recarregamos as baterias para vivermos o “inesperado” que vem com o sol.

Naquele início de Novembro de 1995, eu estava ainda mais motivado que de costume. Meu primeiro barzinho, o El Bodegón – Barzinho Típico Cubano - estava indo de vento-em-popa, e eu acabara de chegar da cidade do México com as principais receitas de coquetéis e pratos típicos, discos dos principais cantores românticos, além de toda uma colorida decoração, garimpada pacientemente em todos os mercados de artesanato daquela encantadora cidade, para montar o meu El Paso Cabaré, no Recife Antigo.

Já não conseguia mais respirar apenas Cuba, como fizera nos últimos cinco anos. Agora estava dividido entre as Mariquitas e os Tacos, entre os Mojitos e as Tequilas, entre Varadero e Yucatan, entre a Salsa e o Bolero, entre La Bodeguita del Médio com seus trovadores e a Plaza de Garibaldi com seus Mariaches, entre Malecón e Passeo de La Reforma... Entre Fidel e Zapata.

Gosto imensamente quando algum objetivo me arrebata por inteiro. Sei do esforço que sou capaz de despender para vencer as dificuldades que vão surgindo; da criatividade que brota fácil para solucionar questões estéticas, e da coragem para deixar de lado o inatingível, focando com o mesmo entusiasmo o que é possível, se bem que, até às margens do impossível. Acho mesmo que esse caminhar nos limites - só agora eu reconheço - é uma das características minhas das quais nunca consegui me desvencilhar, justamente por nunca haver dispensado qualquer esforço nesse sentido.

Numa quarta-feira daquele mês, aceitei convite de Carlos Franca para deixar um pouco de lado aquela dedicação toda pelo El Bodegón, e sair para tomar um uísque em outro bar. Sugeri então que fosse no Bairro do Recife – ainda não revitalizado – pois a diversão serviria também como observação do que acontecia por ali.

Após algumas voltas de carro pelo bairro quase deserto - com exceção de uns dois bares com alguns clientes em mesas nas calçadas - percebemos que em frente a um daqueles casarões antigos, havia um pequeno grupo de homens conversando com dois porteiros vestidos a caráter, com gravatinha borboleta e tudo mais. “Vamos ver o que é isso aí!” Falei pra Carlos enquanto estacionava em frente ao grupo.

Um dos porteiros nos informou que era uma boate, e que havia show de danças. Pagamos a entrada e subimos por uma escada estreita, com degraus em madeira antiga, que rangiam sob nosso peso. Não percebíamos som algum... Já começávamos a desconfiar que havíamos feito um mau negócio quando, ao abrirmos a pesada porta revestida de cortiça, o som quase nos empurra pela escada abaixo: era altíssimo, num ritmo alucinante, acompanhado por um piscar estonteante de luzes coloridas, potencializado por um globo de pequenos espelhos, a girar no teto. Demos dois passos adiante e a pesada porta fechou-se às nossas costas. O público era predominantemente masculino, com três ou quatro exceções, e contorcia-se com os braços levantados, olhos fechados e corpos encharcados de suor, numa coreografia que chegava a parecer ensaiada, face os efeitos das luzes e do excesso de fumaça de dezenas de cigarros acesos. Ficamos por um minuto estáticos, surpresos com aquela inesperada loucura. O espaço media aproximadamente sete por vinte metros, e estava “abarrotado” de homens. As mesas, redondas, ficavam muito próximas umas das outras, e não havia mais nenhuma desocupada. Sentamo-nos então em dois bancos, ao balcão em forma de “esse”.

Tudo acontecia às nossas costas, com exceção da dança de garotas em trajes sensuais, num palco em forma de ringue, à nossa esquerda.

Pedimos dois uísques e um pratinho de filé com fritas.

Sentado meio de lado, podia acompanhar a agitação dos fregueses e as performances das bailarinas semi-nuas. Não achei caro o ingresso, justamente por conta da surpresa que tive em encontrar um ambiente daqueles, naquela parte abandonada da cidade.

Terminamos nosso uísque e, quando nos preparávamos para pedir a conta, uma voz masculina anunciou ao microfone:

- Dentro de mais trinta minutos, o mais esperado show da noite recifense: Madona! Num espetacular streap tease!

Puxa! Ainda ia haver um streap tease?! Falei então, todo entusiasmado pra Carlos:

- Não sai ninguém!

E pedimos mais dois uísques...

Ao anúncio, seguiu-se uma ensurdecedora gritaria. O som voltou mais alto ainda, e a agitação chegou a causar-me um certo receio de que tudo ficasse incontrolável.

Estávamos no quarto uísque quando, inesperadamente, as luzes todas foram apagadas por cerca de cinco curtíssimos segundos, tempo bastante apenas para que os corpos perdessem o embalo, os gritos loucos silenciassem, e os olhos se abrissem e girassem, em direção ao palco sem luz. Foram segundos de uma expectativa indescritível!!!...

A luz foi voltando aos poucos, num facho amarelo dirigido ao centro do palco, onde encontrava-se deitada uma mulher loira que, aos poucos, ritmadamente e sensualmente, foi-se erguendo. Levantou-se sobre dois finíssimos e longos saltos de um par de reluzentes sapatos pretos, com uma pequena borboleta prateada em cada um deles. O curtíssimo vestido em tecido azul metálico, refletia em diversas direções, a luz do canhão que seguia como um escravo, aquela mulher de corpo escultural, caprichosamente bronzeado, que estava dentro dele.

Como num jogo de esconde-esconde, o vestido foi se preparando para sair de cena. O fechecler nas costas, abria um pouco mais a cada volta de Madona, até permitir que os encantadores seios começassem a aparecer, num jogo sensual onde o vestido subia e descia, e as alças, que há poucos seguntos atrás haviam sido colocadas sobre os ombros, agora caiam sozinhas, sob o comando do gingado daquele corpo lindo. Quando o vestido voltava a cobrir o seio que quase espontaneamente aparecera, era a hora do outro entrar em cena, e tremer como gelatina ao comando de Madona.

De vez em quando eu arriscava uma olhada rápida na platéia. Estava concentrada: olhos fixos naquela artista encantadora, bocas abertas soltando gemidos, gritos, sussurros, enquanto seus corpos num leve balanço coletivo, no mesmo ritmo do de Madona, sugeria um inusitado “ménage à centaine”...

O vestido foi atirado para o lado, sem que ela perdesse o balanço. Agora estava apenas com uma penetrante calcinha preta. Trabalhava os seios colocando-os sobre as mãos, e tentando convencer-nos de que era possível ergue-los ainda um pouco mais. Ou, após molhar as pontas dos dedos provocantemente na língua, acariciava os mamilos e as tetas, enquanto o jogo de cabeça e as expressões dos olhos e da boca, nos davam certeza de que teria mais um orgasmo.

A platéia percebia o que lhe era sugerido, e os gemidos, gritos e sussurros, aumentavam. Estávamos todos sob uma densa penumbra. A única luz existente estava sobre o corpo de Madona, e ela se deliciava em exibi-lo. Não havia censuras.

A calcinha demonstrava que daria trabalho para sair de cena. Depois de muitas contorções insinuantes, Madona soltou a presilha dourada de um dos lados, enquanto mostrava o “derriére” de lindas curvas. Chegou a vez da outra presilha e, quando todos nós esperávamos que aquela última peça caísse sozinha... que nada! Apenas as duas partes de cima, agora separadas, arriaram. O pedaço mais íntimo ficou lá onde estava, preso entre as curvas daquela "pecadora". Segurando a parte da frente com uma das mãos e a de trás com a outra, iniciou movimentos de vai e vem com a calcinha entre as coxas, enquanto excitava a todos com movimentos do seu corpo, que sugeriam o clímax. A platéia foi à loucura.

Já começava um empurra-empurra, que eu julgava ser pela proximidade do final do show. Mas, quando eu menos esperava, num movimento em três tempos, iniciado por um leve agachamento, seguido de um puxão que desencaixou a calcinha, e um terceiro, que foi o de atirar "irresponsavelmente" aquela peça carregada de suores e odores, no meio de todos aqueles homens, Madona me fez despertar do transe em que me encontrava, para proteger-me da briga coletiva que se iniciaria pela conquista daquele troféu. Mas, não!... Havia algo como um pacto entre aqueles fiéis admiradores e coadjuvantes do show. O que saltou mais alto e alcançou a calcinha ainda no vôo, não foi incomodado por ninguém, embora tivesse que atender a todos os pedidos para um cheiro demorado, na parte que ficara mais tempo presa.

O balconista enchia nossos copos assim que os esvaziávamos. Não reclamávamos. Era aquilo mesmo que queríamos, pois, já estávamos nos sentindo abitouéls.

Enquanto o novo dono da calcinha atendia os inúmeros pedidos, intercalando-os com suas próprias cheiradas, dois seguranças aproximaram-se de Madona e colocaram-na sobre a mesa mais próxima ao palco.

Meu deus! Como era corajosa!

Enquanto dançava sensualmente naquele pequeno espaço, os clientes daquela mesa tinham direito de acariciá-la e beijar o seu suado corpo.

E assim foi, de mesa em mesa, sempre protegida e ajudada pelos seguranças, para passar de uma mesa à outra sem pisar no chão. As mãos acariciavam respeitosamente o seu corpo e os beijos iam até onde Madona permitia, ao agachar-se mais, ou menos.

"Puxa vida! Que pena não havermos encontrado mais nenhuma mesa desocupada ao chegarmos!".

Contentávamo-nos, então, em vê-la passar nas mesas mais próximas, sentir sua respiração já muito ofegante, ouvir as palavras de elogio a cada parte do seu corpo, pronunciadas por aqueles também ofegantes fãs. Uns mais ousados, derramavam cerveja no vale que se formava verticalmente em suas costas, e a aparavam com língua e nariz espremidos entre suas nádegas. Isso podia... colocar o dedo não! Havia regras que não estavam escritas, mas que eram seguidas respeitosamente por todos, em benefício da continuidade daquele show.

Quando Madona foi até a última mesa, que ficava no final do longo e sinuoso balcão da boate, pedimos a conta. O balconista havia nos avisado que ali seria o final do show.

Distraídos com a conta, não percebemos que Madona havia pedido para que a música continuasse, e que os seguranças a colocassem sobre o estreito balcão. Extasiado, vi que aproximava-se de mim com requebros enlouquecidos, e o olhar fixo no meu. Dava pequenos goles numa garrafinha de cerveja que trazia em uma das mãos, e mantinha os olhos ainda nos meus. Levantei-me do banco e a esperei, da mesma forma que todos aqueles outros homens a haviam esperado em suas mesas: com ansiedade, desejo de tocá-la, de molhar-me em seu suor, sentir seus cheiros. Ao chegar na minha frente, com requebros lentos foi se agachando, agachando, até ficar com a boca na mesma altura da minha. Deu um grande gole na cerveja e beijou-me, despejando em minha boca metade daquele gole. Em seguida, virou-se, requebrou, balançou ainda agachada, e esperou que lhe retribuísse a ousadia... E assim o fiz: beijei suas costas, acariciei seu corpo, molhei meu rosto e minhas mãos em seu suor, senti seus cheiros e a recebi em meus braços quando, lentamente, escorregou do balcão sobre mim.

Enquanto os seguranças a cobriam com uma capa vermelha brilhante, e a recolhiam para os bastidores, o balconista exclamou:

- Nossa! Ela nunca havia feito isso!. Nunca havia dançado tão fogosa como hoje!




quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Do Cemitério de São Caetano da Raposa à Praça Nova Euterpe





        Final de Tarde, começo de Noite... Sem olhar pra trás.



Nos meus dezoito anos voltei a morar em Caruaru, agora na casa dos tios João Bartolomeu e Dolores, na Praça Nova Euterpe. 


Trabalhava na Compesa, e fora transferido para o escritório de São Caetano, que funcionava numa casa grande na parte alta da cidade, muito velha, isolada de tudo e próxima ao cemitério.  



O chefe do escritório era seo Ramalho, homem já com mais de sessenta anos, magérrimo, quase esquelético, e de voz muito grave. Residia em Recife, pra onde viajava todas as sextas-feiras à tarde, com a feira da semana comprada lá mesmo em São Caetano. Por economia dormia no próprio escritório da empresa e a cada dia tinha uma nova história macabra para nos contar, de almas sem cabeças que caminhavam à noite arrastando correntes pelo corredor da casa, enquanto ele, rezando, passava as noites em claro.

Numa certa segunda-feira, ao chegarmos para o trabalho, encontramos um enorme buraco em um dos quartos da casa. Seo Ramalho não viajara para Recife naquele final de semana e havia tentado encontrar uma botija naquele quarto de piso fofo. Ficou o dia todo desconfiado, inventando histórias ainda mais sinistras para justificar aquele enorme buraco.

Aqueles dois anos nãõ foram fáceis para mim. Não havia a facilidade de hoje para se fazer refeições diárias fora de casa, e eu ia almoçar todos os dias em Caruaru , na casa de Tita (minha tia Dolores). O ônibus da Caruaruense me deixava na Rua da Matriz às 12:45h, e meia hora depois eu o apanhava de volta, numa parada ao lado do Cine Santino.

O expediente da tarde ia até às dezoito horas, e o primeiro ônibus da  empresa Caruaruense no horário noturno só saía às 18:30h, enquanto minhas aulas, em Caruaru, começavam às dezenove. Para conseguir chegar a tempo no Colégio, saía do escritório com quinze minutos de antecedência e, em vez de ir para o centro apanhar o ônibus, cortava caminho em direção à BR, onde tinha um posto da Polícia Rodoviária Federal. Para tanto, tinha que passar ao lado do enorme muro do cemitério da cidade. 


Era um muro cinzento, comprido, com mais de três metros de altura, em pécimo estado de conservação, inclusive com alguns buracos próximo ao chão. Por cima dele surgiam as copas de árvores imensas, em constante balanço e consequente ranger de galhos por conta dos ventos fortes naquela parte mais alta da cidade. Também estavam lá, já na penumbra dos últimos minutos do dia, os contornos das cumieiras de velhas catacumbas com suas cruzes que gelavam meu sangue. 


Apesar de fazer essa travessia de segunda a sexta, nunca consegui me acostumar com ela. Do meu lado esquerdo não havia nada, nenhuma casa, só mato. Do outro, aquela cena de filme de terror que ganhava tons sinistros da minha imaginação, à meida em que eu avançava ladeado pelo muro e o que eu imaginava encontrar-se do outro lado. Talvez esse pavor me parecesse ainda maior por conta do horário: final de tarde...  Começo de noite; talvez por conta do barulho da sola dos meus sapatos sobre o cascalho solto da estrada, ritmadas, parecendo música de filme de Hitchcock


Caminhava sem conseguir desgrudar os olhos das catacumbas, para não correr o risco de olhar para trás. Raramente cruzava com alguém naquela estrada e, quando isso acontecia, ficava imaginando se seria um vivo como eu, ou um morador do outro lado do muro. Acabava correndo desembestado, acompanhado pela música que agora também acelerara o ritmo. Todo dia era um esforço danado pra me controlar, mas nunca consegui passar por ali apenas caminhando. Consolava-me dizendo a mim mesmo que era por conta da pressa para não perder a aula. 


Quando chegava no Posto, onde já era conhecido dos patrulheiros, dizia que todo aquele suor era porque tinha uma prova, ou uma aula importante, e eles sempre conseguiam uma carona pra mim no primeiro ônibus ou caminhão que passasse.


Naquele dia um patrulheiro deu com a mão para um caminhão e perguntou: "Vai passar por Caruaru? Leve este amigo."


E, como acontecia todas as vezes, subia agradecido e logo entabulava uma conversa com o motorista, quase sempre sobre as curiosidades ou os perigos daquela profissão de caminhoneiro.


Mas, daquela vez, um ranger, que parecia mais de ossos, deixou-me inquieto, durante a viagem.


- "Nossa! Que barulho esquisito é esse que vem da carroceria?..." Perguntei.


- "Ah! É da carga de sacos de carvão que estou transportando." Respondeu o motorista com sua cara toda preta de pó de carvão.


Quando passamos da primeira entrada pra Caruaru - aquela onde hoje tem o Hotel do Sol - vi que havia alguma coisa errada pois o motorista não entrou. Logo adiante, antes que se afastasse mais, perguntei: "Qual entrada o senhor vai pegar pra Caruaru?" E ele, surpreso, foi logo encostando o caminhão e falando:


- "Eu não vou entrar na cidade, vou direto pra Bezerros." Estava neblinando, e as minúsculas luzes da cidade começavam a uns três quilômetros à nossa esquerda


Não havia outro jeito, tive que descer. Na pior das hipóteses eu só iria perder as aulas daquela noite.


Quando o caminhão partiu, deixando-me ali à beira da estrada, e levando consigo os faróis que até então a iluminavam, foi que eu percebi o tamanho do problema. 


Nossa! Era uma escuridão imensa! Não se via nada!...


Quanto mais o caminhão ficava distante, mais o meu medo aumentava e mais coisas eu comecei a perceber naquela escuridão: as luzes dos vaga-lumes acendendo e apagando e o canto dos grilos vindo de todas as direções, talvez assustados com aquela repentina e estranha presença. Além disso, apenas um silêncio sepulcral. 


Do alto daquela parte da estrada, as luzes que eu via, deviam ser as da Rua Preta, separadas de mim por mato e escuridão. 


E, às minhas costas, o que haveria?... 


Precisava olhar. 


Venci o medo que àquela altura já me deixava quase sem fôlego e me virei lentamente... 


Nossa! Estava tudo preto. Não dava pra ver nada... Nem onde começava o céu ou onde terminava a terra. Não podia ficar nem mais um minuto ali. 


Não tinha alternativa, a não ser sair disparado em direção às luzes lá embaixo. E o que haveria entre mim e aquelas luzes? Como seria aquele terreno? 


Naqueles poucos segundos que me separaram do caminhão e do início da carreira, eu só pensara no que iria fazer mas, quando iniciei aquela descida desembestada, lembrei-me imediatamente dos moradores do cemitério de São Caetano. Fiquei todo arrepiado... Sentia que meus olhos queriam sair das órbitas e o coração pela boca. As pernas fraquejaram, pensei que fosse desmaiar... Quando atravessei a estrada e desci o barranco até o matagal, deixei de ver as luzes das primeiras ruas de Caruaru, que até então me serviram de orientação. 


Em alguns trechos, o mato era da minha altura, em outros, era mais baixo, mas, em todos eles, haviam muitas pedras, grandes buracos, e cascalho solto que me levavam ao chão. Todas as almas daquele cemitério estavam ali comigo: esfarrapadas, com cheiro de cravo de defunto, esqueléticas, carentes de um abraço talvez, ameaçadoras... Umas rastejando, outras correndo, algumas dando vôos rasantes sobre minha cabeça. Foram minutos horríveis que, pareceram horas, sob o dominio completo da minha fértil e amedrontada imaginação. 


Em plena escuridão, caindo e levantando, esbarrando nas enormes pedras, nos arbustos, olhando pra trás, pros lados, "vendo a hora" ser abraçado por um daqueles defuntos que abandonaram o Cemitério de São Caetano da Raposa, para me transformar num dos seus. 


Passei então por uma subestação da empresa de eletrificação toda cercada de arame farpado, com transformadores enormes, fazendo aquele zumbido próprio dessas estações de alta voltagem, além das placas com caveiras fracamente iluninadas, anunciando o perigo pra quem ali entrasse. Estava tão desorientado, sem saber exatamente em qual direção deveria caminhar, que só fui encontrar as primeiras casas no Bairro do Cedro. 


Havia corrido em diagonal. Estava em frangalhos. 


Parei na primeira casa para pedir um pouco de água às pessoas que estavam conversando sentadas à porta e, pelo susto que  tomaram ao me ver, deu pra imaginar o estado em que me encontrava. Tomei aquela água com o copo tilintando nos dentes, enquanto explicava àquela generosa gente o que me acontecera. 


Não tinha então mais pressa alguma... 


Saí calmamente pelas ruas da cidade, deixando a respiração voltar ao normal, admirando cada poste de luz e o calçamento brilhando com a chuva, a beleza das pessoas que passavam por mim e até sorriam, os carros com seus faróis acesos a iluminar o que já estava iluminado...


Nossa! Como Caruaru estava linda e acolhedora! Ao chegar à casa, apesar de bem mais calmo, ainda ouvi minha querida Tita (minha tia Dolores) exclamar preocupada:


- "Rodolfinho, meu filho! O que aconteceu com você? Você parece que viu alma!!!..."

A partir daquela noite, perguntávamos sempre aos motoristas no Posto Policial de São Caetano: "Vai entrar em Caruaru?"




quarta-feira, 22 de novembro de 2006

João Bafo de Onça...


Se Correr, o Bicho Pega!...





Cheguei em Caruaru com onze anos, vindo de Umbuzeiro, na Paraíba, para fazer as provas do Exame de Admissão ao Ginásio, depois de quase um dia de viagem. Aprovado no exame e passado o período das férias junto a meus pais, retornei a Caruaru para o ano letivo.

Quase tudo era novidade pra mim: as matinês nos cinemas Santa Rosa e Santino, os jogos de basquete e voleibol no Colégio Diocesano ou a imensa feira daquela linda cidade que, aos meus olhos de onze anos, tinha ainda um Monte e Tremores de Terra.

Fui morar com os tios George e Geninha. Ele, mais conhecido como o “Sargento George do Tiro de Guerra”, enlouquecia as defesas adversárias jogando como meia esquerda no time de futebol do Comércio, além de ser o temível diretor de disciplina do Colégio Diocesano. As lembranças das tortas de abacaxi preparadas por tia Geninha para lancharmos após as matinês, bem como das noites em que servia sopa de carne acompanhada de generosas porções de picles preparados por ela mesma, nunca me abandonaram.

A casa ficava na Rua 13 de Maio, no quarteirão entre as mercearias de seu Raul e a de João “Bafo de Onça". As lembranças da de seu Raul vêm com as altas portas roxas e os bombons de gasosa ali vendidos. Já a “venda” de João Bafo de Onça - assim chamado por conta do seu mau hálito – era um território quase proibido. Sempre estava zangado com algum de nós por conta desse apelido. Era um homem alto, forte, de pele clara que se enrubescia facilmente quando provocado.

Durante quase todo aquele ano a rua ficou interditada ao tráfego de veículos por estar recebendo calçamento. Aproveitamos então para formar equipes de voleibol e disputarmos torneios ali mesmo, no meio da rua. Outras atrações eram a academia de boxe de Murilo Rego, o circo criado por nós mesmos na casa dos Bouletreau, os rachas de futebol e os jogos de bola de gude na rua de trás. As lembranças da casa de tia Hélen com a coleção "Tesouros da Juventude" à nossa disposição, os primos, seus convites para almoços e os maracujás no quintal. Alí eu me aquietava... Havia paz...

Numa tarde, quando já havia sombra no lado da rua que fica na encosta do Monte, estava toda a galera sentada na calçada da casa de Paulo Ernesto, atirando pedras de baleadeira nos maracujás que apareciam sobre o portão do quintal da casa do meu primo Abelzinho. Nessas ocasiões em que a meninada estava reunida, alguém sempre inventava alguma “bafunga” para atrapalhar a vida dos demais. Bafunga era uma palavra mágica, desconhecida de mim até então. Quando pronunciada, todos tinham que reproduzir a dificuldade apresentada pelo desafiante, sob o risco de, caso não conseguisse, levar uma “lixa” de todos. 

Eudo, irmão das lindas morenas Edla e Euda, após acertar diversos tiros nos maracujás, gritou: - É bafunga! Foi um reboliço danado... Ninguém atirava tão bem quanto Eudo. Às vezes ficávamos apenas observando sua incrível pontaria. Era mesmo de impressionar... Por saber-se disparadamente melhor atirador que qualquer um de nós, ainda deu uma colher-de-chá: - Quem não acertar pelo menos um em cada cinco tiros, terá que ir até a mercearia e gritar "Bafo de Onça!" 

Quase ninguém acertou. 

Cada um criava uma maneira diferente de cumprir a pena sem ser alcançado pelo João Bafo de Onça... 

Até que chegou a minha vez, e não fiz diferente: errei também. A minha preocupação nem era ser agarrado pela fera, pois, isso não seria problema: éramos todos muito ágeis. O meu medo maior era ser flagrado por ele na hora do grito, e depois ter que enfrentar tio George, que não tolerava esse tipo de comportamento. Atravessei a rua e saí pela calçada da casa de Abelzinho até a mercearia. Com a cabeça colada à parede, fui aproximando meus olhos da primeira porta na esperança de encontrar o dito cujo de costas ou distraído, para não ver quem gritara seu apelido. Notei então que ele não estava no balcão como de costume, nem em outro canto da “venda”. “Puxa! Que sorte a minha! Eu ainda poderia tirar uma onda com a turma, gritando seu apelido de dentro da mercearia, numa demonstração de extrema coragem...Assim fiz...gritei a todo pulmão: "BAFO DE ONÇA!!!" E dei meia volta imediatamente para sair logo dali de dentro, mas, João Bafo de Onça estava atrás de mim, à porta, com os braços abertos numa imensa e inesperada armadilha na qual afundei e fiquei fortemente preso por seus imensos braços.

- Vou levar você pro Sargento George! - Gritou, justificando o apelido, mas, a minha reação de pânico, aos onze anos, foi tamanha, que ele assustou-se e me deixou ir.

Passei um bom tempo indo pra Rua Preta, só pelo lado de cá da rua.








sexta-feira, 13 de outubro de 2006

"Menino de Rua"- Esse Bravo Sobrevivente.





Contra tudo e contra todos.



O policial civil, que pernoitaria na Delegacia da Ceilândia - cidade satélite de Brasília - por ordem do delegado, tirara Divina da cela, onde se encontrava com outros meninos de rua, todos detidos durante uma batida policial nas ruas da cidade, no final daquela tarde, e a colocara numa cela desocupada, por alegar preocupação com possíveis maus tratos ou abusos sexuais durante a madrugada.

Divina tinha onze anos e, como era de se esperar, os sinais da puberdade ainda não haviam se revelado. Tinha a pele levemente bronzeada, os cabelos castanhos claros quase loiros, e um porte físico inferior ao da maioria das meninas da sua idade, apesar de não ser magra.

Por volta das duas horas da madrugada, o policial acordou-a com um sanduíche e um refrigerante para matar a fome, já que não fora oferecida nenhuma refeição àquelas crianças, com idades entre onze e dezesseis.

Em seguida, após despi-la, recebeu, sem nenhuma resistência da menina, seus carinhos através de sexo oral e depois a penetrou por trás, após pedir-lhe para ficar de quatro com o bumbum encostado às grades... O delegado, por segurança, havia levado as chaves da cela de Divina.

No dia seguinte, o grupo de meninos foi encaminhado ao Centro de Observação do Menor Infrator - na Asa Norte de Brasília - mas Divina não veio com eles. Só um mês depois, nós a receberíamos nesse centro de triagem.

Chegou por volta das 10h30min da manhã e, aos gritos de alegria e gargalhadas, juntou-se às dezenas de outras crianças de ambos os sexos que aguardavam ali - após entrevistas com psicólogos, exames médicos e odontológicos - a decisão: se retornariam a seus “lares” ou iriam para a FEBEM.

Aquele policial continuou abusando sexualmente dessa menina, durante todo o mês em que ela permaneceu ilegalmente naquela Delegacia. Ela contara isso sem nenhum constrangimento à equipe do Centro encarregada das entrevistas, bem como a todos nós, demais funcionários e internos.

O meu trabalho era o de Atendente Custodial, em turnos que incluíam plantões diurnos e noturnos. Todas as atividades dos internos no interior do Centro eram acompanhadas por nós, os atendentes: desde o horário de acordar, aos ensinamentos de como deviam fazer seu asseio matinal, o encaminhamento às salas de aula ou atividades criativas, esportes, lazer, refeições, e à sala de TV à noite, antes de se recolherem às suas celas, divididas em alas masculina e feminina, assim como nós, os atendentes. 

Outro interno, Manuelzinho, um preto azulado, de onze anos também e magérrimo, contara em prantos que fora abusado sexualmente numa outra delegacia pelos próprios “colegas” de cela, havendo sido penetrado na mesma ocasião por dezesseis deles, todos com idades superiores a quinze anos, tendo que ser levado, ao amanhecer, ao Pronto Socorro para estancar uma hemorragia.

No segundo ano de internato, Divina menstruou pela primeira vez. Ela permaneceu no Centro de Observação por um período muito maior do que o necessário para a triagem, por não ter casa para onde ir, e por haver se tornado uma espécie de símbolo dos abusos praticados nessas crianças, pelos que recebem da sociedade para protegê-las.

Elas chegavam ao Centro como protagonistas de uma história vivida num mundo desgraçado, sob os olhares indiferentes de uma sociedade espectadora e hostil e, ao saberem do carinho com que seriam tratadas naquele internato, nos perguntavam através das últimas esperanças que ainda teimavam em habitar seus olhares: De que lado estão vocês?... A quem servem?... Aos exploradores ou a nós?...

Nosso corpo é a nossa primeira ferramenta para enfrentar e/ou modificar o mundo mas, para aqueles meninos de rua, os seus corpos eram apenas moeda de troca por um prato de comida ou pela liberação numa eventual “batida policial”.

Naqueles dois anos que convivi com eles, tomei conhecimento, dia a dia, desse seu mundo miserável, da realidade brutal em que todos nós estamos metidos e cuja compreensão é embotada pelas palavras elegantes dos técnicos e sua ciência super-abstrata, ou pelas enganadoras dos políticos que tanto nos envergonham e enojam com suas mentiras, suas falcatruas, suas leis cheias de brechas...

Por que fugiam?... Eu não conseguia entender...

Quando pensávamos que havia um clima de confiança, de amizade até, pois acabávamos nos afeiçoando à maioria deles, éramos surpreendidos com uma fuga em massa.

No início, eu julgava ser pela busca da liberdade. A liberdade total oferecida pela rua: sem pais, irmãos mais velhos, professoras, horários, mesmo tendo em contrapartida a fome, o frio, a falta do lar, da mãe que os trocara pelo novo homem de sua vida.

Hoje, percebo que havia mais que essa busca pela liberdade. Os seus valores e as suas necessidades eram outras e tinham que ser supridas instantaneamente. Numa vida tão cheia de frustrações e humilhações, apenas aquilo que fosse capaz de produzir um prazer imediato: comida, sexo, bebida, maconha, cola, ou um gesto de valentia, seria seguro. Qualquer sentimento de prazer atrelado a um futuro abstrato, por mais próximo que estivesse, poderia frustrar-se, porque corria o risco de ser suprimido em algum momento por qualquer “autoridade”, inclusive a policial, ou a desconhecida que passava no carro de luxo em direção ao seu isolamento social.

O tempo passou e agora eu estava há oito anos, envolvido mais uma vez com as atividades de bancário, desta feita na agência do Banco Nacional de Crédito Cooperativo, em Recife, aonde chegara havia uns seis meses, transferido da agência de Ilhéus, na Bahia.

Através do vidro, pude ver aquela criança loira, de uns dez anos, com jeito de menino de rua, tentando chamar minha atenção agitando os braços sobre a cabeça. Quando percebeu que o havia notado, esboçou imediatamente um sorriso escancarado e, com uma das mãos, fez repetidos gestos me chamando. Era final de tarde e, àquelas horas, eu costumava sair da agência para comer uma tapioca quentinha, feita por uma senhora que todas as tardes montava seu tabuleiro bem ali, onde aquela criança estava.

Aproveitei para sair naquele instante e ver também o que queria aquele agitado menino.

Pediu-me um litro de leite. Estava com fome.

Ofereci tapioca mas, não... queria um litro de leite.

Dei-lhe o dinheiro e ele saiu correndo, com as mãos na posição de quem segura um volante de carro, buzinando e fazendo curvas.

A padaria era próxima e ele retornou a tempo de tomar todo aquele leite ali, na minha frente, após rasgar o saco plástico com os poucos dentes que lhe restavam.

Apresentava trejeitos de quem tinha talvez algum problema motor. Sua voz era como a de um bebê dengoso ou coisa assim, mais fina que o normal para a sua idade e tinha entonações que revelavam carências imensas.

Perguntou meu nome e, após ouvi-lo, passou primeira e arrancou em disparada, fazendo a curva na esquina do banco, em flagrante contramão. Voltou à noite, quando encostei a cabeça no travesseiro, após beijar meus três filhos em suas camas.

Custou-me dormir... Como seria o nome dele, onde estaria dormindo, como se defenderia dos colegas mais velhos e cheios das indispensáveis malícias para permanecerem vivos?

Achei que deveria ter perguntado tudo isso antes de vê-lo partir em seu carro... No dia seguinte, no final da tarde, o segurança da agência chamou-me para dizer que havia um menino perguntando por mim. Fui até a porta e lá estava ele, Edvaldo. Era o quinto filho de um total de doze, que sua mãe tivera em um pequeno lugarejo nas proximidades de Goiana, cidade localizada às margens da BR, que liga Recife a João Pessoa. Dormia na soleira do Quartel do Corpo da Guarda do Governador, vizinho ao Palácio do Governo, porque tinha medo dos “trombadinhas”.

Precisava de mais um litro de leite e também de ajuda para permanecer vivo, mas pediu-me apenas o litro de leite.

Em mais essa noite e em todas as outras que se seguiriam, ele viria com sua carinha de desprotegido, com seu peito nu, seu calção de pano de saco sujo e fedido, sua boca sem dentes, sua voz de deficiente, suas carências infinitas e seu carro veloz e barulhento para me tirar o sono.

Bastava imaginar se fosse um dos meus filhos que estivesse vivendo uma situação daquelas e eu me desmontava. Não conseguia mais dormir. Passei a querer saber mais sobre sua vida e a dos seus pais e irmãos. Seu pai havia abandonado a família e sua mãe tinha problemas mentais. Seus irmãos mais velhos estavam internos na FEBEM e os mais novos estavam com a mãe. Ao lhe perguntar se não sentia saudades da mãe, encheu os olhos de lágrimas e respondeu que sim, mas lá não tinha comida.

Eu viajava com freqüência a João Pessoa com meus filhos para visitar meus pais e irmãos e, na primeira viagem que fiz, levei Edvaldo também, tomado banho, de roupa nova e mais algumas na bagagem, além de uma feira completa para no mínimo trinta dias. Chegamos de surpresa ao lugarejo e à sua casa. Ambos eram paupérrimos. O questionamento que eu mesmo me fizera sobre por que sua mãe não lavava roupa para algum vizinho, estava explicado: ninguém ali tinha condições de pagar nada para ninguém.

Ao verem Edvaldo, foi uma festa. Todos o abraçavam e gritavam... Ao ver a feira, sua mãe me falou:

­- Desde anteontem ninguém come nada aqui, hoje eu já corri duas vezes pela rua de tanta fome!

A alegria dele e da sua família em se encontrarem deixaram-me muito feliz, apesar da dor com tanta injustiça e abandono.

Um mês depois, sou surpreendido com Edvaldo de volta às ruas do Recife.

- Mas rapaz, o que vieste fazer aqui? Tu não estavas tão bem com tua mãe e teus irmãos!

E ele respondeu.

- Acabou a comida!... Com aquela voz de bebê.

Procurei por diversas vezes interná-lo em abrigos donde sempre fugia para a liberdade das ruas.

Patrocinei por três vezes a compra de isopor e o dinheiro necessário para iniciar a venda de picolés, mas poucos dias depois, aparecia sem a caixa que havia sido tomada pelos meninos maiores.

Uns três anos depois, o banco foi extinto e assim eu perdi o contato com Edvaldo.

Abri o meu primeiro bar, o El Bodegón e, depois de uns dois anos, ele aparece de surpresa, após conseguir o endereço com um colega meu do banco, que encontrara casualmente na cidade.

Agora já era um rapaz , mas não perdera o jeito meio de bobo, sua voz fina, e sua imensa alegria quando me via.

- Rodolfo! "Sê meu pai!..."

Costumava me desmantelar com essa frase.

Permiti, então, que dormisse no interior do bar, após o fechamento. No horário de funcionamento, fazia as vezes de flanelinha, guardando os carros dos clientes a quem cativava com aquela sua voz e suas brincadeiras e, aos domingos, era meu vigia, já que não abríamos naquele dia da semana.

Após alguns meses, numa segunda-feira à noite, aproveitando o movimento menor no El Bodegón, fui até o bar de Fernando, que funcionava nas imediações do meu. Entre um whisky e outro, Fernando me alerta que Edvaldo estava abrindo o bar aos domingos à tarde, para venda apenas de bebidas e, que no dia anterior, estivera lá e se servira de algumas cervejas.

Nossa! Não era possível!

Voltei às pressas para o bar e, ao encontrar Edvaldo, perguntei:

­- Ô, rapaz! É verdade que você abriu o bar ontem e vendeu bebidas?

- Foi Rodolfo! Deu R$ 180,00. É noventa teu e noventa meu.

Claro que encerramos aí nosso relacionamento profissional, antes que acontecesse um problema maior.

Uns dois anos depois, ao abrir o El Paso Cabaré, na Rua do Bom Jesus, voltei a encontrá-lo. Estava extremamente musculoso. Fazia academia e lutava boxe. Trouxe-me alguns recortes de jornais com fotos suas lutando e era chamado de “O Holyfield Pernambucano”. Também uma fita de vídeo na qual ele próprio apresentava a academia onde treinava, falando corretamente, sem aquela voz infantil.

Fiquei muito feliz em vê-lo vencer tantas dificuldades sem se prostituir, sem seguir o mesmo caminho de todos os outros seus colegas de infortúnio.

Para levantar alguma grana, fazia apresentações em plena Rua do Bom Jesus, superlotada de pessoas, naqueles primeiros anos de funcionamento, quebrando coco verde com um único golpe com a mão espalmada, dava saltos de Kung Fu e fazia evoluções dos movimentos de Karatê.

Depois de um ano desaparecido, chega irreconhecível no El Paso. Mal conseguia andar e perdera também os movimentos em um dos braços. 

Conhecera uma mulher que estava morando numa casa que era disputada por herdeiros – seus irmãos. Para se proteger dos mesmos, convidou Edvaldo para morar com ela como companheiro, com direito a roupa lavada, comida e ainda alguns trocados. Em troca, ele a protegeria dos seus irmãos. Após uma primeira investida deles rechaçada pela bravura de Edvaldo, voltaram armados na semana seguinte, e acertaram cinco tiros de revólver calibre trinta e oito: um na perna, outro na coxa, um no ombro, outro no abdome e o quinto no pescoço.

Fazia pena vê-lo pelo Recife Antigo, tentando quebrar cocos ou reproduzir os movimentos das artes marciais que tanto amava e para as quais agora estava inutilizado.

Fui à procura dessa mulher e disse-lhe tudo o que um pai poderia dizer em defesa do seu filho.

Uns dois anos depois, ou seja, há uns quatro anos atrás, ao passar de carro pelo Parque Treze de Maio, escuto o grito do meu nome com sua voz inconfundível: “Roodoooolfoo!

Era ele. Vinha correndo atrás do carro, enquanto eu procurava um local para uma breve parada, já que era impossível estacionar ali.

Ficamos muito felizes em nos reencontrarmos e, após a troca de algumas palavras, ele disparou, com sua voz de eterno menino:

- Rodolfo! "Me dá" o número do teu celular...

- Eu não uso celular, Edvaldo..

- Então, anota aí o número do meu...

A desigualdade social que divide a sociedade brasileira é o principal fator determinante da criminalidade e do comportamento desviante das crianças e adolescentes e, conseqüentemente, da repressão que sofrem, inclusive com a eliminação física.

Com efeito, existem certos grupos de pessoas que se tornam, ao longo dos anos, o alvo da violência ilegal do Estado e da sociedade. Inicialmente, foram os índios, depois os negros. Nos anos 20, os anarquistas; ao longo dos anos 30, os comunistas. Durante o golpe militar, todos os que se opunham à ditadura. A partir dos anos 80, os meninos de rua tornam-se os “inimigos da sociedade".

Os grupos de extermínio desses menores têm origem nos esquadrões da morte dos anos 70. Muitos policiais do período do regime militar acabaram se engajando, posteriormente, nesses grupos. Os exterminadores são pagos por comerciantes e outros setores da sociedade, aos quais, a ação ou mesmo a simples presença de meninos de rua perto de seus estabelecimentos causa transtorno e prejuízo.

A impunidade dos exterminadores de meninos de rua deve-se, em grande parte, à ineficácia da Polícia Civil na elaboração do inquérito policial, o que imobiliza a atuação do Ministério Público. Os inquéritos elaborados pela Polícia Militar, em razão de diversas irregularidades, conduzem também à impunidade dos policiais militares suspeitos desses homicídios. O Poder Judiciário, que já é lento no julgamento dos processos em geral, fica limitado, ainda mais, pelo mau funcionamento das Polícias.




quarta-feira, 4 de outubro de 2006

"Doce de Coco" e seu Sutiã de Espuma de Borracha.

Doce de Coco






Quando o táxi parou em frente a casa, desci ofegante, olhando para os lados, o coração acelerado, mas, não era medo o que sentia. Estava apenas chegando em Tambaú, com “a mala grande na mão”, (*) para o meu primeiro verão à beira mar.

Acabara de abandonar o emprego em São Caetano e a generosa hospitalidade da minha tia Dolores em Caruaru, para atender chamado de papai e voltar a morar com eles - pais e irmãos - pela primeira vez numa cidade maior.

É mágico, inesquecível mesmo, em plena adolescência, entrar de cabeça e coração num verão abrasador, numa praia linda, lotada de também adolescentes, vindos do centro de “Jampa” e das cidades vizinhas, somados aos poucos que permaneceram na praia, mesmo durante o inverno, quando Tambaú costumava ficar praticamente deserta.

Quase tudo era novidade.

Lá, já estavam alguns amigos que vieram de Umbuzeiro uns anos antes da gente, e que serviram como elementos de entrosamento com o restante da turma.

Minha vida dera uma virada de trezentos e sessenta graus. A dureza do trabalho de dois expedientes em São Caetano, com as aulas à noite e a residência em Caruaru, foram trocados por uma festa permanente à beira mar. Saía de casa por volta das cinco da manhã como querendo conferir se aquele marzão ainda estava lá com todas aquelas oportunidades de diversão, e caía naquela água deliciosamente morna, já àquela hora. Não, não era sonho! Estava tudo ali, todos os dias, a toda hora, à minha disposição.

O bronzeado veio logo na primeira semana, em seguida foi saindo em tiras de pele, para depois fixar-se definitivamente sob meu atento olhar através do grande espelho do quarto de mamãe, quando chegava em cima da hora para almoçar. Entrava no quarto ainda pingando água salgada, com areia nos pés, e logo baixava um pouco a sunga para conferir que restava apenas uma estreita faixa de pele cada dia mais clara. Renato e Seus Blue Caps saia pelas portas e janelas aos gritos, com suas versões que ganharam nomes como Meu Primeiro Amor, Dona do Meu Coração, Menina Linda, Você Não Soube Amar, Até o Fim, Feche os Olhos, Primeira Lágrima, Não te Esquecerei...

Almoçávamos nesse clima, sempre peixe e todas as demais delícias que aquele mar oferecia, e que antes não podíamos saborear em Umbuzeiro.

A alegria de papai por estar morando na praia, próximo ao seu irmão nosso tio George, e poder oferecer aos filhos - após dezesseis deliciosos anos no interior - a vida numa cidade “grande” com tudo o que isso representava, também nos contagiava. Para mim não foi difícil encontrar quem admirasse Montilla com Coca-cola, cigarros, garotas, futebol, voleibol e assustados. Passei então a integrar esse grupo, que era o grupo de quase todos.

Pela manhã nos encontrávamos à beira mar, em frente à Avenida Nego. Entre um flerte e outro - de preferência com as garotas recém chegadas à praia para aquelas férias - disputávamos rachas na areia fofa e quente sob um sol sufocante, para depois cairmos n’água e nadarmos até o bote de Eg, que ficava ancorado estrategicamente a uma distância que nos levava sempre a refletir se valia a pena correr aquele risco. Corríamos... Sempre.

À tarde fazíamos excursões em direção às praias de Manaira e Bessa, onde ainda não havia quase construção alguma e colhíamos cajus e tirávamos coco verde subindo heroicamente naqueles altos coqueiros. Eram desafios que tínhamos que vencer a cada dia para nos firmarmos no grupo. Voltávamos para casa ao anoitecer, depois que conferíamos o andamento das obras de construção do Hotel Tambaú que estavam no início.

Só dava tempo de tomar banho, jantar, colocar uma camisa colorida, um pouco de “Lancaster” e sair ofegante à procura dos amigos.
                                                                          
Encontrávamo-nos na calçadinha da beira mar. Ali, os flertes do dia podiam transformar-se em paquera. Ali, também, alguém sempre oferecia sua casa ou sugeria a de outro que não estava presente, para um “assustado”. Chegávamos todos à casa do escolhido fazendo um barulho infernal e trazendo junto a nossa alegria. Logo nos se cotizávamos para a compra de um “Piratinha” e algumas cocas-cola enquanto o pessoal da casa, depois de retirar alguns móveis da sala ia providenciando gelo, copos, e entregando-nos o controle do som. Geralmente, a maioria de nós era desconhecida do pessoal da casa, o que não chegava a ser nenhum problema e, antes de terminar a festa, já estávamos indo até a cozinha apanhar gelo ou ver se havia alguma sobra do jantar para tira-gosto.

No meio do verão Dudé chegou de Campina Grande com seu violão e suas composições, deixando todos encantados com sua arte de músico e, boquiabertos quando, por diversas vezes numa única noite e atendendo a repetidos pedidos, desafinava uma das cordas do violão para solar “Som de Carrilhões”.

As meninas cercavam Dudé como um astro de TV mas, logo descobrimos que um litro de rum e algumas garrafas de coca lhe atraiam muito mais. Assim, tínhamos ele e seu violão ao nosso lado, embalando nossas farras à beira mar, até o dia chegar.

Nossa! Eu só dormia porque não havia outro jeito...

Construímos o campo de vôlei na esquina das avenidas Nego com Antonio Lira, ao lado da casa de Salete Catão, depois Grisi, ao se casar com Eduardo.

Com o sorteio de algumas rifas conseguimos a grana para as camisas rubro-negras da nossa equipe e a iluminação do nosso campo, possibilitando jogos e rachas à noite.

Passei a integrar a equipe de vôlei da Négo, e disputamos o campeonato das praias contra as equipes do Cabo Branco, Manaira, Camboinha e Cabedelo.

Os “Germóglio” Mauro, Remo e Israel eram a base do nosso time. Na equipe de Manaira, outro Germóglio: Humberto “Tubarão” com suas “enfiadas” indefensáveis. O contato com a família Germóglio, incluindo aí Mário, que era apenas torcedor, foi muito enriquecedor. Sempre tínhamos alguma coisa boa para aprender com eles... Era só ficar atento. A admiração por Mário e a maneira amiga como criava os filhos ainda pequenos, disputando tiro ao alvo com baleadeira contra caixas de fósforos, sentado no chão como criança também, marcaram muito aqueles dias e, com certeza, me influenciariam mais tarde ao criar meus filhos.

Lembro-me que, no inverno seguinte, ao me ver com alguns amigos em frente ao que sobrara da nossa fogueira de são joão da noite anterior, assando uns pedaços de carne e tomando vinho sob uma chuvinha fina, foi até sua casa que ficava quase em frente à nossa e voltou com um enorme pedaço de carne macia, em vinha-d’alhos, dizendo ser um pernil desossado de ovelha gaúcha, só confessando que era carne de baleia depois que todos comemos e elogiamos. Nessas situações, mantinha, por alguns instantes, um amigável e irônico sorriso enquanto ficava atento às nossas expressões de desconcerto.

Nos finais de semana à tarde, o grupo de uns cinco de nós que permaneceu mais unido, encontrava-se em um quartinho nos fundos da casa de Da. Benvinda, mãe de Eliezer. Logo transformamos aquele espaço numa espécie de quartel general, onde ouvíamos boa música brasileira, e tínhamos os primeiros contatos com a música erudita. Ali também, traçávamos os planos das traquinagens seguintes, incluindo aí, por ordem de Eliezer, a tutela sobre as galinhas que sua mãe criava, e que acabariam na panela de Neném – minha irmã, cúmplice e confidente – acompanhando algumas garrafas de Serra Grande.

Precisávamos de um jornal. Um jornal nosso. Editado, impresso e distribuído por nós mesmos. Precisávamos contar aos adultos as nossas saudáveis transgressões, dividir com eles a nossa alegria, as nossas paqueras; expor os nossos planos para o mês seguinte, criticarmos as mazelas que presenciávamos, botar pra fora toda aquela energia que era alimentada por violão, cachaça e paixão. Juntei-me a Pinheiro e Griselda e publicamos mensalmente “O Sabiá” - Jornal etílico-satírico-cultural – que fazia a maioria dar boas gargalhadas e alguns poucos se arretarem com as nossas eventuais perda de limites.

Caminhávamos e cantávamos e seguíamos a canção, contra o vento, sem lenços, sem documentos, sem nos contentarmos apenas em ver a banda passar num domingo no parque ou em frente aos Festivais da Canção na TV Record... Amávamos também os Beatles com Hey Jude, Help! ou Yesterday; os Rolling Stones com Satisfaction e Bee Gees com Massachusetts e New York Mining Disaster 1941.

Respirávamos revolução em Tambaú contra o golpe militar de seis anos atrás, e o mundo respirava revolução em Havana com o frescor da sua rebelião; na França, com as manifestações pedindo a saída de De Gaulle; na África, que iniciava a descolonização; e até no Vietnã, com a bem sucedida ofensiva norte - vietnamita do TET, prenunciando a derrota e expulsão do exército ianque do solo pátrio.

As informações sobre a passagem de Sartre pelo Brasil na década anterior e seu engajamento para apressar a Revolução Socialista, deixaram-me definitivamente apaixonado pela França e por filosofia. Queria morar lá, à beira mar, numa casa de madeira sobre um penhasco, repleta de livros de filosofia, garrafas de vinho nativo, filmes de Godard e Truffaut e, acompanhando o canto das gaivotas naquela praia nublada, a música e os excitantes sussurros de Je t’aime... moi non plus, enquanto esperava entrar porta adentro Brigitte Bardot, endiabradamente linda e sedutora, tentando convencer-me a beija-la. Sonhos de adolescente que terminavam sob o chuveiro.

Conseguir desenrolar uma transa sem gastar uma grana qualquer era tarefa quase impossível naqueles tempos e naquela idade.

Vivíamos pastoreando as operárias do lar, ou melhor, dos lares vizinhos, que na maioria das vezes já tinham seus namorados, mas, não se furtavam à possibilidade de uma aventura com um de nós. Mas isso, normalmente, requeria investimento de tempo e muito papo. Elas deitavam e rolavam com o nosso assédio e isso tinha um lado positivo pela expectativa que criávamos quando acertávamos algum encontro com uma delas.

Por ironia, era justamente no edifício Cannes, à beira mar, onde fazíamos nossas investidas com mais freqüência.

Eliezer, sem dizer nada a ninguém, vinha se dando bem com a nova auxiliar que sua mãe contratara, e, para não perde-la ou dividi-la com mais alguém, mantinha isso em segredo, até o dia em que resolvi acordá-lo ainda de madrugada para uma pescaria aproveitando a maré vazante e eis que, encontro os dois em nosso quartel general, como dois pombinhos. Há mais de um mês ele havia se mudado definitivamente para esse quartinho de trás, e vinha curtindo a linda Conceição em segredo. Agora que eu sabia de tudo, a melhor maneira que ele encontrou para não ver a sua conquista assediada, foi encontrar uma colega dela para mim.

Apresentou-me, uma semana depois, uma amiga de Conceição que havia chegado do mesmo interior dela há uns quinze dias, para trabalhar em uma casa vizinha à dele. Era uma loirinha de cabelos curtos, cheinha da cintura pra baixo, com um lindo sorriso e seios imensos. Imensos mesmo...

Eu nunca havia visto nada igual nem em fotografias. Mas era muito jovem, devia ter uns dezoito anos, dizia que ainda era virgem e falava sempre com o olhar baixo, envergonhada, mas, demonstrando uma vontade enorme de cair na farra e provar de tudo que tinha direito.

Fiquei imaginando como seriam aqueles seios fora do vestido e sem o sutiã... Ela era muito clara e disse-me que seu apelido na sua casa do interior era “Doce de Coco”. Continuei tentando imaginar aqueles seios, sua cor, sua temperatura, se seriam flácidos... Não! Não poderiam ser flácidos naqueles dezoito anos, mas, como ficariam sem o sutiã?

Combinamos de nos encontrar à noite no quartinho de Eliezer mas, quando lá chegamos, ele e Conceição já estavam se dando bem. Ficamos então do lado de fora do quarto, próximo ao galinheiro mas, não... Ali não haveria chance mesmo. Ela não viera de saia como havia lhe pedido. Estava usando uma calça jeans bem apertada e uma blusa amarela.

Tive então a idéia de pedir-lhe para esperar um pouco enquanto eu ia apanhar o Jeep de papai.

Tirei o Jeep da garagem empurrando para não acordar papai e saí todo entusiasmado para encontrar Doce de Coco.

Estacionamos ali mesmo, no terreno desocupado vizinho à casa de Eliezer, bem colado à parede do quartinho onde ele e Conceição estavam. Tentei convencê-la a tirar aquela calça apertada, mas não teve jeito. Continuava de cabeça baixa, sem dizer uma única palavra, enquanto eu tentava de tudo. Usava os melhores - que eu supunha ser – argumentos, e nada...

Passei então a assediar seus seios: - Deixe eu ver como são... E, para animá-la um pouco mais: - As meninas daqui não têm seios tão grandes e bonitos assim. Deixe-me vê-los, quero beijá-los...

Quando eu já estava perdendo a paciência, Doce de Coco resolveu mostrar-me os seios. Levantou a parte de trás da blusa e com as duas mãos soltou o colchete que prendia aquele heróico sutiã. Ajudei-a a retira-lo de baixo da blusa e coloquei-o sobre o banco traseiro do Jeep. Acreditem... Ele tomou toda a extensão do banco traseiro, e as conchas onde ficavam os seios eram maiores que qualquer chapéu de couro dos grandes.

Fiquei a olhá-lo por uns segundos, antes de encarar seus ocupantes.

Acendi a luz de cortesia do interior do Jeep e, com a indispensável colaboração de Doce de Coco consegui colocar sua blusa acima dos seios.

Nossa!... Eram imensos!... Imensos!...

Fiquei por mais alguns segundos sem saber o que fazer com tudo aquilo...

Coloquei a mão sobre eles... Senti sua consistência, sua temperatura, e parti para o ataque.

Beijei meio sem jeito o que estava mais próximo a mim... e... Putz Grila! Tinha cheiro e gosto de espuma de borracha. Da espuma de borracha que forrava seu enorme sutiã.

Fiquei sem graça. Não sabia como desconversar e justificar o meu agora completo desinteresse por tudo aquilo. Tive então a idéia de, disfarçadamente, enquanto dava a impressão que iria beijá-los outra vez, atolar a mão esquerda na buzina, fazendo Eliezer abrir a porta do quartinho tão assustado quanto as galinhas da sua generosa mãe.

Doce de Coco foi para a casa onde trabalhava e, ao completar um mês de serviço voltou para o interior, virgem como chegara.

(*) A mala grande – Meu irmão Alexandre, à época com quatro anos, perguntava-me sempre quando eu iria de vez para Tambaú, já que, quinzenalmente, largava Caruaru e ia curtir um final de semana com eles na praia, retornando no domingo à tarde. Respondia-lhe então: No dia que eu chegar com a mala grande, é porque não voltarei mais.