sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

A Sentinela.







Meus pais saíram de Umbuzeiro quando eu tinha dezoito anos.

Nessa época, eu morava e estudava em Caruaru e trabalhava durante o dia em São Caetano como almoxarife do escritório da Compesa. Papai fora transferido para João Pessoa onde alugou uma casa bem à beira mar de Tambaú e, imediatamente, escreveu-me uma carta sugerindo minha volta para casa, já que, o principal motivo que me levou a Caruaru – que era dar continuidade aos estudos – não tinha mais razão de ser. Agora eu poderia estudar em casa, junto a eles.

Durante uns três meses passei a visita-los quinzenalmente, até o dia em que, encorajado pelas promessas de emprego de alguns amigos nossos, larguei a Compesa e fui curtir diariamente o prazer de morar com minha família na praia.

Passaram-se três anos até que conseguisse um emprego razoável no Banco Comercial da Produção, um dos poucos em João Pessoa naquela época. Nesse intervalo, trabalhei no escritório do Posto Esso Metrópole, no Jornal “O Norte” como revisor, e em um escritório de contabilidade.

Recebi o telegrama do banco confirmando minha nomeação, no dia anterior ao marcado para a apresentação. Lembro-me da alegria incontida... Até que enfim voltaria a ter um salário melhor!

Foi tudo muito rápido. Não tive tempo nem mesmo para comprar uma camisa social branca e uma gravata, traje de todos os bancários daquele tempo. Passara o dia entregando minhas tarefas no escritório para o funcionário que me substituiria. Só à noite percebi que precisava cortar o cabelo, e que a única camisa de mangas compridas no guarda-roupa era uma vermelha, de veludo, usada para ir às aulas no frio de Caruaru há três anos atrás.

No dia seguinte, apresentei-me assim ao gerente do banco, onde cheguei com uma hora de antecedência. Antes do início do expediente, numa rápida reunião, fui apresentado aos colegas. Cochichos acompanhados de sorrisos provocados por minha “discreta” camisa, não diminuíram meu entusiasmo.

Ao final da reunião, enquanto o gerente-administrativo me passava as primeiras tarefas, tratei de garantir o emprego informando que cortaria o cabelo e compraria roupas adequadas, imediatamente. Passei aquela primeira manhã executando as tarefas mais simples da agência e aproveitando para me entrosar. Todos eram muito amigáveis, e eu não sabia mais o que fazer para agradá-los. Afinal de contas, foram três longos anos esperando aquela oportunidade.

Minha camisa vermelha de veludo deixou de ser comentada à boca miúda. Numa roda de funcionários, próximo à hora do almoço, o assunto foi motivo de gozações e perguntas do tipo: “Onde tu comprou essa, tinha pra homem?”. Mas, antes que eu ficasse constrangido, todos contribuíram com uma enorme gargalhada coletiva, deixando-me mais à vontade.

No horário determinado para meu almoço, um funcionário, escolhido pelos demais sem que eu soubesse, entregou-me uma caixa de papelão contendo uns três mil clipes de tamanhos e modelos variados, pedindo para que eu os separasse e contasse, anotando tudo numa folha de papel. Passei todo o horário do almoço executando essa tarefa, até ser encontrado pelo gerente que, constrangido, embora com um leve sorriso nos lábios, me informou que aquilo era um trote aplicado aos novatos. Entretanto, em vez de ficar chateado, confesso que até gostei. Talvez fosse um sinal de que havia sido aceito pelos colegas.

No meio da tarde, pedi ao contínuo para comprar um sanduíche na lanchonete ao lado e fui “almoçar” na cantina da agência, que ficava nos fundos do prédio, onde também havia dois pequenos toaletes identificados à porta por duas figuras em acrílico preto, uma de saia e outra de calças, cartola e bengala. Durante o lanche, aproveitei para conhecer melhor aquela parte da agência. Tinha um pequeno fogão de duas bocas onde o contínuo preparava o café, garrafas térmicas, um pequeno armário, xícaras e produtos de limpeza. Havia também, pendurado na parede, próximo aos banheiros, um grande extintor de incêndio. Em face do péssimo estado da pintura, o prazo de validade devia estar vencido.

Enquanto dava as últimas mordidas, me aproximei do extintor para ler as instruções. Era um modelo carregado com espuma. Ali dizia que não deveria ser utilizado em eletricidade e que bastava virá-lo de ponta-cabeça para que funcionasse. Não acreditei que, naquele estado, ele ainda fosse capaz de apagar algum entusiasmado fogo. Nunca tinha visto outro daquele modelo. Curioso, aproveitando que estava sozinho, resolvi testar: queria vê-lo funcionar ou, no mínimo, ganhar pontos com o gerente por haver detectado a sua inutilidade.

Acocorado no centro da cantina, virei e desvirei rapidamente o pesado extintor, e nada aconteceu. Entendi que seria necessário um pouco mais de tempo para que o mecanismo funcionasse. Então repeti a trela, demorando agora uns três segundos com ele emborcado... Mais uma vez, não aconteceu nada. Certamente, deduzi, deveria deixá-lo virado até sair o primeiro esguicho e só então desvirá-lo. Assim procedi. Como um tiro, o jato de espuma veio forte, rápido e barulhento. Mal tive tempo de tirar a cara da frente do orifício. A espuma branca e densa atingiu a parede de azulejos que ficava defronte da porta da cantina, justamente onde, até há poucos minutos, estava pendurado o extintor. “Nossa mãe!!!”. O jato não parou , mesmo quando eu desvirei o extintor. Restou-me tapar o bico com a palma da mão e correr para um dos toaletes, arrastando aquele trambolho para dar vazão dentro do vaso sanitário.

Após entrar no banheiro, tranquei a porta e apontei o bico para o vaso, retirando a mão. O segundo jato veio com a mesma força e barulho do primeiro. Em segundos, o vaso encheu de espuma até transbordar, obrigando-me a vedar o bico outra vez com uma das mãos, mantendo o extintor entre as pernas, enquanto com a outra mão acionava a descarga. Não adiantou nada. A água escorreu toda entre a louça do vaso e a densa parede de espuma, deixando-a intacta.

“Nossa, preciso urgentemente fazer alguma coisa antes que alguém me veja!”. Não acreditava que aquilo estivesse acontecendo comigo. Nunca me metera numa situação daquelas. Acho que me entusiasmei demais pelo novo emprego, o ambiente do banco com aqueles clientes importantes entrando e saindo, aquela responsabilidade ao manusear papéis com valores tão altos... De repente, ouvi o ranger da mola que mantinha a porta da cantina sempre fechada. Alguém acabara de entrar! Colei a orelha na porta e ouvi o barulho da xícara sentando no pires, da colherinha mexendo o café e, em seguida, tudo o que eu não queria ouvir:

- Oxente! O que é isso? Alguém jogou sorvete no azulejo?!...

– Era a voz do gerente.

Preocupado em ouvir o que acontecia do outro lado da porta, afrouxei sem querer a pressão da mão sobre o bico do extintor. Então, uma rajada de espuma imprensada foi liberada entre minha mão e o bico, produzindo um ruído peculiar, ampliado pela acústica do pequeno banheiro. Era um zumbido demorado, estridente, rasgado, cheio de altos e baixos e entonações variadas.

Assustado com aquele barulho, principalmente por vir do toalete, o gerente abriu a porta que ligava a cantina ao interior da agência e gritou para o gerente-administrativo: “Corre, Araújo! Julieta ta passando mal!”. Julieta era uma charmosa morena, secretária da Gerência. Percebi então que, além de tudo, eu me encontrava no toalete feminino. Quanta coisa passou por minha cabeça naquele curtíssimo espaço de tempo entre o grito do gerente e a chegada de Araújo e outros funcionários que se aglomeraram à porta do trágico recinto.

“Minha nossa! Num só dia, ganhar e perder um emprego que eu tanto lutara para conseguir, ainda mais naquelas circunstâncias...” Quando Julieta apareceu, todos ficaram reticentes: “Oxente! Olha Julieta aqui. Quem será então que está aí dentro?” Eu tremia todo. O extintor também. Mas, curiosamente, ele tremia num compasso mais lento, dando pequenos pulinhos. Parecia se sacudir como se estivesse numa contida gargalhada. Ouvi então a voz de Araújo:

- Quem está aí? O que está acontecendo?

Eu, envergonhado, humilhado, e até chateado por não terem sequer notado minha ausência, respondi de dentro daquele solitário “ringue”:

- Sou eu... O novato... Entrei numa enrascada!

Do outro lado da porta fez-se silêncio por alguns segundos, quebrado em seguida pela voz de Araújo:

- Abra a porta, que a gente vai te ajudar!

Primeiro dia de trabalho, encharcado de suor, agarrado àquele imenso e ranzinza extintor, o vaso cheio de espuma pela boca e eu, preso naquele minúsculo toalete feminino, com aquela camisa de veludo vermelha abotoada até o colarinho...

Abri a fechadura, e eles abriram a porta. Foi uma gargalhada só, seguida por uma rajada de comentários... Minhas pernas tremiam incontrolavelmente. Araújo pediu para que lhe entregasse aquele maldito extintor, o que fiz agradecido, com cuidado no trocar de mãos sobre o orifício do bico.

Comandado pelo gerente-administrativo, o extintor foi direcionado mais uma vez para o vaso sanitário, e o seu bico liberado para que deixasse sair toda a espuma que, intransigentemente, insistia em botar pra fora.

Mas que nada! Formou-se apenas um pequeno tufo de espuma no seu bico. Não havia mais pressão alguma, ficando por conta da imaginação de cada um daqueles espectadores o duelo que ali se travara.

A briga daquele extintor fora apenas comigo, que o tirara da quietude daquele posto de sentinela da cantina, posicionado que estava bem defronte da porta há muitos anos; que não acreditara na sua capacidade de estar vivo apesar da aparência de abandono.

Dias depois, após receber uma nova carga de espuma, voltou ao seu antigo posto. Chegou brilhando, com nova pintura, da mesma cor daquela minha camisa de veludo – da qual me desfiz logo no dia seguinte à emboscada.

Quantos segredos deveria guardar?!... Quantas declarações de amor teria ouvido Julieta receber?!... Quantas promessas de ágio vira o gerente recusar?!...

Não conseguimos nos tornar amigos. Mas, pelo menos, nunca mais tivemos problemas um com o outro.

Nos primeiros meses depois daquela exibição de força, confesso que ficava incomodado sempre que ia à cantina e dava de cara com ele assim que abria a porta. Estático, como sempre, parecia sorrir, e eu, prudentemente, demonstrava ignora-lo.

Nunca mais foi utilizado , e nunca mais o despertei de seu aparente sono. Ali continuou sendo um território feito especialmente para ele: incapaz sim, mas apenas de revelar os segredos daquela cantina.

 

Ao meu querido amigo Antonio Araújo de Oliveira (o do texto), que antes de se tornar companheiro de copo e interlocutor sagaz, deu exemplos de generosidade como colega e chefe.





.Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
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"Pablo Neruda"
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