segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Gabiru Sapiens

À minha prima Mariza, filha de tio Abel e tia Hélen,
que é sensível a essa agonia.
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O fedor de merda seca queimando vinha numa fumaça invisível de tão tênue, levando-me, mesmo assim, a quase sufocar, e afastando o bom humor que sempre me acompanha em todas essas caminhadas às primeiras horas.

Estava me aproximando da Praça Procurador Pedro Jorge que fica entre a minha casa e a beira mar de Olinda, e ver aquela criança arrastando e amontoando sacos de lixo das lixeiras próximas para, em seguida, numa eficiente garimpagem, fazer sua primeira refeição, era meu primeiro contato diário com a nossa própria podridão. Certamente, o que lhe parecera alguns biscoitos, não passara de fezes de cachorro, o que o levou a atear fogo naquela sacola de supermercado, numa infantil vingança com endereço equivocado.

Sentado - literalmente - naquele fétido banquete, continuava abrindo e enfiando a mão em cada uma das sacolas, aproximando-as mais dos olhos para distinguir, entre aqueles restos, o que aplacaria a sua ininterrupta fome. Passando ao largo e, entre indignado e constrangido, arrisquei uma rápida e sutil olhadela em sua direção. Coincidentemente ele também levantara a vista fazendo com que nossos olhares se cruzassem. Baixei o meu rapidamente - certamente para ver onde pisava - e voltei em seguida a procura-lo com os olhos, encontrando-o colocando alguma coisa verde na boca excessivamente aberta. Tinha o olhar fixo em algum indecifrável ponto distante; um olhar que berrava gritos surdos porque não ecoavam em ponto algum; um olhar cego porque não identificava o que estava à sua frente, e não encarava sequer o que lhe manteria mais um dia vivo, para mais uma desgraçada manhã.


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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Encontros e Despedidas...






À minha filha Raquel.


Desembarquei em Ilhéus como se entrasse numa dessas estórias da “sessão da tarde”, onde a fantasia tem final previsível e a emoção não produzirá nada além de um coração acelerado, ou de uma lágrima escorrendo meio sem graça até os lábios.

Os contos de Jorge Amado, principalmente “Gabriela Cravo e Canela” desembarcavam comigo e traziam na bagagem o cabaré Bataclan, o bar Vesúvio, as praias ensolaradas e mais um amontoado de situações e romances impossíveis de existir na vida que conhecemos como real. Mas, não sabia eu que aquela cidade tinha seu próprio e imprevisível enredo para minha curta estada em seu solo.

Antes de conferir todos os pontos turísticos, tratei de encontrar um apartamento ou uma casa agradável para morar. Foi uma espinhosa tarefa, pois, ali não se investia em construção civil e sim em fazendas de cacau. Após uns dez dias só havia encontrado uma casa disponível, mas que não oferecia nenhuma condição para que se pudesse levar uma vida compatível com as surpresas que eu esperava daquela cidade. Quando já estava sem esperanças, uma corretora de imóveis me procurou no banco e me fez subir uma curta e escarpada ladeira por trás da catedral da cidade para, inaugurar como morador, o apartamento de primeiro andar com dois quartos e uma agradável varanda voltada para o mar. A varanda dava para o quarto, e entre os dois ficava, sempre aberta, uma grande porta corrediça a me oferecer nas quentes madrugadas daquela ilha, além de uma suave e fresca brisa sobre o corpo quase nu, o burburinho das ondas quebrando nas pedras há uns cem metros lá embaixo, servindo de fundo ao som ritmado dos atabaques de terreiros de candomblé espalhados por todos os recantos. O céu quase sempre todo estrelado de Ilhéus, podia ser admirado dali mesmo, sem tirar a cabeça do travesseiro. Aos poucos a constelação de Órion – que aprendi a identificar através daquele portal mágico – ia perdendo sua cor dourada numa briga de final previsível contra um céu que lhe impunha, gradativamente, um azul cada vez mais claro. Quando as estrelas sumiam, era hora de descer a ladeira para uma caminhada acelerada até a academia de ginástica que ficava na outra extremidade da Praia da Avenida.
Aos domingos, voltando da praia pintado com óleo de bronzear, subia lentamente a mesma ladeira e parava para uma cerveja mofada no bar de Almiro, que existia bem no meio dela, e tinha o simpático e criativo nome de “Meia Embreagem”. A parada seguinte era em casa mesmo, ou melhor, na varanda do quarto com um imenso copo de caipirinha na mão e a paisagem da Ilha de Pernambuco bem à minha frente, tudo isso ao som do disco “Cantoria” de Elomar, Vital Farias e Xangai, recém lançado. “Encontros e Despedidas” de Milton Nascimento, também foi para as lojas naquele ano de 1985, e o meu exemplar veio de Salvador dentro do malote do banco... Não dava pra esperar que chegasse ao comércio de Ilhéus.
O título desse disco de Bituca (Milton Nascimento) “Encontros e Despedidas” sintetizaria todas as emoções que estavam reservadas para mim durante aquele ano, naquela encantadora cidade.
O Teatro Municipal estava em reforma, e a prefeitura armou nas areias da Praia da Avenida uma imensa lona de circo com arquibancadas e tudo mais, para que a cidade não deixasse de receber grandes artistas nacionais. De bermuda, tênis e camisa estampada assisti shows de Wagner Tiso, Dominguinhos, Artur Moreira Lima, Oswaldinho do Acordeom e Paulo Moura. Passar todas as noites, ao sair do banco, numa barraca de acarajé para devorar dois, bem apimentados, era a melhor das obrigações. Eu, que sempre procurava nas cidades aonde chegava uma barraca de acarajé, tinha agora, ao meu dispor, baianas de verdade com acarajés de verdade. Um barzinho próximo ao cinema da cidade oferecia, numa tigelinha de cerâmica, uma deliciosa canja de galinha com pedacinhos de macaxeira mergulhados, e passou a ser o nosso “point” das sextas-feiras após o expediente. Saíamos sempre eu e mais dois ou três colegas do banco que logo se transformariam em amigos e companheiros de copo. Aos sábados, logo às primeiras horas da manhã, caminhava em direção à periferia da cidade já quase na estrada que levava a Itabuna (substituia a academia que fechava aos sábados, por essa caminhada). Ali, o pai de um dos colegas tinha um barzinho onde servia um mungunzá salgado com pé de porco defumado, que eu saboreava como café da manhã, acompanhado de umas três lapadas de uma boa cachaça.
Todas essas inocentes aventuras estavam bem enquadradas naquele meu mundo de administrador de agência bancária, onde a razão dita normas e freia arroubos de liberdade mais incontidos.
Mas, a vida tem caprichos próprios. Age como num jogo onde só ela rola os dados e nós apenas ganhamos ou perdemos. Ela segue seu curso, aparentemente sem se preocupar como aplicaremos se ganharmos ou desprezaremos se perdermos. Digo aparentemente porque, tenho percebido que ela nos interpela lá na frente, ou para cobrar participação nos lucros, ou infligir pena a quem não percebeu que ganhou, mesmo quando o resultado do jogo nos pareceu uma dolorosa derrota.
Logo nos primeiros meses, ao descer a sinuosa ladeira da Rua Muniz Sodré naquele Alto de São Sebastião onde morava, parei para apanhar alguma coisa na carteira e percebi que a janela da casa à minha frente se abriu, surgindo no peitoril uma bonita garota adolescente, de longos cabelos castanhos e olhos vivos. Ao me ver parado ali, bem em frente à sua janela, fechou-a rapidamente, entre assustada e curiosa, para em seguida abri-la outra vez e ter tempo de “despachar”, em minha direção, um lindo sorriso meio acanhado e meio sedutor, antes que eu me afastasse ladeira abaixo.
Aos poucos, os meus horários de subir ou descer aquela ladeira passaram a ser monitorados por ela, e eu me esforçava para não me atrasar em nenhum deles. Trocávamos, inicialmente, olhares que mais pareciam casuais, como se ninguém estivesse interessado em ninguém. Ainda era Janeiro, eu chegara há apenas um mês e já percebia que aquele não era um lugar qualquer. O sol abrasador, tanto enchia as praias quanto tornava estéril nosso senso de razão.
Se eu passava acompanhado dos filhos, ela disfarçava e olhava na direção contrária. Se era ela quem estava acompanhada pelos avós à janela, eu olhava as casas sem graça do outro lado da rua. Aos poucos passamos a segurar esses olhares por mais alguns segundos, tempo bastante para o coração disparar e a adrenalina trazer aquele friozinho à barriga. A brincadeira tomou feições de jogo, e a astúcia instigou a vida a participar. Ela entrou no jogo sem percebermos, deixando seu laço de sedução armado entre aquele pedaço de ladeira e aquela janela. Com sua ardilosa chegada, as estruturas da razão estavam perigosamente a mercê das emoções. 
Fevereiro chegou, e os olhares, por mais duradouros e reveladores que fossem, já não nos satisfaziam. Quais seriam os nossos nomes, os nossos cheiros, as nossas histórias? Como seriam as nossas vozes, as nossas peles, o nosso beijo?
Eu tinha consciência de que não devia ir além daqueles deliciosos olhares. Ela completara apenas 15 anos e eu tinha o dobro da sua idade e dois filhos, embora trouxesse um vazio imenso no coração, e isso me assustava. Poderia estar justamente nesse vazio a porta de entrada para que toda aquela emoção contida jogasse avassaladoramente por terra todos os meus princípios, toda a minha prudência.
Chegou o carnaval... mais precisamente o domingo de carnaval e, de repente, lá estávamos nós, frente a frente, olho no olho, na calçadinha da Praia da Avenida. Cumprimentamos-nos com um beijo na face e conhecemos, nesse mesmo instante, a pele, a voz e o cheiro um do outro. Em seguida soubemos dos nossos nomes e, meia hora depois, nas areias da praia, vi minha lucidez ceder e capitular diante da força instintiva da paixão, levando-me a roubar-lhe um beijo de forma tão inesperada que não lhe dei tempo de oferecer resistência alguma, nem de retribuir aquele primeiro carinho com a intensidade que desejava - contou-me depois.
À noite, com a cabeça no travesseiro e o céu escancarado à minha frente, fui surpreendido pela razão que voltou para me cobrar explicações. Mas, eu já não tinha certeza de que a queria por ali. Não permiti que tomasse assento, mas também não tive coragem de liberá-la. Essa dúvida fez com que mudasse meus horários de descer e subir aquela ladeira. Não sei se ela também fez o mesmo com seus horários de ficar à janela, mas, a verdade é que passamos o mês de Março sem nos vermos.
Aquela fora a última chance que a razão me dera. Em Abril nos encontramos “quase” casualmente e pudemos conversar com mais calma. Trocamos nossos números de telefones e sugeri que usássemos os codinomes de Marcelo ou Marcela, quando ligássemos um para o outro. Aos poucos nos rendíamos à paixão e permitíamos que isso acontecesse, desde que fosse lentamente, sem traumas profundos, para que o encanto não fosse quebrado.
Primeiro vieram as conversas por telefone, cada vez mais demoradas. Depois meus convites para um rápido encontro no início da noite no pedaço de praia ao lado da Catedral. Assim ela não ficaria fora de casa por muito tempo e seus avós não desconfiariam de nada. Começamos a conhecer a história um do outro, principalmente a dela e a saudade permanente da mãe; a ficar amigos e mais íntimos a cada novo encontro, embora fossem sempre encontros de um homem e uma garota que se queriam bem. Só em Julho sairíamos para nosso primeiro encontro como homem e mulher. Foi a sua primeira vez, e isso teve uma importância muito grande para nós. Muitos outros encontros aconteceram depois, sempre na parte da tarde, quando ela deveria estar na escola. Preenchíamos assim a solidão um do outro, e cuidávamos para que aquele sentimento fosse sempre cercado de carinho e admiração.
No início de Novembro recebi minha transferência para Recife, que teria que ser efetivada até o final de Dezembro. Ficamos muito tristes com aquela prematura separação e a impossibilidade de interferirmos nos fatos. “Marcela” resolveu que partiria para São Paulo ao encontro da sua mãe, e que essa viagem seria antes da minha, pois não queria assistir à minha partida. Ela viajou no dia 25 de Novembro já com suspeita de gravidez, e eu no dia 12 de Dezembro.
Nos primeiros meses de 1986 esperei algum contato de Marcela, o que não aconteceu. Só em 1989 receberia com surpresa uma ligação na qual falava que tivera uma filha comigo e lhe dera o nome de Raquel; que estava casada e tinha mais um filho. Pensei que estivesse brincando comigo, querendo me deixar apenas preocupado. A ligação foi curta e não fiquei com o número do seu telefone. Ela me ligou mais uma vez, mas não me encontraria na agência. Hoje, sabendo dos problemas de ordem afetiva que "Marcela" enfrentava quando me fez aquela ligação, sinto uma dor profunda por não haver lhe dado o crédito que merecia, por havê-la tratado ainda como uma menina.
Alguns meses depois, o banco foi extinto pela Presidência da República, e qualquer possibilidade de contato entre nós tornou-se completamente inviável.
A possibilidade de Raquel existir me atormentou durante todos esses 18 anos. Seria verdade o que “Marcela” me falou? Se fosse, como estaria, como seria? Filhos têm um significado importantíssimo em minha vida. Talvez por haver me separado dos meus pais aos dez anos e nunca mais haver voltado definitivamente para perto deles. Hoje, com o primeiro casamento desfeito, convivo muito pouco com os meus três filhos. Chorei o primeiro ano inteiro após a separação. Nós quatro tínhamos uma relação de muita próximidade e a minha presença era muito forte em suas vidas e, consequentemente, a deles na minha.
Há quatro meses “Marcela” me localizou pelo orkut. Teve mais sorte que eu, que já tentara isso diversas vezes. Na verdade foi mais fácil para ela através da Comunidade do BNCC (o banco no qual trabalhei). Voei para seu álbum de fotografias para confirmar se Raquel existia, e lá estava ela, com 22 anos, nascida em 21 de Julho. Não deu para segurar tanta emoção. Salvei todas as fotos, fiz montagens com fotos de nós dois, contei para os meus filhos (seus irmãos) e para todos os amigos, apressando-me em mostrar as fotos dessa menina linda.
Sua mãe, "Marcela", tem sido uma grande amiga. Mostrou-se uma pessoa generosa por não guardar nenhum rancor de mim, e tem, na medida do possível, feito uma ponte entre pai e filha.
Dias atrás sonhei com ela pela primeira vez. No sonho, ia a São Paulo conhecê-la, e marcávamos um encontro em um restaurante nas proximiades da sua casa. Ela chegou acompanhada do marido e não sabia que eu era seu pai, e sim apenas um amigo da sua mãe. Eu a abracei o mais demoradamente possível e depois que nos sentamos, não conseguia soltar mais suas mãos de menina. Acordei sentindo ainda o seu suave ferfume e a maciez do agasalho que usava.
Antes dela saber que sou seu pai biológico, conversamos duas vezes pelo msn de “Marcela”. Foi uma surpresa maravilhosa. Pensei que conversaria com sua mãe e, de repente: “Oiiiiiii, é Raquel, mamãe não está” Não deu para segurar as lágrimas. Ela escreve bem, raciocina rápido, é atenciosa e chegou até a ser carinhosa comigo, após me reconhecer como amigo da sua mãe. Na nossa segunda conversa, seus questionamentos sobre alguns traços do seu rosto, tão diferente dos familiares que conhece, me levaram praticamente a confessar nossa condição de pai e filha.
Desde então estamos em “off”. Ela precisa de mais tempo para digerir toda essa história e entender porque estive tão ausente todos esses anos. Tenho sofrido com esse silêncio, mas lhe devo todo esse respeito por suas vontades.
Ontem voltei a sonhar com Raquel. Numa primeira parte do sonho ela regava flores num terracinho da sua casa em São Paulo e me ensinava como fez para dar brilho na cerâmica que formava os canteiros. Numa segunda parte, ela dançava tango comigo em frente à sua casa, em plena rua, e sorria me ensinando alguns passos mais difíceis. Depois nos sentávamos em um banquinho sob uma árvore e conversávamos, de mãos dadas, sobre nossas vidas. Acordei com lágrimas nos olhos.
Sob uma das fotos dela que coloquei no meu álbum de orkut, redigi o seguinte texto. “Raquel, minha filha querida. Antes dela eu pensava que saudade era apenas a vontade de ver de novo. Hoje, sei, que saudade pode ser também, a vontade de abraçar e beijar pela primeira vez. Morro de saudades dessa menina linda, e me preocupo porque anda de moto”.


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O primeiro comentário abaixo é de "Marcela" que me autorizou a confessar seu verdadeiro nome de Valéria.
Obrigado Valéria, por ser a amiga que é, e por conseguir administrar minha ansiedade.
Beijo carinhoso.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Wall Street: Perdida no Próprio Buraco

Os mercados internacionais de crédito entraram em colapso e há risco real de uma corrida devastadora aos bancos, tudo isso por que o pacote de 700 bilhões de dólares, nos EUA, chegou tarde, é inadequado, e precisaria ser de no mínimo o dobro.
Agora, neste momento (06.10.08 às 17h00), há uma onda de pânico percorrendo o sistema financeiro em todo o mundo. A crise iniciada há pouco mais de um ano, no setor de empréstimos hipotecários dos Estados Unidos, viveu dois repiques, nos últimos dias. Entre 15 e 16 de setembro, a falência de grandes instituições financeiras norte-americanas deixou claro que a devastação não iria ficar restrita ao setor imobiliário. Há uma semana começou a disseminar-se a sensação de que o pacote de 700 bilhões de dólares montado pela Casa Branca para tentar o resgate produziria efeitos muito limitados, pois o conjunto de medidas socorre com dinheiro público as instituições financeiras mais afetadas, mas não assegura que os recursos irriguem a economia, muito menos protege as famílias endividadas.
Deu-se então um colapso nos mercados bancários, que perdura até o momento. Apavoradas com a onda de falências, as instituições financeiras bloquearam a concessão de empréstimos – inclusive entre si mesmas. Este movimento, por sua vez, multiplicou a sensação de insegurança, corroendo o próprio sentido da palavra crédito, base de todo o sistema. A crise alastrou-se dos Estados Unidos para a Europa. Em dois dias, cinco importantes bancos do Velho Continente naufragaram .
Muito rapidamente, o terremoto financeiro começou a atingir também a chamada “economia real”. Por falta de financiamento, as vendas de veículos caíram 27% em setembro, recuando para o nível mais baixo nos últimos 15 anos. Ao longo da semana, os governantes de diversos condados norte-americanos mostraram-se intranqüilos diante da falta de caixa. O governador da poderosa Califórnia, Arnold Schwazenegger, anunciou em 2 de outubro que não poderia fazer frente ao pagamento de policiais e bombeiros se não obtivesse, do governo federal, um empréstimo imediato de ao menos 7 bilhões de dólares.
Nos últimos dias, alastrou-se o pavor de algo nunca visto, desde 1929: desconfiados da solidez dos bancos, os correntistas poderão sacar seus depósitos, o que provocaria nova onda de quebras e devastaria a confiança na própria moeda.
Os primeiros sinais deste enorme desastre já estão visíveis. Em 2 de outubro ainda, o Banco Central da Irlanda sentiu-se forçado a tranqüilizar o público, anunciando aumento no seguro estatal sobre 100% dos depósitos confiados a seis bancos. Na noite de domingo, foi a vez de o governo alemão tomar atitude semelhante. Mas as medidas foram tomadas de modo descoordenado, porque terminou sem resultados concretos. No fim-de-semana, uma reunião dos “quatro grandes” europeus foi convocada pelo presidente francês para buscar ações comuns contra a crise. Teme-se, por isso, que as iniciativas da Irlanda e Alemanha provoquem pressão contra os bancos dos demais países europeus, onde não há a mesma garantia. Além disso, suspeita-se que as autoridades estejam passando um cheque sem fundos. Na Irlanda, o valor total do seguro oferecido pelo BC equivale a mais do dobro do PIB do país...
Em conseqüência de tantas tensões, as bolsas de valores da Ásia e Europa estão vivendo, no dia de hoje mais um dia de quedas abruptas. Na primeira sessão após a aprovação do pacote de resgate norte-americano, Tóquio perdeu 4,2% e Hong Kong, 3,4%. Quedas entre 7% e 9% ocorreram também em Londres, Paris e Frankfurt. Em Moscou, a bolsa despencou 19%. Em todos estes casos, as quedas foram puxadas pelo desabamento das ações de bancos importantes. Em São Paulo, os negócios foram interrompidos duas vezes hoje, quando quedas drásticas de até 15% acionaram as regras que mandam suspender os negócios em caso de instabilidade extrema, recuperando-se na última hora e fechando a -5¨%. Apesar da intervenção do Banco Central, o dólar acumulou alta de mais de 7%, subindo a R$ 2,20.
A esta altura, todas as análises sérias coincidem em que não é possível prever nem a duração, nem a profundidade, nem as conseqüências da crise. Nos próximos meses, vai se abrir um período de fortes turbulências: econômicas, sociais e políticas.
O pacote de 700 bilhões de dólares costurado pela Casa Branca não é apenas “injusto”, mas também “ineficaz e ineficiente”. Injusto porque socializa prejuízos, oferecendo dinheiro às instituições financeiras (ao permitir que o Estado assuma seus “títulos podres”) sem assumir, em troca, parte de seu capital. Ineficaz porque, além de insuficiente, ao não oferecer ajuda às famílias endividadas — e ameaçadas de perder seus imóveis —, deixa intocada a causa do problema (o empobrecimento e perda de capacidade aquisitiva da população), atuando apenas sobre seus efeitos superficiais. Ineficiente porque nada assegura (como estão demonstrando os fatos dos últimos dias) que os bancos, recapitalizados em meio à crise, disponham-se a reabrir as torneiras de crédito que poderiam irrigar a economia..
Marx via nas crises financeiras os momentos dramáticos em que o proletariado reuniria forças para conquistar o poder e iniciar a construção do socialismo. Tal perspectiva parece distante, 125 anos após sua morte. A China, que se converteu na grande fábrica do mundo, é governada por um partido comunista. Mas, longe de ameaçarem o capitalismo, tanto os dirigentes quanto o proletariado chinês empenham-se em conquistar um lugar ao sol, na luta por poder e riqueza que a lógica do sistema estimula permanentemente.
Ao invés de disputar poder e riqueza com os capitalistas, não será possível desafiar sua lógica? O sociólogo Immanuel Wallerstein, uma espécie de profeta do declínio norte-americano, defendeu esta hipótese corajosamente no Fórum Social Mundial de 2003 - quando George Bush preparava-se para invadir o Iraque e muitos acreditavam na perenidade do poder imperial dos EUA. Em outro artigo, publicado recentemente no Le Monde Diplomatique Brasil, Wallerstein sugere que a crise tornará o futuro imediato turbulento e perigoso.

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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Paulo Freire: A IN-VEJA-DA-VEJA

Che, ou Paulo Freire, tanto faz...
Importante mesmo é o que se trás no coração.
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VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA

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Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão ensinando a ele? De autoria de Mônica Weinberg e Camila Pereira, ela foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há o seguinte trecho:
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"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".
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Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:

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"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido - na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire".

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Contribuição do Economista Filipe Reis
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Juíza de Primeira Instância Manda “Tropa de Choque” do PCC e CV de Volta Pra Cadeia, Tornando Inválida a Decisão de Ontem do STF.

Só a Justiça de 1ª e 2ª Instâncias deixam eles com essa cara.

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A juíza Tatiane Moreira Lima Wickihalder, da 1ª Vara de Francisco Morato – Grande São Paulo – decretou agora a pouco a prisão preventiva dos nove integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), e CV (Comando Vermelho) que agem dentro e fora dos presídios do Estado de São Paulo.

Ontem, o STF havia concedido habeas corpus aos réus, sob o argumento de que os réus esperaram mais de quatro anos pelo julgamento na prisão, o que para o Supremo excedeu os prazos legais, sem nenhuma preocupação com a sociedade paulista.

Para não provocar outra reação do abusado presidente do STF Gilmar Mendes, a juíza contemporizou: "Não se trata de questionar o excesso de prazo devidamente reconhecido pelo STF, uma vez que os réus encontram-se detidos pela prisão em flagrante. Contudo, superada a questão do excesso de prazo da prisão em flagrante, nesse momento se analisam os requisitos da prisão preventiva, que até o presente não haviam sido considerados. Trata-se de matéria, portanto, que não foi objeto de apreciação pelo STF".

Ainda de acordo com a magistrada, a prisão preventiva foi decretada "para a manutenção da ordem pública, devido à alta periculosidade dos acusados".

Vamos torcer agora para o STF não bater o pezinho indignado e mandar essa bandidagem pra junto da sociedade e ameaçar a juíza com o Conselho Nacional de Justiça.

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STF Libera Geral - Nove Chefões do PCC e CV Estão na Rua

Te esconde que vem um presente do STF por aí!...
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A “tropa de choque” – grupo formado pelo PCC em parceria com o CV ‘Comando Vermelho’ - vai ser solta. Foram presos há quatro anos por se unirem para uma das mais ousadas ações do crime organizado já feitas no Estado de São Paulo: tomar de assalto um presídio e soltar 1.279 presos, incluindo o seqüestrador Jorge de Souza, o Carioca, integrante do CV. A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade e com aval do Ministério Público Federal, concedeu anteontem habeas corpus para nove integrantes do bando, estendendo a eles o HC que já havia sido dado a Rafael Fernando da Silva, de 26 anos, em abril.

Por incrível que pareça, a razão de o STF ter concordado em soltar os acusados é o fato de os réus estarem presos há quatro anos sem que nem mesmo a instrução do processo - fase em que são recolhidas as provas e depoimentos - tivesse sido concluída. O motivo de tanto atraso, como ressaltou o ministro Carlos Ayres Brito em seu voto, não foi nenhuma ação protelatória dos defensores dos réus, mas o fato de que muitas audiências foram cancelas e remarcadas por “falta de efetivo estatal para apresentação de presos ao juízo criminal, tendo em vista a alta periculosidade dos agentes”. Ou seja, não havia escolta policial suficiente para levar os presos com segurança do presídio ao tribunal.

A prisão da quadrilha ocorreu em 1º de julho de 2004. O bando foi detido depois que escutas telefônicas feitas pelo Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) detectaram que o PCC e o CV se preparavam para tomar de assalto a Penitenciária 2 de Franco da Rocha. Leandro ia usar uma carteira de advogado para entrar na prisão e dominar a guarda, abrindo o portão. Além de soltar Carioca, o bando ia promover a fuga em massa de todos os presos. O grupo, no entanto, foi surpreendido pelos policiais numa casa na cidade vizinha de Francisco Morato, quando se preparava para o resgate.

Houve tiroteio e dois policiais por pouco não morreram e um acusado de ser do CV morreu. O bando tinha 5 fuzis, 5 submetralhadoras, 6 pistolas, 2 revólveres, 3 granadas e 5 coletes à prova de bala. “Que beleza!”, reagiu um delegado do Deic ao saber da decisão do STF. “São bandidos perigosíssimos.” Na casa do réu Fábio Junior Gomes, havia uma planta da prisão e a contabilidade do PCC.

Gomes seria o gerente da facção na zona oeste de São Paulo. Uma das advogadas que o defenderam foi Ariane dos Anjos, investigada pela CPI do Tráfico de Armas do Congresso sob a suspeita de ser pombo-correio do líder do PCC, Marcos Camacho, o Marcola.

A Secretaria da Segurança informou que é preciso verificar o que ocorreu cada vez que os presos não foram levados ao tribunal. Há casos em que o pedido de escolta chega depois da data da audiência. A secretaria informou que a PM mantém 2 mil homens para escoltas.
A verdade é que o STF adora soltar, basta para tanto, encontrar justificativas legais. A sociedade que se dane.


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Desmoralizadas, Infelizmente, Tropas Federais Voltam ao Rio.

Recepção às Tropas Federais nas favelas do Rio.
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Após se verem obrigadas pela opinião pública e pela mídia a abandonarem às pressas os morros do Rio de Janeiro, após serem flagradas servindo de capachos para traficantes ao prenderem e lhes entregarem bandidos de facções rivais, para serem torturados e assassinados, voltam agora, para colocar ordem nas eleições que se aproximam.

Desmoralizados, já chegaram avisando que não queriam confronto, como se estivessem pedindo autorização aos bandidos para lá permanecerem, e em troca, informam com antecedência onde atuarão nos dias seguintes, permanecendo em cada morro apenas três dias, deixando depois os moradores entregues aos traficantes.

Onde chegamos!...

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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Os Bandidos vão Prender a Polícia...

Montagem: Rodolfo Vasconcellos

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O senador Demóstenes Torres, da oposição ao governo, mostrou-se indignado ontem durante os depoimentos do superintendente da Polícia Federal e do diretor afastado da ABIN no Senado Federal,e propôs a criação de um conselho para fazer o controle externo de todas as atividades de inteligência desenvolvidas no âmbito do Poder Executivo. Esse conselho seria formado por sete integrantes, dois indicados pela Câmara, dois pelo Senado e um pelo Judiciário, restando apenas dois para fazer oposição a essa quadrilha que tenta conter toda investigação séria neste país: ficaria um com o Ministério Público e o outro com o Executivo, enjaulando assim a Polícia Federal e a ABIN que tantos transtornos têm trazido aos delinqüentes granfinos que infestam Brasília e o resto do Brasil.
Eu e quase a totalidade dos brasileiros, certamente não tememos grampos telefônicos a não ser para evitar que se saiba detalhes de nossas transas que acabamos por revive-las com nossos amores no dia seguinte, em conversinhas apimentadas.
Mas, grampos de verdade, desses que colocam bandidos finamente engravatados na cadeia (mesmo que sejam soltos por eles mesmos logo em seguida), quem teme são os banqueiros fraudulentos e os habitantes dos presídios de segurança máxima, além dos ocupantes de cadeiras no Senado Federal, na Câmara dos Deputados e nas altas Cortes do Judiciário (isso para citar apenas os que moram em Brasília).
Nunca havia visto um senador tão irritado e assustado quanto Artur Virgílio na reunião de ontem no Senado, nem essas instituições, acima citadas, agirem com tanta rapidez e indignação como agora presenciamos, após a “prisão” de Daniel Dantas. De repente todas as ações da Polícia Federal transformaram nosso Brasil numa República Policialesca, o Ministério Público em um bando de incompetentes xereteiros, os Juízes de primeira e segunda instâncias em relapsos rebeldes, e os agentes da ABIN em bisbilhoteiros a serviço da espionagem clandestina. Tudo bem que se normatize com rigor as invasões de privacidade de todos os tipos, mas, por que só agora, quando as falcatruas do milionário larápio Daniel Dantas foram expostas ao povo brasileiro, esses senhores de toga e ternos bem recortados que exigem ser tratados por “excelência” e “ministro” ficaram tão incomodados e ágeis em legislar?
A resposta é que, afinal de contas, é pra isso que são PAGOS.


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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Raspa de Tacho





Aos filhos de Acelino Brito - Dinha, Toinho, Maria, Adalgisa, e os outros,cujos nomes esqueci, apesar de lembrar bem dos seus rostos.





Imagino a dificuldade que tem um adolescente dos dias de hoje para entender como uma criança dos anos 50 e 60 poderia ser feliz sem internet, I-Pod, celular, computador, jogos virtuais, TV e até mesmo rádio. Pior ainda se morasse numa pequena cidade nordestina como a Umbuzeiro daquela época: cinema só um filme por mês e parque de diversão no Natal e na festa anual da Padroeira.

Aquela linda cidade tinha Grupo Escolar mas não tinha ensino médio; tinha duas lindas praças embora não tivesse energia elétrica, água encanada, hospital e, sequer um médico.

A eletricidade só chegava às casas e na fraca iluminação das poucas ruas a partir das cinco da tarde, quando um enorme e barulhento motor à diesel era ligado, bem ao lado da nossa casa. Chamávamos o local de “usina” e estávamos sempre por lá durante o dia, aprontando alguma brincadeira. A cidade tinha energia até meia noite quando tudo voltava às escuras após três avisos com piscar de luzes a partir das 23:45. Quando o motor quebrava, quase toda a cidade ia até a usina pra ver o que tinha acontecido e se seria possível consertá-lo sem peças de reposição, o que levaria dias.

Dois ônibus saiam por dia com destino ao Recife: um ao meio dia, e o outro às duas da madrugada, após todos os passageiros serem acordados em suas casas por um funcionário da empresa. Chegava ao Recife às oito e voltava ao meio dia. Hoje esse percurso é feito em menos de uma hora e meia.

Os aparelhos de rádios funcionavam durante o dia ligados a uma bateria dessas de carro, que tinham que ser recarregadas com freqüência, ligadas a um equipamento chamado “tunga”. Seu Valdemir Donato era um dos poucos que dispunham desse aparelho, e nos emprestava sempre que precisávamos.

As casas tinham cisternas (reservatórios para água) que eram abastecidas pelas águas das chuvas durante o inverno através de canaletas colocadas nos telhados. No verão, quando as cisternas esvaziavam, valíamo-nos da saudável água do Orondongo (uma fonte nas  redondezas) que era trazida em ancoretas sobre o lombo do nosso jumento Roxinho, comandado pelo fiel escudeiro “Tõe Dodofinho”.

Mamãe tinha Pupu e Nenén para ajudá-la com a casa, e assim podia dedicar mais tempo aos filhos com os deveres de casa e as deliciosas comidas que preparava. As horas de folga eram preenchidas com brincadeiras que exigiam muito esforço físico como correr de cavalo de pau (um cabo de vassoura com uma fita azul ou encarnada pendurada no “pescoço” e um barbante servindo de cabresto), jogar futebol em casa com bola de meia ou na rua com bola de borracha, entrar nas ruínas da igreja velha (para o nosso tamanho parecia um imenso castelo abandonado) e lutar espadas fabricadas por nós mesmos com uma vara de marmeleiro e uma quenga de coco para proteger a mão. Na ponta colocávamos uma borracha de lápis para não ferir o companheiro.

Fabricávamos nossos próprios papagaios (pipas), caçávamos passarinhos de baleadeira, jogávamos  bola de gude e pião nas ruas de barro, tomávamos banho de chuva sob o comando de papai, quando esta era torrencial, apesar dos gritos de medo de mamãe, assustada com a possibilidade de sermos atingidos por um raio.

Criar filhos numa cidade pequena assim, e naquela época, era um ato heróico. Lembro da calma com que mamãe tratava das nossas feridas ou doenças – como a gripe asiática – apesar do medo estampado nos seus olhos. Quando caiu leite de avelóz nos meus olhos, tratou-os com clara de ovo e muitas orações. Os casos mais graves eram levados para Seo Lula e Dona Nen, os donos da farmácia que, sejamos honestos, eram o médico e parteira de toda a cidade.

Vi, por duas vezes Seo Lula descer a rua principal numa carreira desembestada, enquanto, com a seringa numa das mãos e a injeção na outra, tentava passar o líquido da primeira para a segunda com medo de não dar tempo de salvar o paciente. Foi assim para atender Jacó, que faleceu de angina do peito, e papai, a quem aplicou  cafeína, salvando-o da morte iminente.

Tínhamos futebol aos domingos, vaquejada uma vez por ano, a festa da padroeira, o São João e um excelente carnaval.

Umbuzeiro era uma cidade de amigos. As famílias se presenteavam com freqüência. Se alguém preparava uma deliciosa canjica, aproveitava para retribuir o bolo que ganhara do visinho. Se um tinha geladeira (a querosene), gelava as garrafas de suco para o almoço do amigo que não tinha.

Dona Terta, a melhor costureira da cidade e grande amiga de mamãe, confeccionava nossas roupas, conseguindo uma brecha entre as muitas encomendas, para não deixar ninguém mal satisfeito. As roupas mais simples mamãe mesmo fazia.

O filho mais novo de Da. Terta - Walter Moura Lins - morava em Recife e era baterista da orquestra da TV Jornal do Comércio, e aparecia tocando por partitura durante o programa Você Faz o Show, todos os domingos, para deleite de papai que ficava encantado com alguém que tocava bateria por partitura. Muitos anos depois (1986 - 1988) tive o prazer de ter Warter tocando no meu bar "El Paso" na revitalização da Rua do Bom Jesus.

Seo Acelino Brito costumava nos presentear com a raspa do tacho onde fabricava queijo de manteiga, ou com um prato fundo cheio de queijo quente, ainda derretido. Uma vez este presente chegou na hora do almoço, e mamãe desmanchou no fogo uma “lata” de goiabada com um copo de água e outro de vinho tinto. Inesquecível aquele sabor do queijo e da goiabada ainda quentes, como sobremesa.

Seo Acelino e sua família eram um dos orgulhos da nossa cidade. Era um homem muito alto e forte, alvo e de cabelos grisalhos. Suas filhas eram lindas, com “maçãs do rosto” de causar inveja a qualquer Sophia Loren. Lembro de Adalgisa com sua pele cor de rosa, e de Maria, uma morena clara. Lembro ainda das caras das outras, mas não dos seus nomes. Os filhos homens eram muito fortes e corajosos. A casa da fazenda deles ficava ao lado do cemitério da cidade, e eles nos contavam que brincavam de esconder por entre as catacumbas. Só em saber disso eu já não dormia. Íamos algumas vezes até a fazenda deles, onde colhíamos mel de abelhas e andávamos a cavalo no pelo. Eram todos muito educados e fazem parte das melhores lembranças que guardo daquele tempo.

Aos 13 anos eu estava interno no Colégio Americano Batista daqui de Recife, e recebi de mamãe, por um portador, um grande pedaço de queijo de manteiga da fazenda de Seo Acelino. Acanhado, pois era um dos primeiros meses de internato, guardei o queijo no meu armário, que se destinava a produtos de higiene pessoal e material escolar.

Nos primeiros dias não lembrei de descer com o queijo para o café da manhã nem para o jantar. Abafado no armário, depois de uma semana o cheiro já não era dos melhores, e agora eu já não descia com ele por esse motivo. Os dias foram se passando e o mau cheiro aumentando no dormitório. Chegaram a desratizar todo o colégio achando que era rato morto e que poderia haver uma peste. Quando ameaçaram abrir todos os armários para descobrir do que se tratava, acordei de madrugada e joguei o queijo pela janela, caindo bem ao lado do refeitório. Na manhã seguinte foi o maior comentário: uns achavam que o fedor vinha daquele queijo que já estava ali mesmo; enquanto, outros, mais espertos, entenderam que alguém atirara o queijo do primeiro andar. Passei dias sem poder abrir meu armário com alguém por perto, até o mau cheiro desaparecer.

Éramos imensamente felizes naquela Umbuzeiro.