sábado, 24 de setembro de 2016

VOZ DO ALÉM BAIXA NO MINISTÉRIO PÚBLICO E SE DERRETE EM ELOGIOS À UNICA NAÇÃO QUE JOGOU BOMBAS ATÔMICAS CONTRA CIVIS


 Dallagnol: "Quem veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam realizar seus sonhos. Era um outro perfil de colono".

O MALUCO SOLITÁRIO E O MINISTÉRIO PÚBLICO

Derek Sivers é um músico californiano de 47 anos radicado em Cingapura. Fez fortuna com uma empresa de transação on-line de CDs que depois se tornaria uma das maiores vendedoras de música independente do mundo. Em 1º de abril de 2010, a plataforma digital de palestras TED colocou no ar um vídeo de três minutos intitulado "Como Iniciar um Movimento". Nele, Sivers mostra um rapaz de dorso nu dançando freneticamente numa montanha. Uma pessoa se levanta e passa a imitá-lo. Logo todos os jovens que o assistiam se levantam e passam a fazer o mesmo. "É o seguidor que transforma o solitário em um líder. É preciso ter coragem e não ter medo de ser ridicularizado", diz Sivers.

O vídeo teve 5,6 milhões de visualizações. Uma delas partiu de Deltan Martinazzo Dallagnol, que resolveu incorporá-lo às palestras que promove em defesa das 10 medidas anticorrupção. Em fevereiro deste ano, num encontro com lideranças reunidas pela Primeira Igreja Batista de Curitiba, o procurador do Ministério Público Federal exibiu o vídeo. Ao final dirigiu-se à sua plateia com a recomendação: "Quando encontrar um maluco solitário com uma boa causa tenha a coragem de segui-lo."

O procurador de 36 anos foi, na semana passada, a estrela da denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O terno azul-escuro, os óculos de aros pretos, a dicção que não deixa escapar uma única sílaba e o uso preciso do subjuntivo não sugerem disfunção psíquica.

A presença de todos os 12 procuradores que, sob sua coordenação, compõem a força-tarefa da Lava-Jato e a anuência do Juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sergio Moro, também não autoriza a interpretação de que esteja sozinho . Durante a apresentação da denúncia, no entanto, o procurador abusou dos recursos que lançou mão para criar o movimento das 10 medidas anticorrupção.

A apresentação de 1h04 foi pautada pela mesma oratória usada por Dallagnol nas mais de 150 palestras que já fez país a fora desde o lançamento da campanha pela subscrição das medidas que empoderam o Ministério Público no combate â corrupção. A retórica da persuasão do procurador parte da repetição de construções de fácil compreensão. A mais recorrente, na apresentação da denúncia foi a de que o país estava diante de uma "propinocracia, governo gerido pela propina" que, segundo o procurador, tem uma dimensão "gigantesca, maior do que muito grande".

Seu uso como arma de retórica fica evidente na comparação entre a fala e a denúncia impressa. A construção aparece 12 vezes na apresentação do procurador, mas não está registrada na acusação levada a Moro.

A retórica de Dallagnol ainda lança mão de figuras de linguagem para nominar o ex-presidente que não foram incorporadas ao texto impresso. O procurador referiu-se a Lula 10 vezes como comandante de esquema criminoso, sempre acompanhado dos adjetivos "máximo", "real", "supremo". A ocorrência do termo comandante no documento, além de reduzida à metade, nunca é adjetivada.

Dallagnol ainda chama Lula de "maestro" e "general". Nenhuma das denominações aparece na denúncia formal. Nela, o ex presidente aparece mais como "chefe do Poder Executivo" ou "ocupante do cargo público mais elevado".

A descrição da organização criminosa no documento, que ocupa mais da metade das suas 149 páginas, é tão farta quanto na apresentação. A acusação não está no escopo das atribuições da força-tarefa, mas, sim, da Procuradoria Geral da República, em Brasília. Sob a alçada de Curitiba estão o crime de corrupção e lavagem de dinheiro. Procuradores em Brasília avaliam que os 13 procuradores da força-tarefa poderiam ter cumprido melhor sua tarefa se tivessem se limitado aos crimes atinentes. A inclusão do crime organizado no documento e, principalmente na fala do procurador, no entanto, compõe a narrativa do movimento do qual o procurador natural da Lava-Jato é o principal porta voz. o projeto, em tramitação no Congresso, das 10 medidas anticorrupção.

O foco da organização criminosa é sustentado pelas construções da persuasiva retórica do procurador. Dallagnol sustentou em sua fala que o ex presidente era comandante de uma organização destinada a promover a "governabilidade corrompida, perpetuação criminosa no poder, e enriquecimento ilícito". Os três objetivos com os quais Lula teria assumido a Presidência da República foram repetidas nove vezes pelo procurador.

As manifestações dos integrantes do Ministério Público não estão submetidas ao mesmo cerceamento imposto a juízes, cumprido com habilidade por Sergio Moro, que se vale dos autos e dos offs, mas não concede entrevistas. Sem o mesmo freio, o procurador não apenas tem farta presença no noticiário como é ativo usuário das redes sociais.

Nascido em Pato Branco, skatista e surfista na juventude, Dallagnol é filho de um promotor de justiça. Entrou no Ministério Público aos 22 anos. No Twitter apresenta-se como "seguidor de Jesus, marido e pai apaixonado, procurador da República por vocação (hoje coordenando o MPF na #Lava-Jato em Curitiba) e mestre em direito por Havard.

Nos últimos dois meses, Luiz Roberto Barroso (STF) e Laurita Vaz (STJ) são os únicos ministros de tribunais superiores citados nos tuites do procurador. Barroso pela defesa do MP, quando a instituição foi atacada pelo colega de tribunal, Gilmar Mendes, e Laurita, pela frase: "A corrupção tira comida dos pratos das famílias e crianças dos bancos das escolas". Em suas postagens no Facebook inclui mais um ministro. Quando Luiz Fachin foi indicado para o Supremo, Dallagnol compartilhou um perfil simpático ao ex-professor da Universidade Federal do Paraná, onde graduou-se.

A mulher do procurador, a farmacêutica Fernanda Dallagnol, usa sua página para compartilhar entrevistas, artigos do marido e vídeos da musa da Lava-Jato, a jornalista Joice Hansselman, além de curtir postagens do marido sobre cuidados com crianças. O casal tem dois filhos pequenos. Em entrevistas e palestras, Dallagnol não se furta a comentar sobre a privação de convivência com as crianças como preço a pagar pela missão na Lava-Jato.

Os tão criticados slides em powerpoint da denúncia contra Lula são muito pouco criativos quando comparados às ilustrações das palestras do procurador. Naquela dirigida a lideranças da Igreja Batista em Curitiba, depois de mostrar foto em que aparece adolescente de cabelos encaracolados "vocacionado na busca da justiça", Dallagnol exibe slide em que um par de sapatinhos de bebê aparece sobre a barriga de uma grávida. Dizia assim que a Lava-Jato havia chegado em sua vida junto com o primeiro filho.

Com um raro domínio de cena, o procurador busca empatia com humor. Diz, por exemplo, que a Lava-Jato tem tantas fases quanto o "Candy Crush Saga", sucesso do mercado de jogos eletrônicos. Em entrevista a Jô Soares chegou a relatar o dia em que pensou ter mandado mensagem de WhatsApp para seu médico, Paulo Roberto Costa Claro, descrevendo sintomas de uma infecção intestinal. Só se deu conta do engano ao receber resposta educada de seu investigado, o homônimo ex-diretor da Petrobras, que lamentava não ter formação em medicina para ajudá-lo. "Ainda bem que não mandei foto". Acrescentou, arrancando risos.

Tem abordagens específicas para cada palestra, mas sempre lança mão de pelo menos três máximas - "Precisamos deixar de ser vítimas do passado para sermos senhores do nosso destino", "a saída para o Brasil não é aeroporto", "a corrupção não é um problema do partido A ou do partido B" - e arruma um jeito de encaixar uma citação de Martin Luther King. Tem uma coleção de citações do líder negro americano, sempre lembrado como pastor batista, que remetem à realizações de sonhos por quem os persegue.

Depois que a plateia, com humor e emoção, está em suas mãos, Dallagnol passa à fase mais substantiva de suas intervenções. O coordenador da Lava-Jato tem uma interpretação culturalista da história. Acha que foi a colonização portuguesa quem legou a corrupção à terra natal. "Quem veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam realizar seus sonhos. Era um outro perfil de colono".

O espírito cristão dos colonizadores americanos não os impediu de dizimar a população nativa, colecionar genocídios em sua política externa e conviver com o pesadelo de uma Casa Branca ocupada por Donald Trump. Mas o ex-estudante de Havard só trouxe admiração pelas instituições americanas. O mesmo fascínio alimenta em muitos de seus compatriotas a ilusão de que o Brasil seria uma grande Amsterdã se os holandeses não tivessem sido expulsos. Não cogitam o Brasil como uma versão ampliada da África do Sul.

O coordenador da Lava-Jato, em sua pregação anticorrupção, trata de tranquilizar suas plateias de que a saída não passa por engajamento partidário, mas pela cidadania a ser exercida com a adesão às dez medidas. Cita investimentos em saúde e educação que poderiam ser feitos sem o dreno da corrupção e mostra slide de uma família emagrecida sentada à mesa vazia. A imagem se assemelha àquelas que o PT, sigla a que sempre se refere por extenso, exibiu na propaganda eleitoral de 2014.

Num esforço de quem parece buscar a linguagem de seus interlocutores, Dallagnol ilustra a janela histórica de mudança que se abre no país. "Quando você vai a Miami ou ao Paraguai, pensa: não gastaria isso que estou gastando, mas é uma questão de oportunidade. Pois hoje vivemos essa oportunidade. Podemos contar com vocês?" Pede que levante as mãos quem o apoia. Nem precisou dançar freneticamente. Saca o celular e faz a foto do mar de mãos que surgem à sua frente.

Maria Cristina Fernandes



 


ARBÍTRIO DE SERGIO MORO É CONDENADO POR INTELECTUAIS - DE JUIZ A RÉU





Dezenas de intelectuais divulgaram uma nota pública, em que condenam os abusos e o arbítrio da Operação Lava Jato, cujo exemplo mais flagrante foi a prisão do ex-ministro Guido Mantega, e pediram que o juiz Sergio Moro seja contido. Leia abaixo.
Nota pública em defesa da ordem constitucional, em desagravo a Guido Mantega
A ordem pública brasileira vem sendo ameaçada sistematicamente por aqueles que deveriam protegê-la.
 
O direito ao protesto coletivo vem sendo coibido por intervenções provocativas, abusivas e desproporcionais por parte da Polícia Militar, como se a velha polícia política das ditaduras estivesse de novo às soltas.
 
Ano a ano, cidadãos brasileiros invisíveis são conduzidos coercitivamente a depoimentos – ou algo pior - sem serem intimados pela justiça.
 
Quando o espetáculo da acusação sem prova e da condução sem intimação é exibido deliberadamente por agentes da lei, na persecução de objetivos estranhos à ordem jurídica e da publicidade sem limites, a cultura da arbitrariedade expõe suas entranhas.
 
O caráter republicano e isento da Operação Lava-Jato já foi posto à prova, e reprovado, inúmeras vezes.
 
Há seis meses, o evento da condução coercitiva do cidadão Luís Inácio Lula da Silva, que não resistiu a uma intimação judicial porque sequer foi intimado, parecia marcar o auge na exposição pública da arbitrariedade dos que o perseguiam, levando a uma reação firme, e republicana, de uma sociedade que já escolheu em que regime de garantias civis e políticas quer viver.
 
O episódio da prisão do professor e economista Guido Mantega levou o arbítrio a novos limites. A fragilidade da acusação e a desproporção da ação tornaram-se ainda mais evidentes por causa de sua coincidência com a presença do acusado em um centro cirúrgico, acompanhando a esposa enferma.
 
O professor e economista Guido Mantega deu mostras de dedicar-se à coisa pública de modo republicano. É um homem público de endereço conhecido e não representa qualquer ameaça à ordem pública. O mesmo não pode ser dito de seus perseguidores.
 
Se fosse necessário prender Guido Mantega para recolher possíveis provas, por que foi possível soltá-lo tão rapidamente depois que a sociedade conheceu o absurdo de sua prisão, sob alegação de que as diligências para coleta de documentos não seriam prejudicadas se fosse solto? Se não seriam, por que foi expedida a ordem original de prisão desde logo?
 
Como todo brasileiro, Guido Mantega merece o respeito de suas garantias constitucionais.
 
O combate à corrupção não pode ser um pretexto para corromper a Constituição, autorizar a perseguição política e inflar vaidades de juízes, procuradores e policiais.
 
Quem vai limitar a arbitrariedade da força-tarefa da Operação Lava-Jato e do juiz Sérgio Moro? É a pergunta que fazem os cidadãos que, abaixo, subscrevem este documento em defesa da ordem constitucional e contra mais um golpe às instituições democráticas.

Luiz Gonzaga Belluzzo – Professor Titular de Economia - UNICAMP
Marilena Chauí - Professora Titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP
Maria da Conceição Tavares - Professora emérita da UFRJ e da Unicamp.
Luís Carlos Bresser-Pereira - Professor Titular de Economia - FGV
Tereza Campello – Economista e Ex-Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome da presidenta Dilma Rousseff
Eleonora Menicucci Oliveira - Profa Titular de Sociologia da Unifesp e ex-Ministra de Politicas para as Mulheres do governo Dilma Rousseff
Pedro Paulo Zahluth Bastos - Professor Associado (Livre Docente) – Economia - UNICAMP
Theotonio dos Santos - Professor Visitante da UERJ e Professor Emérito da UFF
Ladislau Dowbor – Professor Titular de Economia - PUC-SP
Eleuterio F. S. Prado - Professor Titular de Economia da USP
Walquiria Domingues Leão Rêgo - Socióloga e professora titular da Unicamp
Gilberto Maringoni - Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC)
Hermano de Medeiros Ferreira Tavares - Professor Titular (aposentado) - Faculdade de Engenharia Elétrica – e ex-reitor da Unicamp
Nelson Rodrigues dos Santos – Professor Titular – Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP
Luiz Carlos de Freitas - professor titular da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
Marcio Pochmann – Professor IE/Unicamp
Itala M. Loffredo D'Ottaviano - Professor Titular em Lógica, UNICAMP
João Quartim de Moraes – Professor Titular de Filosofia – UNICAMP
Joaquim Palhares - Carta Maior
Lena Lavinas – Professora Titular de Economia (UFRJ)
Maria de Lourdes Rollemberg Mollo – Professora Titular da UNB
Antonio Prado – Secretário Executivo Adjunto da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL)
Magda Barros Biavaschi – advogada, ex-Desembargadora ap. TRT4.
Antonio Correa de Lacerda – Economista – Professor PUC-SP
Matías Vernengo - Professor of Economics, Bucknell U. - Co-editor, Review of Keynesian Economics
Rosa Maria Marques, professora titular do Departamento de Economia e do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da PUCSP e presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde
Sebastião Velasco e Cruz - Professor Titular do Departamento de Ciência Política da Unicamp
Wladimir Pomar – Jornalista e escritor
Armando Boito Jr. – Professor do Departamento de Ciência Política – Unicamp
Laurindo Lalo Leal Filho - Professor da ECA/USP
Maria Rita Loureiro - Professora titular da FEA/USP e FGV/SP
Alfredo Saad Filho – SOAS, University of London
Maryse Fahri – Professora IE/Unicamp
Giorgio Romano Schutte - Professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC)
Gastão Wagner de Sousa Campos - Professor Livre-Docente, Departamento de Medicina Preventiva e Social, Universidade Estadual de Campinas
Frederico Mazzucchelli – Professor IE/Unicamp
Nelson Marconi – Economista – FGV
Carlos Aguiar de Medeiros – Professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Clemente Ganz Lucio – Economista
Ricardo Musse - Departamento de sociologia da USP
Valter Pomar - Professor da UFABC
Carlos Berriel – Professor do IEL/Unicamp
Fernando Nogueira da Costa – Professor IE – Unicamp
Vanessa Petrelli Corrêa - Professora Titular IE - UFU
Hugo Gama Cerqueira - Professor do Cedeplar, Universidade Federal de Minas Gerais
Rubem Murilo Leão Rêgo - Sociólogo e professor da Unicamp
Wolfgang Leo Maar - Professor titular da UFSCar
Tatiana Berringer - Professora Adjunta da Universidade Federal do ABC
Márcia Mendonça - Instituto de Estudos da Linguagem - IEL – Unicamp
Adriano Codato – Cientista Político – Professor UFPR
Cristina Fróes de Borja Reis - Professora adjunta da Universidade Federal do ABC
Daniela Magalhães Prates – Professora do IE/Unicamp
Hildete Pereira de Melo - Professora associada da UFF
Claudio Salm – Professor de Economia _ UFRJ
Marcelo Milan - Professor de Economia e Relações Internacionais, UFRGS
Rubens Sawaya - Economista, professor da PUCSP.
Anna Christina Bentes - Departamento de Lingüística, Instituto de Estudos da Linguagem -UNICAMP
Humberto Miranda - Professor do IE e Pesquisador do CEDE/UNICAMP
Reginaldo Moraes – Professor de Ciência Política - Unicamp
Eduardo Fagnani – Professor IE/Unicamp
Alcides Goularti Filho - UNESC/CNPq
Daniela S. Gorayeb – Professora Facamp
Marcus Ianoni Ciência Política UFF
Adriana Nunes Ferreira - Professora do IE/Unicamp
Francisco Luiz C. Lopreato - Professor IE/Unicamp
José Eduardo Roselino – Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)
Guilherme Mello – Professor IE/Unicamp
Marco Antonio Martins da Rocha – IE/Unicamp
Alexandre de Freitas Barbosa - Professor de História Econômica e Economia Brasileira - Instituto de Estudos Brasileiros - Universidade de São Paulo (IEB/USP)
Luiz Fernando de Paula - Professor titular da FCE/UERJ
Lauro Mattei - Professor de Economia da UFSC
Elza Cotrim Soares – Professora Titular – Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP
Fernando Sarti - Professor do Instituto de Economia da UNICAMP
Jorge Felix - Professor PUC-SP
Julia de Medeiros Braga - Professora UFF
Rosangela Ballini – Professora IE - Unicamp
Maria Fernanda Cardoso de Melo - Professora da Facamp
André Biancarelli – Professor do IE/Unicamp
Raquel Rangel de Meireles Guimarães – Professora da UFPR
Cláudia Tessari - Professora, Universidade Federal de São Paulo
Ricardo de Medeiros Carneiro – Professor IE/Unicamp
Antonio José de Almeida Meirelles - Professor Titular da Faculdade de Engenharia de Alimentos/UNICAMP
Pedro Rossi – Economista e Professor - UNICAMP
Fernando Augusto Mansor de Mattos – Professor UFF
Flávia Vinhaes - Professora de Economia - UCAM e técnica IBGE
Ceci Juruá – Economista
Walter Belik - Professor IE / Unicamp
Pedro Vieira - Professor do Programa de Pós-Graduação em Rel Internacionais-UFSC
Nádia Farage - Professora colaboradora DH-IFCH, Unicamp.
Carlos Pinkusfeld Bastos – Professor IE – UFRJ
Waldir Quadros – Professor IE/Unicamp
Simone Deos - Professora, IE-Unicamp
Fábio Eduardo Iaderozza - Professor de Economia da Facamp e do Centro de Economia e Administração da PUC Campinas (CEA)
Rodrigo Vianna - Jornalista e historiador (USP)
Ana Luíza Matos de Oliveira – Doutoranda IE/Unicamp
Adriana Aparecida Quartarolla - Doutoranda em Linguística na UNICAMP e professora de Língua Portuguesa na FACAMP
Marcelo Manzano – Professor FACAMP
Lygia Sabbag Fares Gibb – Professora universitária e doutoranda IE/Unicamp
Beatriz Freire Bertasso – Professora Facamp
Darci Frigo, advogado - Terra de Direitos
Artur Scavone – Jornalista
Benedito Ferraro - PUC-Campinas
Sávio Machado Cavalcante – Professor de Sociologia (IFCH/Unicamp)
Juliana Pinto de Moura Cajueiro – Facamp
Roberta Gurgel Azzi – professora
Miguel Henrique Russo - professor


SINGER: É HORA DE BARRAR O ARBÍTRIO DE MORO







O jornalista e cientista político André Singer considera a desnecessária prisão de Guido Mantega num hospital como a gota d'água de um processo autoritário conduzido pelo juiz Sergio Moro, que deve ser contido imediatamente, na sua visão.

"Cabe lembrar que, pela terceira vez, Moro apresenta explicações mal ajambradas para decisões gravíssimas. Depois da também desnecessária condução coercitiva de Lula, em 4 de março passado, emitiu nota na qual 'lamentava' que as diligências tivessem levado a confrontos, 'exatamente o que se pretendia evitar'. Determinou a coerção para evitar conflitos? Quem acredita? Cinco dias mais tarde, Moro divulgou as famosas escutas telefônicas entre o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rousseff", lembra Singer.

"Agora parece que Moro ultrapassou o limite do aceitável, mesmo para corações liberais e conservadores. Por isso, espero que o episódio Mantega represente um corte. A opinião pública viu a face do arbítrio. Se ficar conivente com ele, prestará contas à história. Quando um processo autoritário se explicita, todo mundo sabe como começa, mas ninguém sabe como termina."
 
 
 

OS PARALELOS ENTRE EDUARDO CUNHA E HERRIETTE WILSON, UMA PROSTITUTA DO SÉCULO XIX



Eduardo Cunha e nossa Herriette 




Ao que tudo indica, Eduardo Cunha lançará um livro narrando os bastidores dos eventos políticos recentes do país. Trata-se de uma espécie de retaliação? Desejo de ver publicada a sua própria versão da história? Nostalgia?

Não creio.

Nesse caso, de que se trata?, o leitor poderia perguntar. E eu citaria um episódio célebre da história inglesa, que, embora desconhecido pela maioria dos brasileiros, possui muito em comum com o momento que estamos vivendo.

A história em questão data do período da Regência inglesa, que teve início em 1811 – ano em que o Príncipe de Gales tornou-se regente devido à insânia de seu pai, o rei Jorge III – e encerrou-se em 1820, com a ascensão do príncipe, então Jorge IV, ao trono.

Harriette Wilson foi a mais notável prostituta da Regência. Durante os seus anos de ouro, ou seja, entre os quinze e trinta e cinco anos, Harriette viveu como uma rainha, tendo se envolvido com homens do calibre do próprio príncipe, do Duque de Wellington, homem que derrotou Napoleão em Waterloo, e de Lorde John Ponsonby, que segundo a lenda se encontrava na França durante a Revolução e, ao ser atacado por uma multidão que tinha-o em pouca conta por ser um aristocrata (e ainda por cima inglês!) foi poupado a pedido das mulheres, que mostraram-se comovidas por sua beleza sublime.

Mas cheguemos ao ponto.

Como Alexandre Dumas Filho notou em A Dama das Camélias, a primeira morte de uma cortesã consiste em seu envelhecimento.

Harriette Wilson não escapou à regra e, ao envelhecer, tornou-se dispensável aos homens que até então veneravam-na. Eles talvez tenham percebido que, por mais que as loucuras extravagantes e os caprichos de uma bela mulher na flor de idade sejam compreensíveis, tornam-se ridículos em uma senhora de quase quarenta anos. Outras moças caprichosas e consideravelmente mais jovens encontrando-se disponíveis, Harriette perdeu todos os seus benfeitores.

Abandonada por aqueles que até então agradaram-na e bajularam-na incansavelmente, Harriette pagou o preço pela sua vida ostensiva e ficou à mercê de credores e agiotas. Sua idade não lhe permitia encontrar um novo amante que a livrasse das dívidas. Que fazer?

Escrever um livro.

Ao escrever suas memórias, Harriette Wilson não desejava vingar-se de seus amantes ou ter um vislumbre de si própria – de sua beleza, de sua personalidade encantadora, de seu ardil – na época em que esteve perto de enlouquecer o Duque de Argyll ou o Marquês de Worcester. Ela não desejava alfinetar nem enaltecer os homens que tinham passado pela sua vida.

Ela queria dinheiro.

E qual a melhor maneira de consegui-lo? Os direitos autorais não seriam o bastante para livrá-la de todas as suas dívidas. Ela se envolvera com homens influentes. Embaixadores, diplomatas, membros do Parlamento, militares de alto escalão – muitos destes passaram pela sua vida, e a carreira, a reputação e o casamento de boa parte deles eram sustentados pela imagem digna que passavam de si mesmos. E essa imagem poderia ser maculada de maneira indelével por uma das mulheres com quem se relacionaram no passado.

Harriette sabia que, acima de qualquer outra coisa, seus antigos amantes temiam ter seus nomes envolvidos em escândalos de grande proporção. Por isso, abordou a todos e disse-lhes que, caso lhe pagassem duzentas libras, tiraria seus nomes das Memórias.

Atualmente, as duzentas libras daquela época equivalem a cerca de 15 000 libras, uns 60 mil reais. Tendo em vista que, ao que tudo indica, Harriette recebeu aproximadamente duzentos homens em seus aposentos pessoais, seu lucro não seria pequeno.

Não sabemos quantos homens compraram sua passagem para fora das Memórias, já que ela manteve sua palavra.

Apesar de desacreditado, Cunha tem em mãos uma ferramenta de extorsão tão poderosa quanto a de Wilson. Resta saber o que fará com ela e o que farão os nobres cidadãos cujos nomes podem figurar nas páginas de seu livro.

Encerro o meu texto com uma informação interessante. O Duque de Wellington, levando em consideração o fato de que a reputação do homem que acabara com Napoleão jamais seria profanada por um mero escândalo sexual, recusou-se a ser explorado. Com o vigor e a eficiência que lhe eram particulares, Wellington limitou-se a declarar: “Publique e vá para o inferno”, frase mencionada na vasta maioria dos livros e documentários do qual é assunto.

Sábio. Muito sábio.

Por Camila Nogueira, no DCM