segunda-feira, 3 de agosto de 2015

PARA VENCER O GOLPISMO





Renan Calheiros é o último vagido do latifúndio canavieiro do Nordeste; Eduardo Cunha, um Inocêncio de Oliveira urbano, mais articulado, e com as mesmas raízes no atraso



De um lado está um PMDB poderoso e inconfiável; de outro, um PSDB ensandecido pela paixão golpista. Uma união diabólica


Por Roberto Amaral - na Carta Capital



O Brasil não é uma republiqueta, e aqui não se repetirão os bem sucedidos ensaios do Paraguai e de Honduras. Nem outros, porque a sociedade também não mais aceitará a quebra da legalidade reconquistada após mais de 20 anos de ditadura militar. Muitas de suas cicatrizes ainda estão vivas, outras coçando para nos lembrar do que não poderemos jamais esquecer.  
É o que não entendem as novas vivandeiras, felizmente ainda sem tropas para cortejar. Tampouco Aécio é Carlos Lacerda, em comum apenas o desapreço ao jogo democrático. E os muitos desvios de caráter. Também não surpreende a nova postura de FHC: antes dele, muitos homens públicos envelheceram sem sabedoria. É mesmo muito difícil sobrevier à propria biografia.  
Eduardo Cunha é um Severino urbano, mais articulado, e com as mesmas raízes no atraso, a que se somam seus negócios com a ala mercenária do pentecostalismo. E por isso mesmo incontrolavelmente audacioso e na mesma medida perigoso. Renan Calheiros é o último vagido do latifúndio canavieiro do Nordeste. Mas todos estão na ativa. Um presidente da Câmara dos deputados, outro presidente do Senado Federal e do Congresso. Todos na linha constitucional da sucessão presidencial.
Há no país uma coorte assumidamente golpista reunindo imprensa – o maior partido da oposição –, setores ponderáveis da avenida Paulista e partidos políticos. Esta é, oficialmente, a postura do PSDB, açulado pela oscilação macunaímica [com o perdão a Mario de Andrade] de um PMDB que, não sabendo se é governo ou oposição, joga maliciosamente nas duas pontas contra a Presidente.
Mas esse PMDB, artífice da chantagem, é o maior partido da base do governo, que dele depende para governar! Desse PMDB é vice-presidente da República e articulador politico do governo o Sr. Michel Temer, que, em convescote em Nova Iorque anuncia, para aplauso dos presentes, que ‘manteria o Levy no Ministério’. Em quais circunstâncias isso seria possível?
De um lado, portanto, está um PMDB poderoso e inconfiável. De outro, um PSDB ensandecido pela paixão golpista. Uma união diabólica. Girando como pião entre uma força e outra, uma base parlamentar flébil, acuada, e um PT que do velho e aguerrido Partido dos Trabalhadores de anos passados guarda só a sigla.
Nessas circunstâncias movem-se as peças de um oposicionismo canhestro propelido pela irracionalidade da inveja, pelo despeito que alimenta o ódio hepático. Esse filme o Brasil conhece e repudia: já o viu em 1954 e em 1964 e sabe qual foi o preço pago pela democracia em ambas as  oportunidades. Rejeitamos sua reprise masterizada.
O golpismo se desenvolve em cascata: o primeiro passo foi a recusa em reconhecer o pleito e sua lisura e a tentativa de ‘recontagem’, insinuação de fraude eleitoral; depois as ridículas tratativas visando a impedir a posse, depois os reiterados ensaios deimpeachment (ora por motivação política, ora judicial, ora por isso e ora por aquilo, e sempre sem fundamentação ética ou legal); depois, promessa de ‘sangrar a presidente’, inviabilizando seu governo, ainda que isso cobre preço altíssimo à economia nacional e à vida de nosso povo. A tentativa é asfixiar o governo para vê-lo irremediavelmente sem fôlego.

Essa gente não leva em conta as consequências para a economia do país. Aí entra em cena a felonia do PMDB, que escala os presidentes da Câmara dos Deputados (este na expectativa de ser processado por crime comum [extosão] pelo STF) e do Senado Federal, de biografias conhecidas, para o ofício da sabotagem. São eles os verdadeiros líderes da oposição, juncando de trambolhos o governo da presidente Dilma, no afã de jogá-la e seu partido contra a população.

Na verdade, não se trata do salutar exercício da oposição – sem a qual não existe democracia digna do nome –, mas da tentativa de exterminar politicamente a presidente e seu partido, tentativa que em si mesma nega e repele o processo democrático. O leitmotifdessa oposição desvairada deixa de ser a crítica pontual ou em tese ao governo. Em seu lugar se instala a lógica do ódio que gera ódio, o mais eficaz fermento da intolerância que gera a violência, que descamba da ofensa verbal para a agressão física.

Este é um labor mesquinho, quando todos deveríamos estar unificados na busca de saída para a crise. Esta é a hora de buscar compromissos honrosos, é o momento de abandonar a mesquinhez da luta pequena que empobrece a política e passara pensar no país.
Que tempestades espera a oposição colher com os ventos que ora sopra?
A análise só se justifica como instrumento de ação. Se a tentativa de golpe está posta, que se erga a defesa do governo. Sem lamentar a oposição, mas, denunciando seus arreganhos golpistas, cuidar de sair do imobilismo em que se acham a centro-esquerda e os liberais. O momento, portanto, não permite nem a contemplação inativa nem a autocomiseração (“estamos no volume morto!” “temos que ser punidos pelas besteiras que fizemos!”).
Essas duas alternativas, se escolhidas por nós, favorecem o conservadorismo. Há uma terceira que igualmente nos enfraquece, a da automistificação (“O petismo no poder foi revolucionário, emancipou as massas e alijou do poder as classes dominantes!”). O primeiro passo, agora, é distinguir o fundamental do acessório. E o fundamental me parece ser, nas atuais circunstâncias, a sustentação do governo Dilma, até para poder alterar-lhe a equivocada política econômica. A pura crítica nossa só interessa, neste momento, aos setores golpistas.
Mas o governo tem que ajudar: ele precisa definir de que lado está. A presidente Dilma Rousseff precisa se convencer de que: 
1) O Brasil não vive um 'pacto de classes': um esboço desse pacto, encarado taticamente pela burguesia, foi feito no governo Lula, pois o projeto tucano havia se esfacelado;
2) Fortalecida, a direita já fez sua opção, e ela é, neste primeiro momento, Aécio Neves, candidato ‘consagrado’ em uma campanha que para ela não acabou nem acabará antes de seu triunfo, independentemente do preço a pagar; 
3) Logo, só é possível ocupar o espaço da centro-esquerda, deixado vago, em parte, pelo próprio governo petista, com sua tática de conciliação permanente. 
Isso implica definir uma agenda progressista mínima e buscar implementá-la na medida que as circunstâncias permitirem. 
Contrário senso, limitar as concessões à direita ao mínimo indispensável para sobreviver. Ou seja, procurar só fazer recuos que permitam avançar. Se necessário, dois passos à frente e um atrás, jamais o contrário. 





CATTA PRETA BATE O ÚLTIMO PREGO NO CAIXÃO DE CUNHÃO








Por Kiko Nogueira




O depoimento da advogada Beatriz Catta Preta ao Jornal Nacional é mais um prego no caixão de Eduardo Cunha.
Ao Jornal Nacional, Beatriz revelou que sua decisão de abandonar a defesa de seus clientes na Lava Jato se deveu a ameaças “veladas”, “cifradas”. Diante delas, foi preciso zelar pela segurança “da família, dos filhos”.
Não especificou nada.
Mas a pressão, contou, partiu dos integrantes da CPI da Petrobras, que querem que ela explique, por exemplo, de onde vêm seus honorários — o que a OAB considera uma ameaça para o direito de defesa no país.
Aparentando segurança, afirmou que está deixando a carreira. A mudança para Miami era um boato. Estava de férias, na verdade. O repórter César Tralli passeou por um escritório vazio.
A “retaliação” começou depois do depoimento do empresário Júlio Camargo, tido como operador do PMDB. Camargo, como se sabe, acusou Cunha de receber propina de 5 milhões de dólares.
O autor do requerimento para Beatriz falar na CPI é o deputado Celso Pansera, que o doleiro Alberto Yousseff chamou de “pau mandado” do presidente da Câmara.
“Sim, venho sofrendo intimidação pelas minhas filhas, minha ex-esposa, pela CPI coordenada por alguns políticos e eu acho isso um absurdo”, disse Yousseff.
Pansera e outros colegas da comissão parlamentar de inquérito teriam solicitado uma investigação de Julio Camargo para desqualificá-lo. A Kroll teria sido contratada para o serviço. Tudo sob a orientação do chefe EC.
“Está em vigor a ‘moral da gangue’, que acredita triunfar pela vingança, intimidação e corrupção”, escreveram os advogados de Camargo que substituíram a Catta Preta.
Beatriz Catta Preta é a maior especialista do Brasil em delação premiada. Orientou nove dos 23 delatores da Lava Jato. Declarou que Camargo tem provas do suborno de Cunha.
Arriscaria tudo numa farsa desta monta? All in?
Ela não é a primeira e não será a última pessoa que se diz achacada por Eduardo Cunha, que aparelhou a CPI, transformando-a em seu instrumento de chantagem.
Cunha dirá que quem está por trás de tudo é o governo federal, mas seus métodos são cada vez mais expostos. A questão é quanto tempo ele — e o Brasil — suporta até jogar a toalha.




USUÁRIOS DÃO NOTA 9 AO PROGRAMA MAIS MÉDICOS





Levantamento, feito pelo Grupo de Opinião Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra que 54% dos usuários entrevistados dão nota 10 ao programa, criado em 2013 pelo governo federal para levar médicos a regiões carentes



Pesquisa mostra que usuários do Mais Médicos dão nota nove, em uma escala de zero a 10, como nota média para o programa. O levantamento, feito pelo Grupo de Opinião Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra que 54% dos usuários entrevistados dão nota 10 ao programa, criado em 2013 para levar médicos a regiões carentes.
Encomendado pelo Ministério da Saúde, o estudo aponta que, diferentemente do que os que são contra o programa pensavam, a maioria dos pacientes atendidos pelos médicos estrangeiros não sentiu dificuldades na comunicação. Os dados apontam que 84% não tiveram dificuldades de entendimento e que apenas 2% sentiram muita dificuldade.
Para Helcimara Telles, coordenadora da pesquisa, o que faz com que o programa seja bem avaliado é o atendimento médico. "Mesmo que a infraestrutura da Unidade Básica de Saúde não seja muito boa, mesmo que faltem coisas, quando o atendimento médico é bom isso repercute bem na avaliação do programa", defende a pesquisadora. Para a coordenadora, essa satisfação pode estar ligada à experiência dos médicos, já que 63% dos profissionais têm mais de dez anos de experiência, a maioria na atenção básica.
O perfil do usuário mostra que a maioria (80%) dos pacientes são mulheres, com filhos, renda de até dois salários mínimos e que 40% recebem bolsa família. "Isso mostra que o programa está atendendo o público alvo", explica Helcimara.
Como desafios principais apontados pelos usuários, o levantamento destaca as dificuldades no acesso aos medicamentos, na marcação de consultas e na demora para receber o atendimento. Além disso, os pacientes também reclamam que não conseguem ser atendidos pelo mesmo profissional, o que dificulta o acompanhamento do histórico de saúde.
Comparando com o período anterior à chegada dos médicos do programa, 84% acham que o atendimento melhorou muito, 83% apontam melhora na duração da consulta e 81% acreditam que o profissional conhece mais os problemas de saúde do que os médicos anteriores.
Os resultados da pesquisa foram apresentados durante o 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Goiânia. As entrevistas foram feitas em Unidades Básicas de Saúde de 700 municípios de todas as regiões do país entre 17 de novembro e 23 de dezembro de 2014. A margem de erro é 1%.
Para a doutora em saúde pública e professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lígia Bahia, o programa cumpriu um papel importante no atendimento em áreas carentes. "Ele não muda a estrutura do sistema público de saúde, mas ele foi capaz de levar assistência a uma parcela da população que não tinha".
Ela destaca que os médicos cubanos são muito experientes e bons e que isso pode ter levado à avaliação tão positiva dos pacientes. No entanto, Lígia contesta o modelo de dar uma nota ao programa. "Uma nota resumo não é um método adequado para uma pesquisa de satisfação do usuário. Para mim, uma nota nove não quer dizer nem que o sistema é excelente e nem que não funciona.", defende.




OS "PARADOXOS" DE SÉRGIO MORO: POR QUE ELE NÃO INVESTIGA FURNAS?








Da coluna "Notas Vermelhas"

Nesta quinta-feira (29), o jornalista Webster Franklin fez uma pergunta, no Jornal GGN, que deveria estar sendo feita em peso pela mídia hegemônica, se esta não fosse corrompida e venal até a raiz do cabelo. A pergunta é singela e obrigatória: Por que Sérgio Moro não investiga Furnas? 


Webster recorda, em seu artigo, que o doleiro e delator Youssef declarou, em 2014, que dinheiro desviado de Furnas tinha sido destinado a Aécio Neves. 


Vejam que, diferente de outras ocasiões, Youssef neste caso não foi vago (assista ao vídeo). Em sua delação premiada ele não diz que ACHA que o dinheiro era para a campanha de Aécio, ele afirma que o dinheiro era para o pagamento de propinas que o PP dividia com o PSDB, fruto do “compartilhamento” de uma diretoria de Furnas durante o governo do ínclito FHC, citando nominalmente o então deputado Aécio Neves. Youssef aponta ainda a irmã de Aécio Neves como operadora do esquema.  


Mas Sérgio Moro revelou sua alma tucana de duas formas. Em primeiro lugar, durante a campanha eleitoral de 2014 a operação Lava Jato “vazou” diversas citações a membros do PT ou do governo visando prejudicar a campanha à reeleição de Dilma Rousseff e guardou a sete chaves a citação de Youssef que envolvia Aécio Neves, que só foi divulgada em março de 2015. Em segundo lugar, Moro afirmou que a corrupção de Furnas não lhe dizia respeito por não se tratar de desvios ligados à Petrobras. 

Agora, em relação à Eletrobrás, o mesmo Sérgio Moro diz que este assunto é de sua responsabilidade em “decorrência da conexão e continência dos demais casos da Operação Lava Jato”. Ou seja, como registra a jornalista (e laureada estudante de Direito, registre-se) Dayane Santos, do Portal Vermelho, a “interpretação para fatos semelhantes é completamente diferente”. Em declaração às Notas Vermelhas, o deputado federal Wadih Damous (PT-RJ), ex-presidente da OAB-RJ, disse que “Este é mais um dos paradoxos arbitrários dos tantos cometidos pelo Juiz Lava Jato”. 


A alma tucana de Sérgio Moro - Democracia ameaçada

Imaginem os leitores se Youssef tivesse dito o seguinte: que dinheiro foi desviado de Furnas para ser entregue a Luís Inácio Lula da Silva e que Frei Chico (irmão de Lula) era o operador do esquema. Seria uma hecatombe. Colunistas amestrados, manchetes garrafais, reportagens especiais em tom dramático em todas as TVs e Rádios (inclusive na inacreditável Agência Brasil) iriam escarafunchar cada detalhe da vida do irmão do Lula. E qual vocês acham que seria a atitude do juiz comendador da Globo? Alguém acredita de fato que ele iria alegar, neste caso, que Furnas não está no âmbito das investigações da Operação Lava a Jato? 

Wadih Damous: A resposta virá

Em momentos como estes as coisas devem ser ditas o mais claramente possível: A condução parcial e politicamente dirigida da operação Lava Jato é escandalosa e só não desperta a indignação coletiva pela eficaz e unânime blindagem da mídia hegemônica. Esta blindagem só pode ser rompida com uma também eficaz, unânime e vigorosa denúncia, por parte das forças democráticas, do perigo que tal atitude representa para a legalidade democrática. Deixar que a justa bandeira do combate à corrupção seja empunhada por quem só tem em mente conduzir uma “santa cruzada” para criminalizar um partido ou uma corrente política, pode contar com eventual apoio de parcelas da população, mas trará, em curto prazo, consequências danosas e duradouras não só para a esquerda, mas para todos os democratas e patriotas. Segundo Wadih Damous, no entanto, a resposta a isso não tardará: “Está sendo articulado por todo o Brasil um amplo grupo de juristas, advogados e estudantes de direito para denunciar os abusos e desmandos que ameaçam o Estado de direito e a democracia”.





LAVA JATO: DIRCEU PRESO, É PRESO DE NOVO





Dirceu tentava evitar um novo mandado de prisão com habeas corpus



Por Fábio Serapião na Carta Capital

Além de receber 1,1 milhão de reais da construtora Engevix, Dirceu obteve outro 1,4 milhão da Jamp, cujas movimentações foram descobertas em uma fase anterior da operação





As delações do presidente da UTC, Ricardo Pessoa, apontado como coordenador do cartel de empreiteiras, e do operador de propina da Engevix, Milton Pascowitch, acredita a força-tarefa que investiga os desvios da Petrobras, fechariam ainda mais o cerco ao Partido dos Trabalhadores e selariam de vez o destino do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Em seus depoimentos, Pessoa colocou em dúvida as doações efetuadas à campanha de Dilma Rousseff e arrastou nomes próximos à presidenta para o centro do escândalo. As acusações ainda terão de ser provadas. Os envolvidos negam irregularidades. Em entrevista a CartaCapital, o ministro da Secretaria de Comunicação, Edinho Silva, tesoureiro da campanha à reeleição, rechaça a acusação de achaque ao empreiteiro. “As doações foram legais.”

A situação de Dirceu, segundo os investigadores, parece mais complicada. O depoimento de Pascowitch, unido aos documentos levantados nos últimos meses, levaram a força-tarefa a formar a convicção de que existem provas suficientes para incriminar o ex-ministro. Pascowitch teria sido claro em sua delação. Segundo ele, os pagamentos efetuados pela Jamp, sua empresa, à JD Consultoria, de Dirceu, vieram das propinas cobradas na estatal.

Com medo da perspectiva de prisão, Dirceu ingressou em 2 de julho com um pedido de habeas corpus. Há motivo. Embora não de forma oficial, os investigadores da Lava Jatotêm feito consulta sobre a situação do ex-ministro. Querem saber se ele poderia ser novamente encarcerado pelo fato de, no momento, cumprir em regime aberto a sentença do chamado mensalão.

Para a força-tarefa, as poucas dúvidas restantes da participação de Dirceu no esquema da Petrobras desapareceram após os depoimentos de Pascowitch. Como antecipouCartaCapital na reportagem sobre a fase Juízo Final da Lava Jato, em novembro de 2014, a possibilidade do ex-ministro de se tornar um dos alvos era patente. Ele está na mira dos investigadores desde a descoberta dos contratos entre sua consultoria e a Camargo Corrêa. A partir daí, a força-tarefa mapeou, com base em quebras de sigilo, os 29 milhões de reais movimentados pela JD, em especial o montante pago por empreiteiras. O caso da Engevix chamou atenção. Além de receber 1,1 milhão de reais da construtora, Dirceu obteve outro 1,4 milhão da Jamp, empresa de Pascowitch, cujas movimentações foram descobertas na fase apelidada de My Way.

Enquanto Dirceu e Pascowitch negavam qualquer tipo de relação ilícita e afirmavam tratar-se de contratos referentes a serviços de prospecção de negócios no exterior prestados à construtora Engevix, as investigações prosseguiam. Ao longo da apuração, outras ligações entre os dois foram reveladas, em primeiro lugar o fato de Pascowitch ter providenciado o pagamento de parte do imóvel-sede da JD, e de outro, em nome da filha do ex-ministro. Apesar dos contratos sem comprovação de prestação do serviço e  dos pagamentos milionários, faltava, porém, confirmar a origem dos recursos enviados pela Jamp e por outras empresas do operador.

Homologada na segunda-feira 29, a delação de Pascowitch vai além da relação com Dirceu. Ele detalha sua atuação em contratos bilionários fechados com a Engevix, explica sua ligação com o ex-diretor de Serviços, Renato Duque, e esclarece como seu patrimônio cresceu 50 vezes, entre 2003 e 2013, de 574 mil para cerca de 28 milhões reais. Duque, apontado como representante do PT na estatal e no esquema, foi  preso na sétima fase da operação, solto e novamente detido na décima etapa. Na última prisão, a Polícia Federal encontrou em sua casa um cômodo secreto cuja finalidade era armazenar documentos e obras de arte.
Nos documentos, também revelados com exclusividade por CartaCapital, figuram contratos entre a Jamp e a consultoria D3TM, de Duque, recibos de obras de arte pagas pelo operador e um contrato de compra de imóveis. No tal documento sobre a aquisição de três apartamentos na Barra da Tijuca, no Rio, uma cláusula se destacava. No item 9 do acordo firmado entre Duque e José Mauro dos Santos Fonseca, proprietário da Malta Incorporação de Imóveis, lê-se a seguinte instrução a respeito do pagamento: “Como o primeiro transator, para atender compromissos vinculados à construção das unidades, por intermédio de sua empresa, Malta Incorporadora, obteve da Jamp Engenheiros Associados empréstimos no valor de 730 mil reais, cujo pagamento se encontra pendente, neste ato e de forma expressa o ‘primeiro pagador’ autoriza o ‘segundo pagador’ a pagar diretamente o referido empréstimo”.

A mesma tática teria se repetido na aquisição dos quadros encontrados no cômodo secreto. Segundo a Polícia Federal, os documentos provam que ao menos 3 das 131 obras de arte na posse de Duque foram pagas por Pascowitch. À época da segunda prisão do ex-diretor da Petrobras, os investigadores apenas desconfiavam de possíveis irregularidades. Hoje, com base na delação, dizem ter certeza de que todas as transações, da mesma forma que os pagamentos efetuados para Dirceu, se originaram do dinheiro desviado da Petrobras. Nos depoimentos prestados, o operador da Engevix ratificou a tese. Qualificou como propina os repasses feitos a Duque e Dirceu, além de relacionar todas as obras da estatal das quais o dinheiro foi subtraído. Pascowitch também teria confirmado a ascendência de Dirceu na nomeação de Duque para uma das diretorias da companhia.

O advogado de Duque não atendeu aos pedidos de informação da revista. Quando da apreensão dos documentos, Alexandre Lopes afirmou que os delatores “falsearam” a verdade e que todas as consultorias da D3TM eram legais e realizadas após a saída de seu cliente da Petrobras. O defensor negou ainda a possibilidade de o ex-diretor ter movimentado dinheiro fora do País.
Em nota publicada no blog de Dirceu, o advogado Roberto Podval lista quatro pontos para rebater as afirmações de Pascowitch. Segundo ele, o ex-ministro não teve qualquer influência na indicação de Duque e a relação da Jamp com a JD seria resultado de uma consultoria prestada no Peru. A informação, salienta a nota, é corroborada pelo presidente do Conselho da Engevix, Cristiano Kok, e pelo ex-vice-presidente, Gerson Almada, preso na fase Juízo Final da Lava Jato. Embora citado na nota como delator, Almada não assinou um acordo com a Justiça Federal, mas confirmou serem os pagamentos da Engevix a Dirceu referentes ao “lobby” exercido pelo ex-ministro.

Para seus defensores, o pedido de habeas corpus apresentado na quinta 2 tem como objetivo evitar um “constrangimento ilegal”. Nos próximos dias, a eficácia da medida será testada no Paraná, onde se concentra o processo. Dirceu tem, porém, outras fontes de dor de cabeça. A UTC, diz Pessoa, também teria pagado 3,2 milhões de reais à JD. Propina, segundo o delator.

Nesse caso, Dirceu não estaria sozinho. Além de doações à campanha de Dilma, o dono da UTC teria confirmado pagamentos para um grupo variado de políticos de diferentes partidos. Estariam na lista Fernando Collor e Gim Argello. Do PT, o ministro Aloisio Mercadante e José de Filippi. Da oposição, o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, vice de Aécio Neves na última disputa presidencial, e Júlio Delgado, do PSB, braço direito do falecido Eduardo Campos.

Apontado como prova da capacidade do cartel de empreiteiras de suplantar diferenças partidárias, a delação de Pessoa une-se à mais nova fase da operação, realizada na quinta-feira 2 para levar à cadeia Jorge Zelada, ex-diretor da Área Internacional da Petrobras. Indicado pelo PMDB, Zelada pode complicar ainda mais a vida de Renan Calheiros e Eduardo Cunha, investigados pela Procuradoria-Geral da República. Denominada Conexão Mônaco, a nova fase apura o pagamento de propina para o ex-diretor em contratos de navios-sondas. Em seu despacho, o juiz Sérgio Moro citou uma auditoria da Petrobras que identificou “uma série de irregularidades, parte delas imputável ao então diretor da área Internacional”. Os desvios vão do superfaturamento à assinatura de contratos sem autorização da diretoria executiva.

Para prender Zelada, os investigadores da força-tarefa, assim como nos outros casos, seguiram o caminho do dinheiro e mapearam as transações do executivo no exterior. Remessas suspeitas para a China e a Suíça serviram de base para o pedido de prisão do Ministério Público. “Observando os extratos das contas, há também registro de transferências a débito vultosas para outras contas na China e outras contas na Suíça, aparentemente esta controlada por sócio no Brasil do investigado”, destacou o juiz em sua decisão. Além das movimentações de quase 9 milhões de dólares, um acordo de cooperação com o Principado de Mônaco revelou que o ex-diretor manteve cerca de 11 milhões de euros escondidos naquele país.

Em nota,  Eduardo Moraes, advogado de Zelada, afirmou não ter tido acesso ao teor da decisão que autorizou a prisão, mas antecipou “com toda segurança a absoluta desnecessidade” da medida. Segundo o defensor, a “sua liberdade não representa, como nunca representou, qualquer risco à investigação ou à ordem pública”. Moraes ainda atacou o “método” das autoridades da Lava Jato de prender para apurar e processar ao “subverter a Constituição Federal”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 857 de CartaCapital, com o título "José Dirceu, o eterno"




RESPEITE-SE A CONSTITUIÇÃO





Só com a aposta no crescimento a presidente reverte a situação criada por uma crise antes política que econômica


Por Mino Carta


Sem hipocrisia e golpes baixos, vale escolher a realidade em lugar da ficção



Inúmeros brasileiros vivem uma ficção, a supor que se trate da própria realidade. Eles acreditam que, derrubado o governo de Dilma Rousseff, o destino voltará a sorrir. E que a corrupção é o mal maior, de exclusiva marca petista. E que a Operação Lava Jato é a versão melhorada da Mãos Limpas italiana e que o juiz Moro é um varão de Plutarco. E que foram finalmente desnudados os pecados de Lula, entre outros, o de ter feito lobby no exterior a favor de empresas brasileiras, tanto na qualidade de presidente da República quanto como simples cidadão. E por aí afora. Suponho, aliás, que o rei da Suécia deva perder a coroa por ter feito lobby dos caças enfim adquiridos pelo Brasil.

E, a propósito de Lula, acreditam na sua tentativa de conferenciar com Fernando Henrique em busca de um entendimento suprapartidário, frustrada prontamente pela negativa do príncipe dos sociólogos. O episódio é menor, mas exemplar. Abandonada a ficção, caiamos na real. Dois amigos procuram Lula no começo de julho, são amigos também de FHC, e trazem a proposta de uma conversa sobre os problemas contingentes. O procurado sabe que o proponente gosta de aparecer e, portanto, de passar a prestativos jornalistas informações que haveriam de permanecer secretas. Daí a contraproposta: tudo bem, se o encontro se der na casa de um dos amigos comuns, com a garantia de testemunhas confiáveis. FHC manda responder que concorda, mas será preciso esperar pelo retorno dele de uma viagem ao exterior. Dias atrás, Lula é informado pela mídia que o viajante voltou e espalha a versão ficcional: ele não quis a conversa proposta pelo petista.

Entregue à veia romanesca, a mídia borda a respeito dias a fio. Recordo ter assistido a um encontro entre Lula e Fernando Henrique em um bar na periferia de São Bernardo, naquele começo do outono de 1980 marcado pela greve dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, encerrada com a prisão do presidente do sindicato, enquadrado na Lei de Segurança Nacional da ditadura. Antes da chegada do então suplente de senador, eu quis me retirar. Lula disse “fica, fica, vai valer a pena”. Não fosse clara a diferença entre as duas figuras, qualquer dúvida cairia. Diferença na fé e na coerência. FHC recomendava cautela. Contemporização. Pensei que ele já enxergasse no interlocutor do bar do arrabalde um adversário carismático, perigosamente atilado. Talvez, um inimigo, de sorte a sugerir a conveniência de conter-lhe os ímpetos.

Trinta e cinco anos após, FHC ainda está na ribalta, empenhado em desempenhar o papel de oráculo do PSDB, de mentor-mor, a orientar o movimento desencadeado contra o governo e o PT, sem conseguir encobrir o alvo mais graúdo, ou seja, o próprio metalúrgico com quem conversou à vista de ovos duros, sardinhas fritas e garrafas de cachaça. E a realidade de hoje diz que a oposição engatilha mais uma cartada no jogo do impeachment, com o apoio maciço da mídia, conforme um projeto de iniludível natureza golpista.

Desde antes da posse, os vencidos tentam solapar o governo e brandem a ameaça do impedimento. O “petrolão” lhes ofereceu munição farta, com a contribuição das posições cada vez mais dúbias do PMDB, da desorganização e inoperância do PT e do descumprimento das promessas feitas por Dilma Rousseff aos seus eleitores. Não faltaram tentativas de envolver a presidenta no escândalo da Petrobras. Todas malograram. Sobram para o cardápio do momento as expectativas em relação às decisões de TCU e TSE sobre contas e pedaladas.

CartaCapital lembra que a história recente e nem tanto registra a eleição de outros candidatos em circunstâncias análogas, se não idênticas, coroadas pela posse sem riscos, percalços, objeções. CartaCapital entende que, acima de tudo, deve vingar obrigatoriamente o respeito à Constituição, sem hipocrisias e golpes baixos. Nem por isso, não há como disfarçar o açodamento oposicionista, mais ainda, a irresponsabilidade. A despeito dos ficcionistas midiáticos, a saída não está em uma mudança da guarda no Planalto. E a se considerarem as consequências da queda deste governo, é fácil compreender que o Brasil com Dilma legalmente reeleita é a solução indispensável, a bem da nossa incipiente democracia.

Estamos a nos aproximar de jornadas de muita tensão, ao que tudo indica. Sabemos, contudo, que mesmo superado o terremoto, a oposição e sua mídia não desistirão do combate, pois a Lava Jato prossegue sem esmorecimentos, sob o olhar impassível do STF, indiferente diante de um acúmulo insuportável de irregularidades, enquanto a crise econômica fermenta, com a alta de desemprego e inflação e crescimento abaixo de zero.
A partir do pós-reeleição, CartaCapital insiste na necessidade da retomada imediata do crescimento, quem sabe a começar pela conclusão das obras inacabadas do PAC, cujo atraso oscila entre 20% e 30%. Falávamos no exemplo de Roosevelt depois do craque da Bolsa de Nova York. Com o aproveitamento de recursos públicos, Dilma poderia lançar o seu new deal, modesto, mas eficaz. Óbvia a incompatibilidade entre essa ideia e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, empenhado em elevar juros e aplicar a cartilha de Chicago.

Seria preciso inverter a rota, ao perceber finalmente o óbvio: antes que econômica, a crise é política. E agora me pego a descambar para o onírico. Em lugar da ficção da mídia, o sonho de um jornalista ancião. Começa com o pesadelo chamado impeachment. Resultado: assume Michel Temer, o qual, entre parênteses, mantém desde a posse um comportamento correto. O PMDB alia-se ao PSDB e Levy continua na Fazenda. De cambulhada, privatiza-se a Petrobras e entrega-se o pré-sal a um consórcio das sete irmãs do petróleo mundial. Dissolvência. Saio do pesadelo, sonho, simplesmente. Hora das eleições de 2018, Lula vence. É um passeio.