quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Filme chinês traz trama sobre paranoia e vigilância em tempos de modernidade





Protagonista do filme, Qiuming trabalha como freelancer em uma agência de cartografia em Nanjing



Entre as muitas contradições do chamado “capitalismo de Estado” adotado pela China, está o fato de o país asiático - que investe cada vez mais em alta tecnologia - censurar diversas páginas da internet. Esta característica acentua no local uma discussão que é hoje global: em tempos de redes sociais e aplicativos com geolocalização, como definir os limites entre a praticidade fornecida por estes serviços e a invasão de privacidade muitas vezes resultante deles? Tal questão é um dos cernes do filme chinês Rua Secreta, que entrou em cartaz em São Paulo na última quinta-feira (03/09).

No longa-metragem de estreia da diretora Vivian Qu, o jovem Qiuming (Lu Yulai) trabalha comotrainee em uma empresa de cartografia digital da cidade de Nanjing. Durante uma de suas jornadas, ele descobre uma rua sem saída que não está documentada nos mapas do município e que desaparece até mesmo do mapa que ele acabara de atualizar. Com vontade de entender este mistério, e também atraído por uma mulher que cruza seu caminho, o protagonista passa a rondar o local em busca de respostas.

A primeira metade do filme é usada para pontuar algumas de suas preocupações. A presença temática da vigilância e do voyeurismo de nossos tempos pode ser vista na cena inaugural, quando o equipamento cartográfico utilizado por Qiuming ganha função de câmera e é usado pelo protagonista para seguir os passos de Lifen (He Wenchao), a moça com quem ele virá a se relacionar; já a revelação de um segundo emprego do protagonista, como instalador de câmeras ilegais, surge como prenúncio irônico a respeito do desenrolar da narrativa.

O grande mérito desta parte do trabalho é o de conseguir conduzir a atenção do espectador para as inquietações do protagonista, ao mesmo tempo em que faz observações precisas sobre problemas chineses. Em uma das cenas, por exemplo, os cartógrafos são perseguidos ao serem confundidos com funcionários de uma empreiteira que quer colocar fim a uma ocupação habitacional.

Entretanto, quando tais sutilezas dão lugar à literalidade exigida pela bem feita construção do mistério - no momento em que os responsáveis pela opressão do protagonista são nomeados -, o filme apresenta uma queda perceptível graças ao insuficiente desenvolvimento do roteiro, que trilha caminho genérico e não sustenta o seu promissor início.

Ressalvas à parte, o desfecho de Rua Secreta - que faz lembrar o de A Conversação, clássico de Francis Ford Coppola - conclui um trabalho interessante sobre como o controle do indivíduo e a paranoia andam juntos em tempos de Google Maps.




A SEITA QUE UNE OS PREGADORES DO ÓDIO






Título original: "O que une os pregadores do ódio?"


por Antonio Barbosa Filho*





Em junho de 2015, Daniel Barbosa, de 42 anos, publicou nas redes sociais um vídeo no qual ofende e provoca um imigrante haitiano, frentista num posto de gasolina em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Ele acusa o imigrante de tomar emprego dos brasileiros, a se declara um lutador contra o “Foro de São Paulo e a infiltração de paramilitares cubanos e venezuelanos no Brasil”.


No começo de julho, durante visita da presidenta Dilma à Universidade de Stanford, na Califórnia, ao lado da ex-secretária de Estado dos EUA, Condolezza Rice, o jovem Igor Gilly infiltrou-se na delegação brasileira e também gravou um vídeo gritando xingamentos à governante: “terrorista que rouba o dinheiro da população tem mais é que ser morto”, gritou. Chamou a presidenta do Brasil de “assassina” e “ladra”.

Já em setembro, o advogado Mateus Sathler Garcia ficou conhecido por divulgar vídeos ameaçando explicitamente a presidenta da República de morte por “decapitação”. Exaltado, prometeu que no dia 7 de setembro haveria um golpe militar violento, e sugeriu que Dilma renunciasse ao cargo e saísse do Brasil para evitar a morte e um banho de sangue.

Há quem prefira considerar esses e outros epidódios como atos de loucura, cometidos por pessoas com problemas mentais. Porém, os três protagonistas têm um laço em comum, admitido por eles próprios: são todos “alunos” ou seguidores do jornalista Olavo de Carvalho, que reside no estado da Virgínia, nos EUA, de onde promove cursos e palestras pela internet pregando o ódio e a “eliminação” dos membros do PT ou de qualquer pessoa identificada com idéias esquerdistas.

O “olavismo” é uma mistura de pregação radical com elementos de religiosidade, o que poderia caracterizar seu grupo de admiradores como uma verdadeira seita. Olavo prega, e seus “alunos” repetem literalmente, que o PT, começando por Lula e Dilma, tem um pacto “satânico”, e visam destruir os valores ocidentais e cristãos, como via para implantarem uma ditadura comunista no Brasil. A metralhadora de Olavo é giratória, e mira em inimigos variados: há uma conspiração comunista global que agrega a KGB (jamais extinta, segundo o “filósofo”), o especulador George Soros, o presidente Barack Obama (que é um comunista, muçulmano e sequer nasceu nos EUA!), o Vaticano (infiltrado pelos “vermelhos”), o Islã, o sistema bancário mundial, e até os militares brasileiros, que seriam covardes por não terem dado um golpe contra o PT, desde o início do primeiro governo Lula.

Antes de rir de tantos disparates, convém notar que algumas postagens de Olavo, na forma de vídeos e hangouts no You Tube e outras redes sociais conseguem dezenas de milhares de “curtidas” e compartilhamentos. Seus “alunos” estão espalhados em vários meios, como a Editora Record, que tem publicado livros de autores direitistas nacionais e estrangeiros, e a revista Veja, entre outros. Confessam-se mais ou menos “olavetes” o ex-roqueiro Lobão, o humorista Danilo Gentilli, o deputado Jair Bolsonaro, os jornalistas Reinaldo Azevedo e Rachel Sheherazade, o economista Rodrigo Constantino, entre muitos outros.

Seria exagero atribuir a Olavo de Carvalho a responsabilidade por todo o discurso de ódio e a exacerbação dos ânimos no debate politico. Aliás, não se trata de debate. “Nós não queremos saber o que a esquerda tem a dizer, não vamos deixá-los falar, vamos fazer panelaço e barulho quando aparecerem na TV”, conclama o guru. Se ele não é o único culpado, porém, é sem dúvida o principal estimulador desta onda de baixarias que, apenas por acaso, ainda não causou vítimas pessoais graves. A “seita” defende a liberdade de acesso às armas, fazendo lobby no Congresso pela mudança das leis de desarmamento. Se hoje os “olavetes” se limitam a xingar e assediar nas redes e nas ruas, caso tenham armas poderão ir muito mais longe. Há malucos sendo influenciados por esta propaganda intensiva, e é fácil prever que algum deles, a qualquer momento, pode passar das palavras à ação.

Tenhamos presente o exemplo do jovem norueguês Anders Behring Breivik que, em 22 de junho de 2011, invadiu um acampamento da Liga dos Jovens Trabalhistas numa ilha do seu país, e matou 68 rapazes e moças. Uma explosão que provocu simultaneamente em Oslo, para distrair a polícia, matou outras oito pessoas. Preso sem resistir, ele se declarou de direita, antiglobalista e ouvinte fiel de um blogueiro muito semelhante a Olavo, o “Fjordman” (homem do fiorde), que pregava o nacionalismo e o anti-islamismo radicais.

Breivik é filiado a um partido de extrema-direita e, o mais assustador é que depois do seu mega-atentado terrorista, o mesmo perdeu alguns votos nas eleições seguintes, mas mesmo assim obteve mais de 16%...


* Antonio Barbosa Filho é jornalista, vive entre São Paulo e Delft (Holanda) e é autor de “A Bolívia de Evo Morales” e “A Imprensa x Lula – golpe ou ‘sangramento’?”.Acaba de lançar “O Brasil na ‘era dos imbecis’- o discurso de ódio da Direita”, pelo Clube de Autores.


O Brasil perdeu o grau de investimento. O que isso significa?





Joaquim Levy e Nelson Barbosa


Na noite de ontem, quarta-feira 9, a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota atribuída ao Brasil, retirando o chamado grau de investimento. A avaliação negativa pode trazer prejuízos ao País e também ao governo Dilma Rousseff, que tratava a manutenção do chamado rating como uma prioridade. Leia as perguntas e respostas, entenda a decisão e suas possíveis repercussões.

O que é o grau de investimento?

O grau de investimento é o selo de bom pagador atribuído pelas agências de risco a empresas e países. Ele indica a investidores de todo o mundo o grau de segurança que terão ao aplicar seu dinheiro. Quanto maior a qualidade de um título de dívida, maior a chance de o compromisso firmado na compra ser honrado.
Desde quando o Brasil tinha esse selo de bom pagador?

Desde abril de 2008, quando a própria Standard & Poor's colocou o Brasil entre os países com grau de investimento. Em maio de 2008, foi a vez da Fitch dar ao País o grau de investimento. Em setembro de 2009, veio o selo de bom pagador da Moody's.

Por que o grau de investimento é importante?

Por que a avaliação positiva ajuda o País e suas empresas a conseguirem empréstimos no exterior com melhores condições de pagamento e juros menores.

Por que a Standard & Poor's rebaixou a nota do Brasil?

O grande motivador da decisão da agência foi a proposta orçamentária enviada pelo governo ao Congresso prevendo um déficit primário de 30,5 bilhões de reais em lugar do superávit de 0,7% estimado anteriormente. Segundo a agência, isso significou "uma convicção menor dentro do gabinete da presidente sobre a política fiscal". O déficit reforçou a preocupação da agência com o País, manifestada em 28 de julho, quando a S&P revisou a perspectiva de nota brasileira para negativa (ainda mantendo o grau de investimento).

A Fitch e a Moody's também vão rebaixar a nota do Brasil?

Na Fitch, o Brasil está a dois degraus da nota mínima para ser considerado bom pagador. Em julho, a agência colocou a nota brasileira em perspectiva negativa e indicou que ela deve ser revisada, sem explicitar se o País pode ou não perder o grau de investimento. A Moody's afirmou, segundo a Folha de S.Paulo, que só deve revisar a nota brasileira se ocorrer algum "evento brusco" na direção da política econômica, o que estaria descartado na visão da empresa.

Por que essas agências continuam relevantes depois da crise de 2007?

As agências de risco foram duramente criticadas após a crise dos títulos subprime que estourou nos Estados Unidos e na Europa em 2008. A Standard & Poor's, por exemplo, foi acusada pelo governo norte-americano de inflar falsamente a nota de crédito de alguns instrumentos financeiros entre março e outubro de 2007, provocando perdas de 5 bilhões de dólares a investidores institucionais.

Segundo investigadores federais, S&P mentiu deliberadamente para aumentar seus lucros e agradar os emissores de títulos em detrimento dos investidores. Em fevereiro de 2015, a S&P aceitou pagar 1,5 bilhão de dólares ao governo dos EUA e a 19 estados norte-americanos para encerrar as inúmeras ações judiciais abertas contra ela.
Ainda assim, as agências de classificação seguem importantes, pois são parte fundamental do sistema financeiro internacional e não têm substitutas. No início de 2015, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul anunciaram a ideia de criar uma agência de classificação dos BRICS, mas a ideia ainda não saiu do papel.

Qual foi a reação da equipe econômica à decisão?

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, convocou entrevista coletiva no Palácio do Planalto para transmitir mensagem de "tranquilidade e segurança". Segundo ele, trata-se de "apenas uma avaliação de uma agência de risco, que é importante". De acordo com Barbosa, o governo trabalha "para manter sempre a melhor avaliação por parte do mercado e de todos os agentes da economia" e tem "todos os instrumentos" para resolver a situação fiscal.

Barbosa, entretanto, lembrou que isso depende de medidas legislativas e de um esforço conjunto da sociedade. O mesmo recado foi dado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Em nota, Levy disse que o esforço fiscal é essencial para equilibrar a economia em um ambiente global de incertezas e reafirmou o plano de garantir a meta de superávit primário de 0,7% do PIB em 2016. Segundo ele, isso será feito por meio do envio de propostas na área de gastos e receitas discutidas com o Congresso.

De que forma a notícia afeta o governo Dilma?

A notícia é ruim para Dilma Rousseff porque afeta um dos poucos setores que ainda a apoiam de maneira firme, o financeiro. Com a taxa de juros nas alturas, o lucro dos bancos quebrando marcas históricas e Levy (ex-Bradesco) na Fazenda, este setor tem se mostrado refratário à busca pelo impeachment comandada pela oposição.

O apoio pode ser reduzido caso este grupo entenda, como a S&P, que o governo perdeu o ímpeto pelo corte de gastos. Para o setor financeiro, credor do governo, é importante que os cortes ocorram, uma vez que permitirão ao Brasil acumular dinheiro para pagar a dívida com seus credores.




35 ANOS DEPOIS, O BRASIL VAI SABER QUEM MATOU D. LYDA









Os saudosos da ditadura vão ter amanhã, afinal, uma oportunidade de verem o grau de loucura e a brutalidade que marcaram, até quase o final, o regime autoritário neste país.

Fernando Mollica, em O Dia, hoje, anuncia que a Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, presidida pelo advogada Rosa Cardoso, vai apresentar os resultados do inquérito que apurou os responsáveis pela carta-bomba endereçada ao então presidente da OAB, Eduardo Seabra Fagundes que, ao ser aberta por sua secretária, Lyda Monteiro, explodiu, matando-a, em agosto de 1980.

É preciso que os que têm 20 anos agora, como tínhamos àquela época saibam o que foi aquilo.

Uma mulher pacata, trabalhadora, ter seu braço arrancado  e sangrado até à morte pela obra macabra de fanáticos que, então, explodiam bombas a torto e a direito, como forma de tentar evitar a democratização do país.

No mesmo dia, duas outras bombas foram remetidas pelos terroristas: uma contra a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, outra contra o jornal Tribuna da Causa Operária. Seis pessoas ficaram feridas e uma delas, José Ribamar  de Freitas, recorda Mollica, perdeu um braço e a visão de um dos olhos.

O hoje advogado e professor Luiz Felippe Monteiro Dias, que há três décadas luta pelo esclarecimento do caso diz que “tudo o que quero saber é quem fez e quem mandou” a bomba que matou sua mãe.

Durante dez anos Felippe, na Comissão de Direitos Humanos da OAB do Rio, tentou investigar de forma sistemática o caso, mas as buscas eram boicotadas sempre que apontavam para uma solução. O momento mais próximo, diz ele, foi a descoberta máquina de datilografia usada para endereçar a carta.

“Nessa época os militares retiraram o inquérito da polícia. Não me conformo com o fato do crime não ter sido apurado. Conseguimos levar o caso para a abertura política, mas ele acabou no arquivo. O crime é imprescritível e a punição é inevitável”, diz.

Menos de um ano depois, quando a explosão do Riocentro matou os dois militares que pretendiam detonar uma bomba num pavilhão lotado de jovens, terminava a era das bombas no Brasil.

Lembrar do que se passou, por mais que seja chocante e desagradável reviver uma cena assim  é essencial para que não se ouça nunca  mais o som macabro das explosões da intolerância.




Câmara aprova doações de empresas para campanhas - Fica fácil saber onde estão os verdadeiros bandidos.









A Câmara dos Deputados aprovou na noite desta quarta-feira, 9, o texto-base do projeto de Lei 5735, que trata da reforma da minirreforma política. O texto aprovado, de relatoria do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), restabelece a doação de empresas a partidos, que havia sido proibida pelos senadores. Os deputados parlamentares ainda votam destaques que podem alterar o teor da proposta.
Na lista de mudanças propostas, o relator sugeriu ainda que se rejeitem itens como: proibição do uso de cabos eleitorais, proibição do uso de carros de som, revogação do prazo de domicílio eleitoral mantendo a previsão vigente de um ano antes do pleito, previsão da janela para mudanças de filiação partidária sem perda de mandato, limitações à realização de pesquisas eleitorais e previsões da instituição de federações partidárias.




Primo-tesoureiro de Aécio tinha o dom da ubiquidade? Assessor na Câmara e no Judiciário ao mesmo tempo?





Aécio... daquele jeito...



A Rede Brasil Atual, em publicação da implacável Helena Sthephanowitz, levanta a estranha situação de que, no controle das finanças da campanha de Aécio Neves existiam, em tese, dois chefes.

Um, identificado para a imprensa, José Gregori, ex-ministro de FHC e um jurista de nome.

Outro, o registrado no TSE, Frederico Pacheco de Medeiros, primo de Aécio. Mais um primo, aliás.

Ocorre que o o Sr. Frederico (que aparece na foto menor) era, ao mesmo tempo, Diretor de Gestão Empresarial da Cemig, que tinha, entre outras funções definidas pelo Estatuto Social da companhia “administrar o processo de contratação de obras e serviços e de aquisição e alienação de materiais e imóveis”. (http://www.cemig.com.br/pt-br/a_cemig/quem_somos/governanca/Documents/Estatuto%20Social29-04-10.pdf, página 11.)

Quer dizer, o senhor Frederico arrecadava para a campanha com uma mão e contratava na Cemig com outra?

Claro, certamente as duas mãos eram independentes e Frederico tinha o dom de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, na Cemig e no comitê tucano.




UNIDADE POPULAR PARA DERROTAR A DIREITA GOLPISTA









Numa entrevista publicada no último domingo (6), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou que é preciso restabelecer a harmonia política entre o governo, a Câmara dos Deputados e os partidos para superar a crise política.


A preocupação de Lula é correta. A crise é profunda; ela tem raízes na conturbada situação que o capitalismo enfrenta, sobretudo na Europa e nos EUA, e que afeta agora também os países emergentes. A China, que tem sido a locomotiva do desenvolvimento mundial nestes anos, dá sinais visíveis de contágio e procura soluções para equilibrar sua economia, que continua a crescer a taxas monumentais mesmo tendo apresentado recuos que se espalham por outras nações – o Brasil entre elas.

Há também razões internas que fermentam a crise. O principal fator é o golpismo e o escasso compromisso com a normalidade democrática da oposição neoliberal e da direita. 

Golpismo e autoritarismo conservadores e protofascistas que, nunca é demais repetir, têm sido os principais fatores de instabilidade política na República desde pelo menos o final do Estado Novo, em 1945.

O autoritarismo e falta de compromisso com a democracia da direita marcaram a campanha eleitoral de 2014 e se acentuaram desde a posse da presidenta Dilma Rousseff em seu segundo mandato.

As tentativas golpistas se multiplicaram ao longo do ano, movendo-se de gabinetes oposicionistas para as ruas, envolvendo velhas práticas políticas que frequentam o cenário brasileiro desde a segunda eleição de Getúlio Vargas para a Presidência da República, em 1950. Época em que os antepassados da atual oposição neoliberal queriam que Vargas não fosse candidato; se fosse candidato, que não fosse eleito; se eleito, que fosse impedido de tomar posse – como dizia na época o golpista Carlos Lacerda através do jornal Tribuna de Imprensa.

Não há novidade no golpismo da direita e dos conservadores. O que há de novo, mais de sete décadas depois de tanta crise política, é o fato de que, em 2015, os campos se definem com mais clareza. A direita e os conservadores aparecem divididos, havendo desde facções francamente golpistas até os setores “prudentes”, refratários a aventuras políticas e que preferem saídas institucionais, aguardando a eleição de 2018 para tentar retomar a Presidência da República. E que temem, sobretudo, uma nova vitória do campo popular e democrático.

Uma importante novidade da conjuntura é o avanço da unidade das forças democráticas, patrióticas e de esquerda, como ficou claro com o lançamento da Frente Brasil Popular ocorrida no sábado (5). Unidade popular para derrotar a direita e os conservadores que abarca as principais organizações do movimento social e os principais partidos da esquerda –  o PCdoB entre eles.

A Frente Brasil Popular dá novo protagonismo à luta popular e democrática.

Neste quadro, onde fica a harmonia referida por Lula? Ela se dará em torno de que programa, com que base e objetivo?

Estas são perguntas cujas respostas são fundamentais. Há um debate intenso em curso. Nos últimos dias sua feição tem sido a busca por novas fontes de recursos para enfrentar o rombo orçamentário previsto para 2016, estimado em R$ 30,5 bilhões. 

Como aquele orçamento poderá ser equilibrado? O PCdoB e outras forças do campo democrático e progressista defendem a taxação das grandes fortunas e o fim da escandalosa taxa de juros que onera a dívida pública e literalmente rouba recursos de áreas sociais como saúde, educação, moradia, segurança pública, e os destina a satisfazer a gananciosa especulação financeira que favorece uma minoria de ricaços.

Este debate exige respostas claras e firmes dos setores mais consequentes. Elas sairão da mais ampla unidade das forças democráticas, populares e patrióticas – entre os movimentos sociais, os partidos ligados ao povo, a representação parlamentar progressista e avançada – para apoiar a legalidade e o governo Dilma e criar as condições para o avanço nas mudanças e a derrota da direita conservadora e neoliberal. 



Manifestações em 03 de outubro vão fortalecer Frente Brasil Popular







Para consolidar a unidade das forças políticas e sociais que deram o pontapé inicial à Frente Brasil Popular (FBP), foi marcado para 3 de outubro a realização do Dia Nacional de Mobilização. Nesta data os movimentos sociais vão fazer manifestações em todo o país em defesa da soberania nacional e da Petrobras. 

O vice-presidente nacional da CTB, Nivaldo Santana, explicou que o motivo da data é o aniversário da Petrobras, que em 2015 completará 52 anos. O sindicalista alerta para os interesses internacionais em explorar os recursos naturais brasileiros. “[A empresa] está sob fogo cerrado porque querem levar os rendimentos do pré-sal”. 


O lançamento da Frente Brasil Popular ocorreu no último sábado (5) na capital mineira com a presença de 2 mil representantes dos movimentos sociais, sindical e de partidos políticos. No encerramento do evento, foi divulgado o Manifesto ao Povo Brasileiro com os pontos principais que norteiam a união das forças progressistas. 

Para Nivaldo, a Frente nasce do resultado de grande esforço de diversas entidades e movimentos sociais de articular, junto a lideranças políticas, um mecanismo capaz de defender a democracia e a retomada do crescimento econômico do país. 

O secretário de Políticas Sociais da CTB, Rogério Nunes, explica que cabe ao movimento sindical trabalhar para unir a classe trabalhadora a fim de fortalecer a Frente. “Nenhum direito a menos continua sendo nosso lema. Queremos a taxação das grandes fortunas e um novo imposto que traga mais dinheiro para a saúde”, afirma. O dirigente explica ainda que os trabalhadores têm críticas à política econômica do governo federal, mas defendem, sobretudo, a ordem constitucional. 



GLOBO A CAMINHO DO BURACO, NÃO CONSEGUE PASSAR DOS 24 PONTOS NO IBOPE.









RESUMO: Em um dia atípico, a maior audiência da Globo nesta terça (8) foi o amistoso da Seleção Brasileira contra os EUA. O jogo rendeu 24,1 pontos no Ibope de SP. A partida, às 21h30, desestruturou a grade da Globo, e as novelas e os jornais da noite começaram mais cedo e foram mais curtos. A Record foi bem com Os Dez Mandamentos e com Fala Brasil (venceu o Mais Você) e Balanço Geral (derrotou Vídeo Show).



O ENIGMA CHAMADO LULA









Por Emir Sader



Lula é um enigma, que não é fácil de ser decifrado. Os que não conseguem fazê-lo, são devorados por ele. Foi o que aconteceu com a direita e com a ultra esquerda brasileiras.

Mais além das sua extraordinária biografia – com que nos acostumamos, mas que associa um caráter épico de sobrevivência das famílias pobres do Brasil, com a combatividade do Lula para se projetar como líder politico incomparável -, ele soube, como ninguém, intuitivamente, decifrar as condições contraditórias que ele herdava da era neoliberal e construir um modelo econômico e político que tornou possível a maior transformação social do pais que era o mais desigual, do continente mais desigual.
Mas que enigma é esse? É o da capacidade de construir alternativa ao neoliberalismo em tempos de absoluta hegemonia neoliberal, em escala mundial, regional e local. Lula soube traduzir a posição histórica do PT – a prioridade do social -, em políticas concretas, para o que teve que construir o esquema político que viabilizasse um governo com essa prioridade, em condições em que não tinha maioria no Congresso e a esquerda não era maioria no país. Soube construir uma aliança com setores do empresariado, para possibilitar a superação da longa e profunda recessão herdada do governo de FHC.
Lula soube localizar, antes de tudo, as dificuldades deixadas pelo neoliberalismo. Não apenas a recessão econômica, a desarticulação do Estado, a abertura da economia, a desindustrialização, o peso do agronegócio, a precarização das relações de trabalho, uma política externa de subordinação absoluta aos EUA. Mas também que haveriam de ser mantidos, como o controle da inflação.
Por isso Lula combinou um ajuste das contas publicas com a promoção das políticas sociais como a centralidade da ação do seu governo. Os que só olharam para o primeiro aspecto, ficaram na denúncia da “traição” de Lula – a ultra esquerda – ou de seu fracasso – a direita.
Lula articulou um ajuste com a promoção das politicas sociais – de combate à fome na sua primeira fase. Quando a direita e a ultra esquerda se uniram numa campanha de denuncias na mídia com acusações no Congresso, acreditavam que tinham derrotado o Lula – não se atreveram a tentar o impeachment com medo da reação popular -, mas tentaram sangrar seu governo até derrota-lo nas eleições de 2006 – os efeitos das políticas sociais começavam a se fazer sentir. Lula os derrotou e conseguiu sua reeleição, apoiado na prioridade das políticas sociais.
Combinando a centralidade das politicas sociais, o papel ativo do Estado como indutor do crescimento econômico e a prioridade dos processos de integracão regional e dos intercâmbios Sul-Sul, Lula conseguiu reverter o essencial da herança maldita que ele tinha recebido de 10 anos de neoliberalismo no Brasil: superar a recessão economica e articular o crescimento economico com a distribuição de renda.
Essa é a chave do enigma Lula – a construção de alternativas de saída do modelo neoliberal, mesmo com a herança recebida, mesmo em um marco internacional com hegemonia neoliberal. Lula agiu pela ação nos elos de menos resistência da hegemonia neoliberal. Por isso a direita foi derrotada sucessivamente em quatro eleições, por isso a ultra esquerda fracassou sem construir uma alternativa própria, a opção contra os governos iniciados por Lula seguem – no Brasil, como nos outros países com governos progressistas – na direita.  
Por isso também Lula mencionou recentemente sua disposição de lutar por um novo mandato presidencial em 2018. Mas desta vez não bastará a menção dos inquestionáveis sucessos das políticas dos governos desde 2003, será necessário propor um novo programa ao país, com o Brasil que queremos, em todos os planos, e construir as alianças políticas, sociais e econômicas que viabilizem esse novo projeto.