quarta-feira, 28 de março de 2012

Militares da Reserva Comemoram Assassinatos de Brasileiros








Alguns torturadores já moram em casas sem calçadas.


Em Campinas, no interior de São Paulo, trabalhadores que ocupam uma fábrica, fundada durante o regime militar (década de 1970), organizam o ato “Médici nunca mais!”, na quinta-feira (29), às 18 h. A manifestação é um protesto contra a "festa" promovida pelo Círculo Militar de Campinas, com o lançamento do livro “Médici – a verdadeira história”, que terá a presença do filho do ex-presidente ditador Emílio Garrastazu Médici. Outro grupo com envolvimento no evento militar é o Grupo Inconfidentes, de militares da reserva saudosistas dos anos de chumbo.


“Mais do que o lançamento de um livro, trata-se de um ato político organizado por militares com o fim de vangloriar a memória de um período autoritário marcado por torturas, mortes, censura e desaparecimentos políticos. Consideramos que o Brasil superou a ditadura de maneira oficiosa. Publicamos a Lei da Anistia, que foi importante. Mas, infelizmente, muitas práticas surgidas na ditadura ainda permanecem como a tortura, a repressão aos movimentos sociais, e muitos representantes daquela época permanecerem nos setores das forças de segurança, forças armas e setores políticos”, destacou Filipe Jordão Monteiro, 25 anos, do Conselho de Fábrica da Flasko, na cidade de Sumaré, e militante do movimento Juntos, de Campinas.

Durante o ato, que deve reunir nomes ligados aos direitos humanos da região, diversos manifestantes se pronunciarão, além de panfletagem e de faixas de protesto. Filipe enfatizou que o objetivo é criar um fato político e estimular o debate na sociedade.

“Queremos criar um fato e estimular o debate na região. Mas, infelizmente, por incrível que pareça, não é um tema que mobiliza tanto como algo mais palpável, como uma reivindicação  salarial, por exemplo. Mas, chegou o momento da sociedade pressionar pela abertura dos arquivos da ditadura para conhecer a verdadeira história e os nomes dos responsáveis por um período tão difícil para o país”, completou o militante, que atua na mobilização de uma fábrica ocupada por cerca de 70 trabalhadores, na cidade de Sumaré.

Segundo Filipe, o antigo proprietário da Flasko fugiu há nove anos quando percebeu que estava falido, deixando os trabalhadores a própria sorte. Após uma série de mobilizações, os funcionários se uniram e reergueram a produção industrial de embalagens plásticas. Atualmente, apesar de ainda acumular dívidas, a comercialização do material cobre as despesas com fornecedores e paga os salários.

Há cerca de dois anos, a figura de Médici também mobilizou estudantes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) da cidade. Uma praça construída no interior da Instituição de Ensino Superior (IES) levava o nome do ex-presidente militar como uma homenagem ao terreno doado pela ditadura à instituição. Depois de muita mobilização, os universitários rebatizaram a praça com o nome de Frei Tito de Alencar Lima.

“A renomeação da praça não foi oficializada pela PUC, foi simbólica. Mas, a universidade pelo menos retirou o nome do Médici da praça”, lembrou Filipe, que se formou em Direito no ano passado. 

Jovens organizados pelo movimento Levante Popular da Juventude promoveram protestos na segunda-feira (em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, Rio de Janeiro, Belém, Curitiba, Sergipe e Marabá, nesta segunda-feira (26/3) contra agentes da ditadura militar que torturaram, mataram, perseguiram militantes e pela instalação da Comissão da Verdade. Os jovens fizeram uma ação, já bastante utilizada em países como Argentina e Chile, chamada de “escracho”, quando são realizados protestos para denunciar a participação de agentes dos regimes autoritários em perseguições, torturas e assassinatos. No Brasil, os jovens apelidaram a ação de esculacho.

Outras ações que não foram de escracho, como colagem de cartazes, foram realizadas em São Carlos, Rio de Janeiro, Salvador , Curitiba e Lages (santa Catarina).

O movimento defende a Comissão da Verdade, criada para esclarecer situações de violação aos direitos humanos, ocorridas entre 1946 e 1988, como tortura, morte e ocultação de cadáveres. O órgão deve identificar os responsáveis pelas violações. Os jovens manifestantes apoiam a presidente Dilma Rousseff na indicação dos sete conselheiros que coordenarão os trabalhos.