quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Abre Essa Porta, Porra !!!...

Muitas pessoas esperam durante toda a vida uma ocasião
para serem boas à sua maneira. Nietzsche.
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Dedico este texto a Renatinha Soares, que sofreu um assalto a mão armada na semana passada, no qual, além de alguns bens materiais, levaram também metade da sua alma.
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Sair de casa às seis horas da manhã para uma caminhada nas areias da praia de Boa Viagem, era o primeiro passo de um dia sempre muito cheio de trabalhos, que incluía ainda as compras para o abastecimento do meu barzinho cubano El Bodegón, encontrar as melhores soluções para os problemas que ele me trazia todos os dias e, enfim, o que era mais gostoso: tomar conta dele à noite, receber os clientes e me “amostrar” um pouco, contando minhas viagens a Cuba ou preparando, eu mesmo, os mojitos que aprendi no balcão do La Bodeguita del Médio em Havana.
Essa caminhada foi incorporada ao meu dia a dia desde os idos em que convivi com a Síndrome do Pânico.
Era o momento em que ficava comigo mesmo... Questionava sobre vida futura. Futura mesmo, além da morte... Falava com alguém que julgava estar me observando e ouvindo lá do alto, expunha a ele os meus planos de um novo bar que se chamaria “Bolero” e que acabou ficando com o nome de El Paso Cabaré, e lembrava-lhe minhas traquinagens da noite anterior, sempre em tom de brincadeira, para que não me punisse com rigor.
Quando cansava, parava para realizar algumas posturas iogues aprendidas com mestres em Brasília e Belo Horizonte e me imaginar sendo observado por mim mesmo, que se afastava velozmente da Terra para muito além do sistema solar, da nossa galáxia, e de lá, ver-me, infinitamente pequenino, sentado ali, naquela praia, como se fora hóspede de um ser muito maior, como um dos milhões de seres microscópicos que trazemos dentro de nós e que, no final das contas, somos nós mesmos.
Chegava sempre muito cansado para essa caminhada por conta das poucas horas de sono, que só seriam recuperadas após o almoço.
Antes de chegar à praia, passava primeiro no El Bodegón para apanhar o restante do movimento de caixa das últimas horas da madrugada. Já ia vestido com a roupa própria para a caminhada: short de banho, camiseta e sandálias.
Um sábado, após ficar parado por alguns instantes no segundo jardim de Boa Viagem esperando uma brecha entre um carro e outro para que pudesse atravessar a avenida, estacionei embaixo de umas árvores do lado da praia, como fazia quase todos os dias àquela hora.
A carteira, com o dinheiro do bar, coloquei sob o tapete no chão do carro e, sobre ele, minhas sandálias, para despistar algum ladrão safado que por acaso aparecesse na minha ausência.
Não acreditava que alguém me escolhesse como alvo para um assalto. Seria mais fácil encarar alguém de menor porte ou aproveitar a minha ausência.
Estava com o dedo no botão acionando os vidros das portas dianteiras, quando fui atingido brutalmente na cabeça, dois dedos acima da orelha esquerda, pelo cano de uma pistola nove milímetros que era firmemente segura por uma mão que me pareceu a de um gigante.
O grito assustador veio logo em seguida para me deixar mais atordoado ainda:
- “Abre essa porta, porra!!!...”
A mão continuou do lado de dentro da janela do carro, quase espremida pelo vidro, apontando o cano da armar para o meio dos meus olhos.
Lembro bem dos meus gritos, mais altos que o dele, sempre com a mesma frase:
- Não atire! Não atire! Não atire!
Precisava sobreviver àqueles segundos e ver o que faria em seguida.
Essa sensação da morte iminente, à qual tive o desprazer de viver algumas vezes mais, todas em assaltos à mão armada, é indescritível.
O olhar esbugalhado, fixo no buraco por onde sai a bala da arma apontada e quase colada ao meu rosto, passava informações para o meu cérebro que, só encontrava uma saída: permanecer vivo alguns segundos mais, e depois negociar mais alguns...
Completamente descontrolado, trêmulo, ofegante, tentava cumprir aquela primeira ordem de abrir a porta do carro. Demorei alguns segundos para consegui-lo.
Enquanto tentava faze-lo, lembrava-me de manter ambas as mãos visíveis para o assaltante.
Enfim, consegui.
Saí do carro sem olhar o seu rosto e falei com voz trêmula:
- Pode levar, a chave está na ignição!
E me preparei para afastar-me dali o mais rapidamente possível, quando fui seguro por um braço muito forte que me puxou de volta para a porta aberta do carro e me jogou como um brinquedo sobre o banco:
- Passe pra trás!... Passe pra trás!...
Com quase cem quilos, saltei como uma pluma por sobre os bancos dianteiros do Tempra e caí no traseiro, onde era aguardado pelo revolver trinta e oito cromado e de cano longo de um negrão imenso que até então eu não notara, e que já estava bem sentado à minha espera.
- Fique “quetinho” aí!... Falou, mantendo a arma na altura da cintura para que a ação não fosse notada pelas pessoas que passavam.
Imediatamente o carro arrancou em disparada, cantando pneus, dirigido por um terceiro bandido, enquanto o que me rendera estava sentado no banco do carona.
Haviam se passado apenas uns trinta segundos desde o início do assalto. O fato de estar sendo levado por eles, significava para mim a certeza de que não seria executado, pelo menos imediatamente. Teria mais algum tempo para barganhar minha vida.
Enquanto presenciava o motorista entregar ao seu visinho uma pequena sub-metralhadora Uzi nove milímetros, fui falando para o negrão ao meu lado:
- Nessa disparada, se cruzarmos com algum carro da polícia eles vão pensar que são bandidos e podem atirar!
– Nós só andamos assim! Respondeu o crioulo, levantando a camisa e mostrando-me o colete a prova de balas.
Precisava me controlar... Talvez se eu despertasse neles um sentimento de pena por mim... Talvez isso fosse possível se eu me mostrasse frágil, doente... Então fui falando:
- Eu sou doente do coração, preciso tomar um remédio três vezes ao dia. E também sou pai de família!...
Nisso, o negrão ao meu lado retrucou imediatamente, com um leve sorriso:
- Por isso, não! Aqui todo mundo também é pai de família!.
Aquela frase, confesso, pegou-me de surpresa. Nunca havia pensado em bandido como pai de família. Alguém capaz de se meter em situações assim como meio de vida, de sustento para sua mulher e filhos... Regularmente, quero dizer...
Tentei pensar em outra coisa. Ainda estava vivo e era preciso não perder tempo.
O carro seguia em disparada pela avenida Boa Viagem em direção ao Pina.
Talvez o meu carro tivesse dado a eles a impressão que eu tinha mais dinheiro que o dono de um simples barzinho. Era um Tempra do ano anterior, vermelho metálico, quatro portas, com todos os opcionais, que eu adorava, como uma criança que adora sua bicicleta nova.
- Eu sou apenas dono de um barzinho nas Graças! Antes eu era gerente administrativo de um banco federal que Collor fechou...
– Aquele filho da puta!!! Falaram os três ao mesmo tempo.
Nisso, o que estava ao meu lado, guardou o revolver na cintura.
Nossa! Que alívio... Parecia que começávamos a nos entender.
Agora eu já levantava a vista e olhava em seus rostos.
O líder do bando, que estava no banco do carona, voltou-se para mim e perguntou, olhando nos meus olhos:
- Esse carro tem alarme?
- Não. Tem não... Respondi
Ele voltou-se mais uma vez para mim e perguntou com a mesma calma e firmeza:
- Esse carro tem alarme?
E eu: - Não. Tem não! Mas, ele está com um defeito no marcador de combustível. Acabei de encher o tanque, mas, daqui a pouco ele começará a marcar que está com pouco combustível, até o motor parar, como se a gasolina tivesse acabado mesmo. É um defeito eletrônico. O único jeito é completar o tanque antes do marcador mostrar vazio.
- Ajude a gente, que a gente ajuda você. Alertou o chefe.
Nisso, senti-me agradecido. Achei que aquelas palavras eram uma prova de que não me matariam, e fui logo retribuindo:
- Minha carteira está embaixo do tapete em frente ao banco do motorista. Tem dinheiro nela. Todo o movimento do meu bar ontem, sexta-feira, está nela. Pode pegar...
O líder voltou-se mais uma vez para mim, e perguntou:
- Está aonde o dinheiro?
- Na minha carteira, embaixo do tapete do motorista. Respondi.
Sem tirar os olhos de mim, ele foi com sua mão direita tateando até encontrar minha carteira e me devolver enquanto dizia:
- Não queremos nada de você. Apenas seu carro para um serviço. Assim que terminarmos vamos devolver ele pra você. Vamos deixar quinhentos reais também pra você aqui dentro da capa do extintor de incêndio.
Pensei em dizer-lhe para comprar um presente para sua mãe, já que no dia seguinte seria “Dia das Mães” , mas, tive medo de ser mau interpretado e preferi falar:
- Não precisa não! Compre alguma coisa para alguém que precise...
Nesse instante já estávamos passando embaixo do viaduto Joana Bezerra, e o motorista tomou o caminho da avenida Sul, passando pelo quartel que fica entre o Cabanga e aquela avenida.
No sinal da Avenida Sul, o bandido que dirigia meu carro, parou atrás de outros aguardando o sinal abrir, e então levou um esporro do líder:
- Tá feito menino? Vai ficar parado aqui pra todo mundo ver a cara da gente?
O motorista deu uma marcha ré e arrancou cantando pneus pela avenida em direção ao centro da cidade.
- Vocês vão se meter em engarrafamento indo por aqui. Falei, demonstrando boa vontade.
Mas, o roteiro escolhido préviamente por eles, nos levava direto para a Rua Imperial. Não foi preciso, em momento algum, o chefe orientar o motorista quanto ao percurso.
Quando chegamos na esquina dessa rua, mandou parar o carro, apanhou minhas sandálias que estavam sob os pés do motorista e me entregou-as, falando:
- Pronto! Aqui você desce...
Putz! Como fiquei agradecido...
- Felicidades pra vocês. Eu não vou nem prestar queixa.
- Tem que prestar sim! Se não você não vai encontrar seu carro! Precisamos de cinqüenta minutos... Depois disso você pode prestar queixa... Falou o Chefe.
Com minha carteira e minhas sandálias nas mãos, fiquei ali, em pé, parado, às seis e meia da manhã, sem acreditar que estava vivo.
Liguei para um colega do banco que estava com outro carro meu, para que viesse me apanhar, e fomos para o local do assalto, na beira mar.
Lá, ficamos sabendo que o flanelinha, um senhor já de idade, havia sido agredido com uma coronhada e que, duas moças que faziam suas caminhadas, desmaiaram ao ver a ação dos bandidos.
Ao chegar na Polícia Civil, dei de cara com um cartaz com uma dezena de fotos de bandidos sob o título: Procurados – Assaltantes de Bancos.
Lá estavam o líder – Jorge Grampão – o negrão que ficara ao meu lado – João Madeira – e o motorista era Claudionor - todos ex-PMs, expulsos da corporação.
Naquela madrugada, por volta das duas e meia fui acordado por um telefonema da Polícia Militar avisando que o meu carro fora encontrado na Praça da Bandeira, em frente à Ilha do Retiro.
Chegando lá, encontrei, além da guarnição da PM, o vigia do prédio em frente ao local onde estava o carro, que veio logo me dizendo:
- O dono dessa banca de revistas me pediu para tomar conta desse carro que três rapazes deixaram com ele às nove horas da manhã dizendo que voltariam, e até as dezoito horas – hora dele fechar a banca – ainda não haviam aparecido.
Embora dentro do carro tivesse máquina fotográfica e alguns outros poucos pertences de algum valor, todos estavam lá, nada havia sido roubado.
Prestei queixa do roubo do carro, mas, no documento não identifiquei os bandidos. Apenas apontei pro Delegado quem eram eles no cartaz.
Já era o início de um processo que durou alguns meses, onde fiquei extremamente agradecido a eles por não haverem tirado minha vida.
Nas minhas preces – naquele tempo eu ainda as fazia – pedia sempre para que fossem protegidos em seus assaltos... Para que não houvesse necessidade de ferir alguém e que também não fossem feridos.
Passei um mês sem poder contar essa história sem chorar, e um ano tendo sobressaltos com qualquer movimento brusco à minha volta.
Dois anos depois, ao ter outro Tempra tomado de assalto por dois inexperientes moleques, fiquei sabendo pela Polícia Militar que João Madeira havia sido morto por PMs no ano anterior.
Jorge Grampão, que havia desaparecido daqui de Pernambuco, foi preso em Minas Gerais em 2002 e encontra-se preso na Penitenciária de Igaraçu por diversos assaltos a bancos em todo o país.
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sexta-feira, 18 de agosto de 2006

S o l i d ã o...

"Cada um de nós está só, como o fogo ou a flor."
Krishnamurti.
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Podemos amar ou odiar, fugir da solidão de acordo com o nosso temperamento e nossas tendências psicológicas, mas, a solidão estará lá, esperando, vigiando, recuando estrategicamente, apenas para atacar de novo.
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Acredito que somos os responsáveis pela inveja, ciúme ou saudade que alguém sente de nós.

Acredito mesmo, que somos os culpados por provocarmos tais disposições afetivas nos outros.

Excluindo daí os casos extremos provocados por distúrbios psicológicos, tal raciocínio me leva a admitir que a vaidade, o exibicionismo ou até as demonstrações de afeto, mesmo não exageradas, provocam esses sentimentos em ralação a nós, levando-nos, depois, a criticar as vítimas, como se culpadas fossem.

Aceitando tal premissa como verdadeira, estaria propenso também, a reconhecer que o sentimentalismo, mais acentuado nos latinos, seria o responsável por grande parte das mazelas nos relacionamentos humanos desde sempre, acirradas ainda mais a partir da disseminação do cristianismo por todo o ocidente.

Não creio, entretanto, que os outros povos, as outras religiões, estejam então livres dessas chagas ou dessa responsabilidade.

Não creio, porque, o cristianismo primitivo, foi moldado há dois mil anos atrás (permita-me Raul Seixas o plágio), tomando como referência as religiões já existentes, como a judaica tradicional de saduceus e fariseus, a doutrina dos essênios, e outras mais ao oriente, copiando delas o caráter apocalíptico, o iminente fim do mundo, a chegada do messias salvador e a ressurreição dos corpos. Ou seja: nada de novo para a época.

Bastou que se adaptasse o virtuosismo de Jesus – judeu que viveu na mais remota periferia do Império Romano e cuja epopéia humana foi totalmente ignorada pelos historiadores judeus e romanos da época - às estórias dos santos das religiões já existentes, e tivemos uma “nova”, que adotou como livro sagrado os escritos antigos da religião judaica, anteriores a Jesus – velho testamento - e os quatro evangelhos aceitos, escritos entre sessenta e noventa anos após a morte de Jesus, e garimpados entre mais de uma centena de outros que foram destruídos para garantir mais credibilidade àqueles quatro, que não faziam sequer referência à infância e adolescência de Jesus como os outros – novo testamento.

A presunção de todas essas religiões na existência de uma outra vida, repleta de supostos seres super-carentes, que necessitam ser adorados, lembrados e agraciados, para que não se exaltem e reajam contra os relapsos das formas mais violentas, ultrajantes e mesquinhas imagináveis, faz com que toda essa legião de adeptos caia de joelhos e de mãos postas, a agradecer-lhes por estarem vivos, por terem saúde, pela comida daquele dia, pelo carro novo na garagem, pela viagem de férias e tudo o mais, não importando se o visinho ao lado ou a criança africana mais pobre não tenham nada disso; não tenham sequer o mínimo necessário para permanecerem vivos, mesmo que de uma forma indigna.

Azar o deles, então, que não pediram de joelhos e por isso não foram atendidos. Ou, se pediram e não receberam, certamente é porque tinham dívidas imensas com os “céus”, acumuladas ao longo de muitas vidas, como sugerem algumas outras religiões.

Mas, pergunto eu: se fôssemos realmente todos filhos de um único onipotente e onipresente ser, como teria surgido a primeira falha em uma de suas criaturas? Temos que admitir que houve então, erro no projeto original, desencadeando, a partir desse primeiro defeito, uma seqüência interminável de outros, sejam por vingança ou simplesmente para que aquele anterior padeça pelos “erros de funcionamento” - carma - o que leva por terra a onipotência.

Aquele primeiro “erro” desencadeou uma cada vez mais crescente onda de crimes absurdos, numa freqüência tão alarmante que, temos que admitir, quem criou tudo isso e por isso deveria ser o responsável, não está nem aí!

Além dessa possibilidade só nos resta a outra, a de que não tem ninguém tomando conta de ninguém, olhando, punindo ou gratificando ninguém.

Estamos sós...

A mesquinhez e ganância da espécie humana no trato com a natureza, o desdém para com as outras espécies “incapazes de pensar” e a ganância dos que enriqueceram e continuam a juntar, independente do que ocorre ao lado, seja a nível pessoal ou nacional, deveria ser bastante para que todos, independente da nacionalidade ou religião, percebessem que tudo isso em que acreditamos desde nossos primeiros anos de vida, não passa de uma grande bobagem, de uma assustadora e perversa estória de Trancoso incutida em nossas mentes pelos nossos também crédulos pais.

No livro do Gênesis encontraremos ali a noção de que os seres humanos são especiais, de que Deus os criou à sua imagem e semelhança e deu a eles o domínio sobre os outros animais, levando-nos, quase todos, a acreditar que todo ser humano é uma criatura de Deus, que tem um valor intrínseco justamente por isso, e que, portanto, a vida humana, tem um teor sagrado.

Há muito, desde Darwin pelo menos, sabemos que isso é inteiramente falso.

Resta-nos nós mesmos, e, não sobreviveremos, sem todos os demais seres que compõem esta aldeia global, e aos quais impingimos os mais brutais sofrimentos, sejam nas formas de abate para nossa alimentação ou de como os criamos para tal; sejam nos experimentos para novos produtos farmacêuticos ou de embelezamento; ou ainda, nas mortes e maus tratos por pura diversão, como a farra do boi, as touradas ou a caça à raposa, entre centenas de outras.

No contexto da globalização, há duas grandes comunidades às quais pertencemos: todos nós somos membros da raça humana e todos fazemos parte da biosfera global.Somos moradores da “casa Terra” e devemos nos comportar como se comportam os outros moradores dessa casa – as plantas, os microorganismos que, embora "invisíveis" são a maioria, e os animais, constituindo a vasta rede de relações que Fritjof Capra* chama de “teia da vida".

Essa rede se desenvolveu e evoluiu ao longo de bilhões de anos sem se romper.

A capacidade marcante do nosso planeta é a sua aptidão intrínseca de sustentar a vida.

Temos a obrigação de nos comportar de maneira a não prejudicar essa capacidade. Esse é o sentido essencial da sustentabilidade ecológica.

Chega de escrúpulos que só nos têm levado a inquietações diante de questões que pareceriam mais simples como o aborto, a eutanásia, ou a suprema escolha de viver uma vida ética – parafraseando Peter Singer** - não fossem essas falsas crenças em Sankara, Buda, Cristo ou outro santo mais moderno, todos prometendo vidas futuras; imaginários e perversos seres invisíveis; recompensas e castigos a serem honrados numa próxima reencarnação; mistérios e segredos inexplicáveis, restando-nos apenas morrer se quisermos constatar todo esse engodo.

Como pode alguém amar esses inexistentes seres, que exigem de todos um amor incondicional e primeiro, através de seus “sabidos” representantes aqui na Terra, que têm inclusive o descaramento de tentar restringir e orientar nossas transas com os nossos amores e excluir homossexuais e afins dos seus rebanhos, enquanto eles próprios, na calada dos seminários, sacristias de igrejas e luxo do Vaticano, entregam-se a verdadeiras orgias, preferencialmente com garotinhos de doze anos?

A verdade é que temos preferido estar apegados a uma crença conhecida, por mais insustentável que seja, a aventurar-nos a uma busca que não se sabe aonde nos poderá levar.

Há bilhões de anos, o que havia eram apenas micróbios, e hoje existe, por exemplo, a civilização humana. É o caso de nos perguntarmos, portanto, qual é a relação entre a espécie humana e as outras formas vivas.

Lynn Margulis*** desenvolveu uma das teorias mais imaginativas e mais belas sobre como aqueles habitantes do microcosmos se “associavam” para criar novas formas que, por sua vez, conseguiram transformar o planeta naquele que havia de continuar a evolução que chega até nós. Nada parece ser exclusivo da espécie humana: seus poderes não são únicos, sua existência não é o ponto mais alto de coisa alguma.

Desistamos de toda essa baboseira que nos foi ensinada por nossos pais e que hoje adentra nossos lares através de redes imensas de TV, sob novos e criativos títulos, mas, todos, alicerçados na mesma milenar mentira.

Desistamos de tudo isso que sobrevive a milhares de anos e nos acorrenta a falsos conceitos.

Não sugiro uma troca por nada, por nenhum outro santo, nenhum outro criador...

Apenas renunciemos, pois, a renúncia com o propósito de alcançar um fim seria barganha; não haveria nela desistência, apenas troca.

Este texto deveria referir-se não a este tipo de solidão, que é gratificante, mas, àquela, provocada pela ausência de pessoas em volta, principalmente filhos, que são os mais amados entre os amados.
Outro dia escreverei sobre essa. Hoje, não consegui, não sei porque...
Foi como se caminhasse consciente, mas, de olhos vendados e, sob os meus pés, os caminhos, em tom de gozação e de provocação, fossem se movendo e levando-me a trilhas perigosas, lamacentas, escorregadias, curiosos em verem se eu pararia ou recuaria...
Não o fiz.
É típico de mim não capitular, e não têm sido poucas as vezes em que esbarro em sofrimento por agir assim. Mas, devo confessar... Essa liberdade de escolha me fascina, me move, me faz sentir vivo
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*Fritjof Capra – Físico e teórico de sistemas, é um dos diretores fundadores do Centro de Eco-Alfabetização de Berkeley – Califórnia, que promove a divulgação do pensamento ecológico e sistêmico nas redes de educação americanas.
**Peter Singer - Filósofo australiano contemporâneo, originário de família judia que sofreu os horrores do Holocausto, Singer alega defender simplesmente a idéia de que só se deve viver uma vida que valha a pena ser vivida.
***Lynn Margulis - Bióloga, eminente professora da Universidade de Massachusetts, Amherst, e membro da Academia Nacional de Ciências americana.
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"Que coisa estranha é a solidão, e quanto medo nos faz..."
Krishnamurti.
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sábado, 12 de agosto de 2006

Sobre Amigos e Cães...

Homenagem a Pandora dy Módena, minha Mastim.
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Dedico este  primeiro texto a Neném, minha irmã mais velha que, durante toda sua vida, no trato com os seus sete irmãos mais jovens, sempre se preocupou mais em dar que em receber. Pra você, meu amor especial de irmão e filho.



O Amigo Pupí.


Pupí foi meu primeiro cachorrinho.

Filho de uma Fox Terrier que criávamos, de nome Fuchi, foi escolhido por mim de uma ninhada de sete filhotes, cada um de uma cor e características próprias, denunciando assim, os múltiplos amores de sua mãe durante aquele último cio.

Com uma semana de nascidos, no dia em que a ninhada abria os olhinhos, Fuchi morria envenenada, ou melhor, vítima de um pedaço de carne recheado com vidro triturado, atirado ao quintal da nossa casa por alguém.

Lembro das tentativas de papai para salva-la e do meu desespero ao ver grande quantidade de sangue saindo de sua boca.

Nos meus seis anos, ganhar aquele cachorrinho bicolor, trouxe-me uma felicidade imensa, apesar da dor com a perda de Fuchi.

Uns meses depois, correndo pelo quintal com meus irmãos, comecei a ouvir os passos de Fuchi atrás de mim. O ruído das suas unhas no cimento do quintal e no mosaico da sala era inconfundível. Fiquei apavorado com a idéia do fantasma da minha cadela estar me seguindo. Ao mesmo tempo, alguma coisa me dizia que aquilo não seria possível, e fiquei com vergonha de falar pra mamãe o que estava acontecendo.

Deixei a brincadeira com os irmãos e saí correndo sozinho em outras direções e em velocidades variadas, para confirmar se aquilo que eu estava pensando era verdade mesmo.

Quando eu parava, o ruído parava... Quando eu acelerava, ele também acelerava, chegando a combinar suas passadas com as minhas. Meu Deus! Seria possível?!

Poderia ser alguma coisa fazendo barulho dentro de casa, então eu resolvi ir para a calçada da rua e, lá estava ela a me seguir. O ruído vinha exatamente de trás de mim, não havia dúvidas.

Apavorado, resolvi sentar-me no chão, apesar do medo de que ela pudesse encostar-se a mim, como fazia quando estava viva e caíamos exaustos, após corrermos sem parar, um atrás do outro. Mas, não suportava mais tanta correria, estava esgotado, então, caí sentado, e, só aí, percebi que estava com o bolso de trás do calção cheio de sementes secas de carrapateira – mamona – que, com os meus movimentos de corrida, balançavam e se chocavam, produzindo aquele barulho.

Putz! Que alívio...

Corri então para os braços de Pupí, meu novo refúgio em situações de estresse.

O compromisso assumido com mamãe de que me encarregaria dos banhos e colocação de comida para Pupí, foram, aos poucos, sendo deixados de lado.

O cachorrinho corria por toda a casa, fazia cocô e xixi nos locais mais impróprios e roía pés de cadeiras e móveis, além de dar sumiço em alpercatas e sapatos.

Mas, antes de completar seis meses de nascido, Pupí desapareceu. Foi uma tristeza imensa.

Procurei-o por toda Umbuzeiro.

Após as aulas pela manhã, almoçava apressadamente e saía de casa em casa, perguntando se haviam visto um cachorrinho gordinho, branco e marrom, de nome Pupí
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Chorei muito nos dias que se seguiram, e vi mamãe sofrer muito com o meu desespero.

Com o tempo, esqueci Pupí, e tentei conseguir um novo cachorrinho, mas, mamãe estava irredutível: - “Nunca mais deixarei entrar outro cachorro aqui em casa!”

Um ano depois do desaparecimento dele, eu estava com os irmãos e alguns amigos jogando futebol no campo que havia em frente à nossa casa, quando, um cachorrão começou a correr atrás de mim, mesmo eu estando sem a bola.

Latia sem parar e, quando eu parava, ele parava em frente a mim e saltava colocando suas patas no meu peito, enquanto sua cauda tentava, agitadamente, dizer-me que aquele agora cachorrão, era o mesmo querido e traquino cachorrinho Pupí de um ano atrás.

Agora ele pertencia a outra família.

Uma senhora e cinco crianças, moradores dos arredores de Umbuzeiro teimavam em dizer que aquele não era Pupí, e sim Rex, e que o criavam desde pequenininho.

Claro que aquilo não era verdade. O que eu e Pupí sentíamos um pelo outro não morrera. Estivera apenas adormecido e, não precisava de nenhuma palavra de explicação para nos convencer do contrário. 
Rolamos pela grama do campo... Eu a cheirá-lo e a acariciá-lo, e ele a lamber-me a cara e a latir de alegria.

Corremos para casa para darmos a grande notícia a mamãe. Eu na frente e ele a me seguir, latindo e dando saltos.

Mas, a reação de mamãe não foi a que eu esperava. Em vez de entusiasmo e alegria, tivera espanto e decepção. Reencontrar aquele destruidor de móveis não lhe agradou, e fez com que o devolvesse à mulher e seus filhos, que já choravam com medo de perder Rex, sob a alegação de que aquele, realmente não era o meu cachorro.

Fiquei em prantos vendo Pupí, muito a contragosto, ser puxado por uma corda para outra casa, longe dali.

Passei o resto da manhã chorando enquanto esperava papai chegar para o almoço e contar-lhe que encontrara Pupí.

Assim fiz, mas, dele também não veio nenhum entusiasmo ou vontade de ir atrás do meu cachorrinho.

Durante o almoço, uma linda surpresa... Com latidos fortíssimos, desesperados mesmo, Pupí arranhava a porta da nossa casa pedindo para entrar. Fugira donde estivera sofrendo também de saudades e voltara à nossa casa, já que agora aprendera o caminho. Meus pais ainda tentaram me convencer do contrário, mas, não podiam fazer nada com Pupí, que não desistia de latir, chorar e arranhar a porta.

Ao perceberem que não tinham mais como lutar contra aquela incondicional amizade, papai e mamãe - que o haviam presenteado àquela família - autorizaram-me a abrir a porta, e então, caimos um nos braços do outro, loucos de amor.

Como toda criança, não me preocupava em cuidar dele. Queria-o apenas como meu amigo, meu cachorrinho. Essa tarefa mais árdua, esses cuidados diários, foram assumidos espontaneamente por Neném, minha querida irmã mais velha, com quem Pupi dividiu seu amor, ao me ver sair de casa para estudar... depois trabalhar... e nunca mais voltar definitivamente...

Foi Neném também, quem o acompanhou e encheu de amor durante os dois anos que padeceu do mal que o levou à morte.

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O Amigo Lula.


Em Dezembro de 1985, retornava a Recife transferido de Ilhéus-Ba pelo Ministério da Agricultura – BNCC.

No prédio onde fomos morar – o “Ilha de Córsega” – próximo à Jaqueira, conheci meu vizinho Luis Carlos Alves, que logo se transformaria no meu amigo Lula. 

Juntos, passamos a fazer as caminhadas na Jaqueira às cinco da manhã, regadas a um bom papo, que variava entre futebol, mulheres, novos bares e, ainda havia espaço para um pouco de filosofia, planos para os filhos, projetos pessoais...

Tomamos muitas biritas juntos e, por conta disso e da confiança que nasceu entre nós, contamos quase todos os nossos segredos ao outro.

Admirador de boa música, sempre estava dando dicas de novos talentos que iam surgindo.

Nos sábados, após a caminhada na Jaqueira, íamos até a mercearia de seu Chiquinho - vizinha ao nosso prédio - comer uma sardinha portuguesa em lata, com limão, um pão ainda quentinho, e um bom azeite, acompanhando umas duas cervejas matinais mofadas.

Em 1990 veio a extinção do BNCC, iniciando um período de muita apreensão, onde todos os medos e projetos eram, diariamente, divididos com Luis Carlos.

Surgiu o projeto do El Bodegón - primeiro barzinho tipicamente cubano do Recife – a primeira viagem a Cuba, a edição em sua casa das fitas de vídeo que fiz na Ilha de Fidel e, lá estava Lula, participando vibrantemente de cada parte desse sonho, até vê-lo tornar-se realidade.

Nos dias que antecederam a inauguração desse que foi meu primeiro barzinho, Lula levou-me a alguns bares e restaurantes dos quais conhecia os proprietários, para que me passassem algumas dicas dessa gostosa mas árdua tarefa.

No dia da inauguração estava lá, com sua família e o maior número de amigos que conseguiu reunir.

Seriam muitas histórias, cheias de amizade sincera para contar sobre Lula, e aqui não é o espaço ideal para alongar-me tanto, mas, uma delas quero que fique registrada, até porque, hoje, 12.08, um dia antes do do Comandante Fidel, é aniversário dele.

“Um mês após inaugurado, o El Bodegón funcionava apenas comigo e um cozinheiro que contratara entre os alunos do Senac, ficando as principais tarefas, como as de barman, churrasqueiro, garçom, gerente e caixa, comigo mesmo.

Numa sexta-feira, pela manhã, quando acabara de abastecer o bar para o expediente da noite e já ia saindo para almoçar e deitar um pouco, vi o El Bodegón ser invadido pela maioria dos ex-colegas do extinto BNCC que queriam conhecer meu barzinho.

Naquela animação toda pelo reencontro, o meu entusiasmo em contar-lhes que achava que o barzinho ia dar certo e a alegria típica de quem está cercado de amigos, tomando todas, o tempo foi passando, a pilha de cascos de cervejas vazias aumentando, misturadas a doses de Montilla , Bacardi e Whisky. Quando nos demos conta já eram dezoito horas, hora de abrir o bar ao público.

Deixei-o entregue ao inexperiente cozinheiro e fui pra casa tomar um banho e dar só um cochilo, para ficar em condições de suportar as exigências da madrugada. Assim o fiz.

Quando acordei, tomei outro banho rápido para diminuir a ressaca, coloquei a roupa e saí correndo para o bar.

Enquanto o elevador descia, resolvi conferir a hora e... Quase tenho um troço! Eram quatro e quarenta e cinco da manhã.

Passou um filme de terror em minha mente com um final desastroso, em apenas alguns segundos.

O El Bodegón passara toda a noite entregue apenas ao inexperiente cozinheiro que, não sabia preparar nenhum dos coquetéis cubanos que eu aprendera atrás do balcão do La Bodeguita 
del Médio, atender às mesas, selecionar as músicas, fechar as contas, receber seus valores e, ainda por cima, dar conta da cozinha. 
Foi uma sensação horrível.

O bar representava para mim a única alternativa diante daquela situação de recém desempregado, e eu estava começando muito mal. Aquilo não deveria estar acontecendo.

Ao abrir a porta do elevador, dou de cara com Lula... Com ele eu não tinha segredos e fui logo relatando minha irresponsabilidade, enquanto o puxava pelo braço para que me acompanhasse até o bar para ver o tamanho do estrago.

Nisso, Lula parou, colocou uma das mãos no meu ombro e retirou do bolso da calça um monte de papéis e dinheiro, e disse: - “Tome! Este é o resultado do movimento do seu bar. Tomei conta dele pra você.

Ele trabalhava dois expedientes como diretor financeiro de uma grande empresa pernambucana, e saíra do trabalho direto pro meu bar, pensando em tomar uma geladinha e descansar um pouco.

Nossa amizade continua a mesma, agora estendida também aos nossos filhos."

(((o)))




Cinco anos depois, com o El Bodegón no auge, inaugurei o El Paso na rua do Bom Jesus – primeira casa a ser inaugurada no projeto de revitalização da Rua do Bom Jesus no Recife Antigo – e, três anos após, éramos despejados de lá pela Prefeitura - criadora e exterminadora do projeto, além de proprietária do imóvel onde funcionávamos, e autora do pedido de Liminar para que de lá fossemos despejados por falta de pagamento dos aluguéis – juntando-nos aos outros que já haviam falido e, antecipando-nos aos que viriam em seguida.

Essa derrocada levou por terra também o meu El Bodegón.

Nos dias, meses e anos que se seguiram, senti a dor de ver uma notícia de falência não fraudulenta, provocada pela própria Prefeitura e seus incapazes gestores à época, transformar a vítima em inimigo público número um e, presenciei atônito, como algumas pessoas que pareciam amigas, ficaram assustadas até com a possibilidade de que outros seus amigos soubessem de suas proximidades comigo, ou, simplesmente sumiram, espantadas com a hipótese de que eu pudesse procurá-las.


Para saber quantos amigos você tem, "dê uma festa". Para saber a qualidade deles, "fique doente."












quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Israel X Palestina: Será Apenas Intolerância?...

Vítima das bombas de fragmentação de quem assume os poderes da propalada Providência Divina em nome do Estado, tal qual a Igreja o faz em nome de um Deus.
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O professor Boaventura de Sousa Santos, sociólogo, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, ligado ao Fórum Social Mundial, explica, em carta a um intelectual judeu israelita, por que recusa o convite para participar de um Congresso em Israel.
"Carta a Frank
Escrevo-te esta carta com o coração apertado.
Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário político ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas - como te costumas classificar para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel são árabes – mais progressistas que conheço.
Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramalah.
Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso. Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo direito que defendo para o povo palestiniano.
"Esqueço" com alguma má consciência que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico.
"Esqueço" também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700.000 palestinianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.
Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de fato, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de água e de eletricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os check points e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de fato, os meter num vasto campo de concentração).
As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano.
E agora tudo faz sentido.
A invasão e destruição do Líbano em 1982 ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações.
Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?
Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis.
Depois do Líbano, seguir-se-á a Síria e o Irã. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.
Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lobby comunicacional - que sufocantemente domina os jornais do meu país - com a bênção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da União Européia.
Sei que partilhas muito do que penso e espero que compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país.
Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz."
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Parafraseando Krishnamurti "A ostentação de bondade poderá brilhar mas não é aquela chama; a atividade chamada assistência, embora benéfica e necessária, não é amor; a tolerância que tanto se pratica e exercita, a compaixão cultivada da igreja e do templo, a fala mansa, as maneiras suaves, a adoração do salvador, da imagem, do ideal - nada disso é amor."
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