quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

E Fidel Renuncia... "Esta Noite 200 Milhões de Crianças Dormirão nas Ruas do Nundo. Nenhuma é Cubana."

"A cada ano,80 mil crianças morrem vítimas de doenças evitáveis. Nenhuma delas é cubana."
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Fidel Castro, 81 anos, renunciou às suas funções de presidente do Conselho de Estado de Cuba e Comandante-em-Chefe da Revolução.
Entregue aos cuidados de sua saúde, prefere manter-se fora das atividades de governo e participar do debate político – que sempre o encantou – através de seus artigos na mídia.
Permanece, porém, como membro do Birô Político do Partido Comunista de Cuba.
No último domingo 24, Raúl Castro, 77 anos, foi eleito, pelos novos deputados da Assembléia Nacional, para ocupar as funções de primeiro mandatário de Cuba.
Esta é a segunda vez que Fidel renuncia ao poder. A primeira ocorreu em julho de 1959, sete meses após a vitória da Revolução. Eleito primeiro-ministro, entrou em choque com o presidente Manuel Urrutia, que considerou radical as leis revolucionárias, como a reforma agrária, promulgadas pelo conselho de ministros. Para evitar um golpe de Estado, o líder cubano preferiu renunciar. O povo saiu às ruas em seu apoio. Pressionado pelas manifestações, Urrutia não teve alternativa senão deixar o poder. A presidência foi ocupada por Osvaldo Dorticós e Fidel voltou à função de primeiro-ministro. Estive em Cuba em janeiro deste ano, para participar do Encontro Internacional sobre o Equilíbrio do Mundo, à luz do 155º aniversário de nascimento de José Martí, figura paradigmática do país. Retornei em meados de fevereiro para outro evento internacional, o Congresso Universidade 2008, do qual participaram vários reitores de universidades brasileiras. Nas duas ocasiões encontrei-me com Raúl Castro e outros ministros cubanos. Reuni-me também com a direção da FEU (Federação Estudantil Universitária); estudantes da Universidade de Ciências Informáticas; professores de nível básico e médio; e educadores populares.
Ilude-se quem imagina significar a renúncia de Fidel o começo do fim do socialismo em Cuba. Não há nenhum sintoma de que setores significativos da sociedade cubana aspirem à volta ao capitalismo. Exceção a uns poucos que, em nome dos direitos humanos, não se importariam que o futuro de Cuba fosse equivalente ao presente de Honduras, Guatemala ou Nicarágua. Aliás, nenhum dos que se evadiram do país prosseguiu na defesa dos direitos humanos ao inserir-se no mundo encantado do consumismo...
Cuba não é avessa a mudanças. O próprio Raúl Castro desencadeou um processo interno de críticas à Revolução, através das organizações de massa e dos setores profissionais. São mais de 1 milhão de sugestões ora analisadas pelo governo. Os cubanos sabem que as dificuldades são enormes, pois vivem numa quádrupla ilha: geográfica; única nação socialista do Ocidente; órfã de sua parceria com a União Soviética; bloqueada há mais de 40 anos pelo governo dos EUA.
No IDH 2007 da ONU, o Brasil comemorou o fato de figurar em 70º lugar. Os primeiros setenta paises são considerados os melhores em qualidade de vida. Cuba, onde nada se paga pelo direito universal à saúde e educação de qualidades, figura em 51º lugar. O país apresenta uma taxa de alfabetização de 99,8%; conta com 70.594 médicos para uma população de 11,2milhões (1 médico para 160 habitantes); índice de mortalidade infantil de 5,3 por cada 1.000 nascidos vivos (nos EUA são 7 e, no Brasil, 27); 800 mil diplomados em 67 universidades, nas quais ingressam, por ano, 606 mil estudantes. Hoje, Cuba mantém médicos e professores atuando em mais de 100 países, incluído o Brasil, e promove, em toda a América Latina, a Operação Milagros, para curar gratuitamente enfermidades dos olhos, e a campanha de alfabetização Yo si puedo (Sim, eu sou capaz), com resultados que convenceram o presidente Lula a adotar o método no Brasil. Haverá, sim, mudanças em Cuba quando cessar o bloqueio dos EUA; forem libertados os cinco cubanos presos injustamente na Flórida por lutarem contra o terrorismo; e se a base naval de Guantánamo, ora utilizada como cárcere clandestino - símbolo mundial do desrespeito aos direitos humanos e civis - de supostos terroristas - for devolvida. Não se espere, contudo, que Cuba arranque das portas de Havana dois cartazes que envergonham a nós, latino-americanos, que vivemos em ilhas de opulência cercadas de miséria por todos os lados:
“A cada ano,80 mil crianças morrem vítimas de doenças evitáveis. Nenhuma delas é cubana.” “Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma é cubana.”
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Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
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Texto enviado carinhosamente pelo economista e amigo Filipe Reis Melo<freismelo@yahoo.com>
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Hasta Siempre, Comandante Fidel!

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Fidel está muerto.
!Que viva então el Fidel!
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. Morreu, Fidel?
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Se morreu, morreu na minha opinião, o maior herói do século 20.
Com ele morrem muitos personagens: o jovem advogado, filho de rico fazendeiro envergonhado de viver numa pátria em que um patife vagabundo como Batista havia transformado num bordel de luxo para a máfia e políticos norte-americanos corruptos.
Morreu o rapaz que passou dos 27 aos 29 anos na cadeia, por não aceitar a democracia imposta pelos americanos com votos comprados ou obtidos à força. Morreu o leitor de Martí, de frei Bartolomeo de Las Casas, de Marx e, certamente, de Cervantes.
Morreu o homem mais amado de Cuba e o mais odiado pelos cubanos que preferiram Miami e Disney.
Morreu também o homem que condenou muita gente à morte, entre elas, o número 2 das Forças Armadas Cubanas, envolvido com o tráfico de drogas.
Morreu o homem que a CIA tentou matar mais de dez vezes e que suportou o maior embargo econômico da história moderna.
Morreu o homem que fez a reforma agrária como já poderíamos ter feito há muito tempo: pagando aos latifundiários o que declararam que valiam as terras na hora de pagar seus impostos.
Morreu o homem que devolveu a auto-estima aos cubanos.
Morreu o homem que diziam possuir a quinta fortuna no mundo. Fidel respondeu que, se encontrassem um dólar numa conta em seu nome ou no nome de seus filhos no exterior, ele resignaria ao cargo.
, disse-me que não.
Profissional liberal. Soy limpia botas.
Na verdade, foram os americanos que jogaram Fidel nos braços da União Soviética. Queriam eleições em Cuba e tinham um candidato que - como já haviam feito com Batista - seria apenas um homem de palha. Foi muito ingênuo achar que, depois de limpar e dedetizar a casa, Fidel deixaria que os americanos colocassem alguém como um Collor, por exemplo, lembram-se?
Ou como Sarney e FHC, que deixaram o poder riquíssimos e o povo cada vez mais pobre e ignorante.
Morreu o homem que acabou com o analfabetismo, tornou obrigatório o Ensino Médio e financiou universitários.
Morreu o homem que fez de Cuba um exemplo para a medicina da América Latina.
Morreu o homem que fez de Cuba a maior potência atlética da América Latina.
Morreu o comunista que o Papa abençoou.
Certa vez, em Cuba, comecei a entrevistar passantes nas ruas. Todos estavam empregados, ninguém morava em casa alugada e todos, de certa forma, eram funcionários do Estado. Menos um. Perguntei ao senhor carequinha, o tal único, se era funcionário e ele, sorrindo
Arthur Miller, Robert Frost, Edmond Wilson, Sartre, Russell, Clifford Odets, Adiai Stevenson, John Steinbeck, entre outros grandes intelectuais da época, escreveram artigos pedindo a Kennedy que deixasse Cuba em paz. Mas Kennedy preferiu promover o fiasco da Baía dos Porcos e receber, como hóspedes, cubanos leais ao governo americano que em Cuba ninguém queria.
Estive duas vezes com Fidel. Da primeira, perguntei-lhe por que não instituía eleições livres. Ele me declarou que sairia muito caro para eles e mais caro ainda para os americanos que mandariam dinheiro para corromper os poucos indecisos.
Da segunda vez, eu e outros jornalistas o acompanhamos num passeio pelas ruas - e não vi um guarda-costas. Formou-se uma multidão gritando Viva Fidel! e uma mulher grávida o abraçou. Perguntou-lhe quantos filhos já tinha. Ela disse que este seria o terceiro, e ele: Por que não está tomando pílula? Que seja o último. Nossa ilha não pode alimentar mais do que o seu espaço permite.
Hoje em dia falam muito das prostitutas de Cuba, mas esquecem-se de falar dos milhões de mulheres que, graças a Fidel, salvaram-se da miséria, da fome e da prostituição. Podemos dizer a mesma coisa no Brasil?
Mas Cuba é uma ditadura e Fidel um ditador.
Pois eu lhes digo que 80% do povo brasileiro jamais viu tal democracia. Da última vez que estive em Cuba, entrevistei Teófilo Stevenson, cinco vezes campeão mundial olímpico dos pesos pesados. Ele me apresentou a mulher e filhos, bem como os seus alunos de educação física. Perguntei-lhe por que não aceitara o contrato de US$ 5 milhões que os americanos haviam lhe oferecido. Respondeu:
Há muito a fazer em Cuba e, além disso, há coisas mais importantes que o dinheiro.
Fidel já morreu?
Não!
Viva Fidel !


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Fausto Wolf, é jornalista, escritor e poeta dos bons. Co-fundador e editor do Pasquim. Escreveu entre outros, Sandra na Terra do Antes - infantil, O dia em que Comeram o Ministro, A Mão Esquerda, O Acrobata pede Desculpas e Cai, O Lobo atrás do Espelho, O Nome de Deus - romances, Cem poemas de amor, e uma canção despreocupada, Gaiteiro Velho, além de inúmeras poesias.
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Texto gentilmente traduzido e enviado pelo economista Filipe Reis.
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domingo, 10 de fevereiro de 2008

Meu Casamento com Nadja e a União entre Brahms, Baremboim e Perlman.

Com grinaldas, mas sem véu algum.
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Ao coração do meu amor.
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Domingo 10.02.08

Programei a TV para me acordar às nove horas, sintonizada no canal senado (ocasião única de se receber nessa emissora um conteúdo não horripilante), e despertei ainda cansado após apenas três horas e meia de sono, ao som do violino de Itzhak Perlman sustentado suavemente pela orquestra filarmônica de Berlim, atenta aos movimentos sem floreios do já imortal maestro Daniel Baremboim.

Ouvi o início do primeiro movimento ainda deitado. Desde os primeiros acordes de Perlman apenas meus ouvidos resistiam ao sono. Não conseguia abrir os olhos e movi a mão apenas para dar volume ao som da TV. Acompanhava a melodia como uma velha conhecida e só então acordei por inteiro, empilhei travesseiros às costas e arregalei bem os olhos para identificar nas letrinhas o concerto para violino e orquestra – opus 77 de Brahms.

Na minha primeira viagem à Cuba de Fidel, trouxe na bagagem – além de música cubana para o meu “El Bodegón”, coincidentes 77 discos russos de música erudita. Alguns foram ouvidos apenas uma vez, mas, a maioria, embalou minha primeira hora de cada dia desde então, assim como hoje, ainda na cama.

Não sou nenhum expert em música clássica e ainda desconfio que nas primeiras incursões por esse encantador mundo, fui levado – ainda adolescente - principalmente pela curiosidade em descobrir porque os nossos ouvidos tupiniquins não recebiam com o mesmo inusitado e verdadeiro prazer, os sons dessas partituras tão rebuscadas, aplaudidas tão entusiasticamente no Velho Mundo. Matei logo essa curiosidade ao perceber que é impossível se gostar do que não se conhece, e começou então, a partir dos acordes mais melodiosos de Chopin, Liszt e Beethoven, uma paixão que foi, paradoxalmente, levando-me aos braços (leia-se “acordes”) de Tchaikovsky, Dvorák e Brahms.

O “allegro non troppo” daquele primeiro movimento chegava ao fim com a força mais utilizada para finalizar as grandes sinfonias, arrepiando-me os pelos dos braços e pernas e, fazendo-me perceber - enquanto eu me reposicionava nos travesseiros - que hoje, diferentemente dos dois últimos anos, o meu amor não estava ao meu lado, com a cabeça suavemente pousada no meu peito nu, em silêncio, dividindo comigo, também esse prazer.

Resolvi ali, naquele instante, que faria esta homenagem a Brahms, Baremboim e Perlman, trazendo-os para o meu blog.
Os acordes, agora do segundo movimento em “adágio”, sugeriam paz, reflexão, romantismo. Busquei através dessa minha fértil imaginação a figura do sisudo Brahms molhando a pena no tinteiro para dividir com todas as gerações futuras a grandiosidade da sua arte. O gestual preciso e quase contido do maestro Baremboim mantinha uma das três melhores orquestras filarmônicas do mundo em segundo plano, enquanto seus olhos se dividiam entre os músicos sob sua regência, e a peculiar fisionomia de Ithzak Perlman que parecia, por sua vez, reger Baremboim com os movimentos do seu inquieto, preciso e sonoro arco.

Ali estava um casamento perfeito, ou melhor ainda, um simples – embora encantador – casamento, com começo meio e fim.

Se trouxera Brahms com sua sisudez de tão longe, porque não trazer Nadja, o meu amor, que está apenas a algumas dezenas de quilômetros e tem seus cheiros ainda impregnados nos travesseiros e lençóis? Trouxe-a... Deitei-a ao meu lado e lhe ofereci o peito nu.

Em perfeita sintonia com o clima do quarto, Brahms nos presenteava agora com o terceiro movimento em “allegro giocoso, ma non troppo vivace”. Virou uma festa... A orquestra não aceitava apenas o segundo plano e irrompia em lindos acordes agora com as trompas a todo sopro, quase encobrindo o recorrente e encantador tema principal trazido pelo violino de Perlman que, enquanto o executava, tentava esconder um debochado, vaidoso e adolescente sorriso, mantendo os olhos sempre cerrados e as sobrancelhas e bochechas dançando num “allegro giocoso” ritmo. O “gran finale” desse concerto não é majestoso, mas é encantador, com as notas do violino claramente perceptíveis apesar dos acordes em uníssono dos instrumentos da orquestra, num exemplo de convivência harmoniosa, onde cada um permite, aceita e aplaude o brilho do outro; num diálogo rápido e inteligente da orquestra com o violino de Perlman, cada um a seu tempo, criando uma expectativa a cada acorde mais forte de que aquele será o último do concerto.

Esta semana viajei a João Pessoa para conhecer pessoalmente o meu sogro Sávio Rolim, pedir a mão de Nadja e a sua bênção para nossa união. O pedido foi aceito “com muita honra” nas palavras dele. Desejo que convivamos como sugere esse concerto ao manter às vezes a força da orquestra em segundo plano, para que o brilho suave do frágil violino seja pleno; que cada um tenha espaço nessa partitura da vida a dois, para executar seu tema principal sob os aplausos do outro; que as simples notas ou acordes do dia-a-dia possam sempre ser “arranjados” com criatividade para que não se tornem cansativos com o passar dos anos; que sejamos ao mesmo tempo compositores, instrumentos, solistas, maestros e, principalmente, expectadores e ouvintes atentos da música que o outro trás consigo e às vezes nem tem a necessidade de mostrá-la.


Ouça o áudio, com os três movimentos:


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