terça-feira, 6 de março de 2012

Cineastas Lançam Manifesto em Apoio à Comissão da Verdade







Em repúdio as manifestações de setores militares contra a Comissão da Verdade, 110 cineastas lançaram ontem,  segunda-feira 5, manifesto em favor dos trabalhos da Comissão e pela defesa do direito de conhecer o que representou os 21 anos de ditadura no país.






O manifesto foi gerado a partir de uma nota publicada na semana passada pelos militares, na qual eles externaram que a Comissão da Verdade é um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”.


O Instituto Herzog também manifestou seu repúdio sobre o assunto home, terça-feira 6. 



Em nota, ressaltou sua desaprovação e deixou claro que as declarações feitas pelo general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, em entrevista publicada no Jornal O Globo, demonstram a falta de respeito deste setor aos que lutam pelo esclarecimento dos crimes cometidos durante à ditadura. 



Conheça o manifesto na íntegra:



MANIFESTO DOS CINEASTAS BRASILEIROS EM APOIO À COMISSÃO DA VERDADE


Nós, cineastas brasileiros, expressamos a nossa preocupação com as frequentes manifestações de militares confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito. Todos os cidadãos brasileiros têm o direito de conhecer o que foram os 21 anos de ditadura militar instaurada com o golpe de 1964.


É preciso que a Comissão da Verdade, instituída para esclarecer fatos obscuros daquele período, em que foram cometidas graves violências institucionais, perseguições, torturas e assassinatos, tenha plenas condições e apoio da sociedade brasileira para realizar essa tarefa histórica. 



Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes. Estaremos atentos para que tal comissão seja composta por pessoas comprometidas com a democracia e com a verdade.



1. João Batista de Andrade, 2. Roberto Gervitz, 3. Lucia Murat, 4. Manfredo Caldas, 5. Luiz Carlos Lacerda, 6. Jaime Lerner, 7. Hermano Penna, 8. Helena Solberg, 9. David Meyer, 10. Luiz Alberto Cassol, 11. Renato Tapajós, 12. Geraldo Moraes, 13. Laís Bodansky, 14. Luiz Bolognesi, 15. Silvio Da Rin, 16. Rosenberg Cariri, 17. Toni Venturi, 18. Joel Zito Araujo, 19. André Kotzel, 20. Paulo Morelli, 21. Carlos Alberto Riccelli, 22. Ana Maria Magalhães, 23. Henri Gervaiseau, 24. Zita Carvalhosa, 25. Ícaro Martins, 26. Rubens Rewald, 27. Ruy Guerra, 28. Daniela Capelato, 29. Wolney Oliveira, 30. Guilherme de Almeida Prado, 31. Jorge Alfredo, 32. Roberto Berliner, 33. André Ristum, 34. Carlos Gerbase, 35. Omar Fernandes Aly, 36. Renato Barbieri, 37. Jeferson De, 38. Alain Fresnot, 39. Murilo Salles, 40. Sergio Roizenblit, 41. Gilson Vargas, 42. Marcio Curi, 43. Newton Canito, 44. Isa Albuquerque, 45. Rose La Creta, 46. Rodolfo Nanni, 47. Monique Gardenberg, 48. José Joffily, 49. Chico Guariba, 50. Luiz Dantas, 51. Tetê Moraes, 52. Eliane Caffé, 53. Walter Carvalho, 54. Augusto Sevá, 55. Eliana Fonseca, 56. Daniel Santiago, 57. Paulo Halm, 58. Mariza Leão, 59. Sergio Rezende, 60. Jorge Durán, 61. Miguel Faria, 62. Jom Tob Azulay, 63. Flavio Frederico, 64. Tatiana Lohmann, 65. Mauro Baptista Vedia, 66. Claudio Kahns, 67. Lauro Escorel, 68. José Araripe Jr, 69. Galuber Paiva Filho, 70. Ricardo Pinto e Silva, 71. Sergio Bloch, 72. Ariane Porto, 73. Cesar Charlone, 74. Roberto Farias, 75. Roberto Santos Filho, 76. Oswaldo Caldeira, 77. Ricardo Elias, 78. Christian Saghaard, 79. Pola Ribeiro, 80. Tuna Espinheira, 81. Lázaro Faria, 82. Marina Person, 83. David Kullock, 84. Mara Mourão, 85. Silvio Tendler, 86. Sergio Machado, 87. Cecília Amado, 88. Edgard Navarro, 89. Henrique Dantas, 90. Cesar Cavalcanti, 91. Dodô Brandão, 92. Carolina Paiva, 93. Guto Pasko, 94. Carlos Dowling, 95. Duarte Dias, 96. Kleyton Amorim Marinho, 97. Renato Ciasca, 98. Rubens Xavier, 99. Antonio Olavo, 100. Luiz Carlos Barreto, 101. Lucy Barreto, 102. Paula Barreto, 103. Bruno Barreto, 104. Phillipe Barcinski, 105. Cristina Leal, 106. Tata Amaral, 107. Eduardo Escorel, 108. Alfredo Barros, 109. Helena Ignez, 110. Sergio Sanz.





Patativa do Assaré - Pássaro e Poeta











Este cearense é uma dessas provas acabadas da genialidade de nossa gente. Menino da roça, autodidata, leu os grandes mestres. Poeta nato, fiel às raízes, foi porta-voz do povo, sem perder jamais a delicadeza.

5 de março de 1909. Na Serra de Santana, a 18 km de Assaré, nascia o segundo dos cinco filhos de um casal de agricultores cearenses. Aos quatro anos Antônio Gonçalves da Silva, perdeu a visão de um olho. Aos oito, ficou órfão de pai e teve que trabalhar. 


Muito cedo encantou-se com os romances de cordel e o som da viola. Teve apenas quatro meses de instrução formal, compensados pela leitura atenta de Camões e dos poetas românticos brasileiros. 


Aos 16, com autorização da mãe, vendeu uma ovelha e comprou a primeira viola. Passou a distrair os serranos. Rapaz formado, viajou a Belém com um parente que se encantou com seus repentes. Foi batizado de Patativa. Como apareceram outros, ele passou a ser o Patativa do Assaré. 

Voltou a sua terra, com desenvoltura para vencer o rival da peleja. Assim, fez-se o poeta.  

Casado em 1936, pai de família numerosa, por mais de 25 anos trabalhou a terra e fez poesia. Como intérprete de uma comunidade, viajava em lombo de burro, vestindo paletó e gravata, com a viola a tiracolo, fazendo cantorias pelo Cariri.

Na roça, enquanto trabalhava, acumulava versos em sua memória privilegiada. À noite, sob o lume da lamparina, passava tudo a limpo num caderninho. Constituía-se uma obra, que permaneceu. 

Em Patativa, não existia a possibilidade de rima pobre ou poema mal acabado. A versificação aprendeu com o tratado de Olavo Bilac e Guimarães Passos. 

Em 1956, parte de sua produção ganha formato de livro. José Arraes de Alencar ouviu Patativa no rádio. Publicou Inspiração Nordestina. Luiz Gonzaga gravou, em 1964, Triste Partida. O canto de Patativa passou a ser amplificado. 

O poeta incorporou novas pautas, falou da reforma agrária, da televisão, dos meninos de rua, mas não perdeu de vista a casa de farinha, o galo de campina, o flamboaiã sentinela da serra de Santana. Sua consciência política aguçada transmitia-se por meio da voz poética. Insistindo nas verdades incômodas, fez de sua poesia um canto de guerra, sem nunca perder a delicadeza. No período autoritário foi perseguido. Teve um mandado de prisão relaxado pela interferência de um parente militar. 

Patativa continuou a criar, era seu destino de poeta pássaro, poeta cidadão. 

Cante Lá Que Eu Canto Cá, publicado em 1978, lançou-o nacionalmente. Foi objeto de teses e artigos acadêmicos, capa de suplementos culturais. Ganhou homenagens, cidadania honorária de vários municípios. Aconteceu na televisão. Vieram outros livros, discos. Apoiou a campanha pela Anistia em 1979. Participou das Diretas-Já em 1984. Votou contra velhos coronéis e em Lula três vezes. 

Patativa soube manter suas raízes. Quando o corpo franzino falava, tornava-se nosso porta-voz. Um homem profundamente sintonizado com seu tempo e seu espaço: generoso, guerreiro e sábio. 

Morreu em julho de 2002, aos 93 anos. Deixou sete livros, cinco discos e uma trajetória de coerência ética, qualidade poética e afinação, como o pássaro. Patativa foi único em sua grandeza e eterno em seu cantar. 




Por  Gilmar de Carvalho, em Almanaque Brasil.