terça-feira, 16 de setembro de 2008

Paulo Freire: A IN-VEJA-DA-VEJA

Che, ou Paulo Freire, tanto faz...
Importante mesmo é o que se trás no coração.
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VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA

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Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão ensinando a ele? De autoria de Mônica Weinberg e Camila Pereira, ela foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há o seguinte trecho:
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"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".
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Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:

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"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido - na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire".

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Contribuição do Economista Filipe Reis
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Juíza de Primeira Instância Manda “Tropa de Choque” do PCC e CV de Volta Pra Cadeia, Tornando Inválida a Decisão de Ontem do STF.

Só a Justiça de 1ª e 2ª Instâncias deixam eles com essa cara.

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A juíza Tatiane Moreira Lima Wickihalder, da 1ª Vara de Francisco Morato – Grande São Paulo – decretou agora a pouco a prisão preventiva dos nove integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), e CV (Comando Vermelho) que agem dentro e fora dos presídios do Estado de São Paulo.

Ontem, o STF havia concedido habeas corpus aos réus, sob o argumento de que os réus esperaram mais de quatro anos pelo julgamento na prisão, o que para o Supremo excedeu os prazos legais, sem nenhuma preocupação com a sociedade paulista.

Para não provocar outra reação do abusado presidente do STF Gilmar Mendes, a juíza contemporizou: "Não se trata de questionar o excesso de prazo devidamente reconhecido pelo STF, uma vez que os réus encontram-se detidos pela prisão em flagrante. Contudo, superada a questão do excesso de prazo da prisão em flagrante, nesse momento se analisam os requisitos da prisão preventiva, que até o presente não haviam sido considerados. Trata-se de matéria, portanto, que não foi objeto de apreciação pelo STF".

Ainda de acordo com a magistrada, a prisão preventiva foi decretada "para a manutenção da ordem pública, devido à alta periculosidade dos acusados".

Vamos torcer agora para o STF não bater o pezinho indignado e mandar essa bandidagem pra junto da sociedade e ameaçar a juíza com o Conselho Nacional de Justiça.

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STF Libera Geral - Nove Chefões do PCC e CV Estão na Rua

Te esconde que vem um presente do STF por aí!...
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A “tropa de choque” – grupo formado pelo PCC em parceria com o CV ‘Comando Vermelho’ - vai ser solta. Foram presos há quatro anos por se unirem para uma das mais ousadas ações do crime organizado já feitas no Estado de São Paulo: tomar de assalto um presídio e soltar 1.279 presos, incluindo o seqüestrador Jorge de Souza, o Carioca, integrante do CV. A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade e com aval do Ministério Público Federal, concedeu anteontem habeas corpus para nove integrantes do bando, estendendo a eles o HC que já havia sido dado a Rafael Fernando da Silva, de 26 anos, em abril.

Por incrível que pareça, a razão de o STF ter concordado em soltar os acusados é o fato de os réus estarem presos há quatro anos sem que nem mesmo a instrução do processo - fase em que são recolhidas as provas e depoimentos - tivesse sido concluída. O motivo de tanto atraso, como ressaltou o ministro Carlos Ayres Brito em seu voto, não foi nenhuma ação protelatória dos defensores dos réus, mas o fato de que muitas audiências foram cancelas e remarcadas por “falta de efetivo estatal para apresentação de presos ao juízo criminal, tendo em vista a alta periculosidade dos agentes”. Ou seja, não havia escolta policial suficiente para levar os presos com segurança do presídio ao tribunal.

A prisão da quadrilha ocorreu em 1º de julho de 2004. O bando foi detido depois que escutas telefônicas feitas pelo Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) detectaram que o PCC e o CV se preparavam para tomar de assalto a Penitenciária 2 de Franco da Rocha. Leandro ia usar uma carteira de advogado para entrar na prisão e dominar a guarda, abrindo o portão. Além de soltar Carioca, o bando ia promover a fuga em massa de todos os presos. O grupo, no entanto, foi surpreendido pelos policiais numa casa na cidade vizinha de Francisco Morato, quando se preparava para o resgate.

Houve tiroteio e dois policiais por pouco não morreram e um acusado de ser do CV morreu. O bando tinha 5 fuzis, 5 submetralhadoras, 6 pistolas, 2 revólveres, 3 granadas e 5 coletes à prova de bala. “Que beleza!”, reagiu um delegado do Deic ao saber da decisão do STF. “São bandidos perigosíssimos.” Na casa do réu Fábio Junior Gomes, havia uma planta da prisão e a contabilidade do PCC.

Gomes seria o gerente da facção na zona oeste de São Paulo. Uma das advogadas que o defenderam foi Ariane dos Anjos, investigada pela CPI do Tráfico de Armas do Congresso sob a suspeita de ser pombo-correio do líder do PCC, Marcos Camacho, o Marcola.

A Secretaria da Segurança informou que é preciso verificar o que ocorreu cada vez que os presos não foram levados ao tribunal. Há casos em que o pedido de escolta chega depois da data da audiência. A secretaria informou que a PM mantém 2 mil homens para escoltas.
A verdade é que o STF adora soltar, basta para tanto, encontrar justificativas legais. A sociedade que se dane.


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Desmoralizadas, Infelizmente, Tropas Federais Voltam ao Rio.

Recepção às Tropas Federais nas favelas do Rio.
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Após se verem obrigadas pela opinião pública e pela mídia a abandonarem às pressas os morros do Rio de Janeiro, após serem flagradas servindo de capachos para traficantes ao prenderem e lhes entregarem bandidos de facções rivais, para serem torturados e assassinados, voltam agora, para colocar ordem nas eleições que se aproximam.

Desmoralizados, já chegaram avisando que não queriam confronto, como se estivessem pedindo autorização aos bandidos para lá permanecerem, e em troca, informam com antecedência onde atuarão nos dias seguintes, permanecendo em cada morro apenas três dias, deixando depois os moradores entregues aos traficantes.

Onde chegamos!...

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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Os Bandidos vão Prender a Polícia...

Montagem: Rodolfo Vasconcellos

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O senador Demóstenes Torres, da oposição ao governo, mostrou-se indignado ontem durante os depoimentos do superintendente da Polícia Federal e do diretor afastado da ABIN no Senado Federal,e propôs a criação de um conselho para fazer o controle externo de todas as atividades de inteligência desenvolvidas no âmbito do Poder Executivo. Esse conselho seria formado por sete integrantes, dois indicados pela Câmara, dois pelo Senado e um pelo Judiciário, restando apenas dois para fazer oposição a essa quadrilha que tenta conter toda investigação séria neste país: ficaria um com o Ministério Público e o outro com o Executivo, enjaulando assim a Polícia Federal e a ABIN que tantos transtornos têm trazido aos delinqüentes granfinos que infestam Brasília e o resto do Brasil.
Eu e quase a totalidade dos brasileiros, certamente não tememos grampos telefônicos a não ser para evitar que se saiba detalhes de nossas transas que acabamos por revive-las com nossos amores no dia seguinte, em conversinhas apimentadas.
Mas, grampos de verdade, desses que colocam bandidos finamente engravatados na cadeia (mesmo que sejam soltos por eles mesmos logo em seguida), quem teme são os banqueiros fraudulentos e os habitantes dos presídios de segurança máxima, além dos ocupantes de cadeiras no Senado Federal, na Câmara dos Deputados e nas altas Cortes do Judiciário (isso para citar apenas os que moram em Brasília).
Nunca havia visto um senador tão irritado e assustado quanto Artur Virgílio na reunião de ontem no Senado, nem essas instituições, acima citadas, agirem com tanta rapidez e indignação como agora presenciamos, após a “prisão” de Daniel Dantas. De repente todas as ações da Polícia Federal transformaram nosso Brasil numa República Policialesca, o Ministério Público em um bando de incompetentes xereteiros, os Juízes de primeira e segunda instâncias em relapsos rebeldes, e os agentes da ABIN em bisbilhoteiros a serviço da espionagem clandestina. Tudo bem que se normatize com rigor as invasões de privacidade de todos os tipos, mas, por que só agora, quando as falcatruas do milionário larápio Daniel Dantas foram expostas ao povo brasileiro, esses senhores de toga e ternos bem recortados que exigem ser tratados por “excelência” e “ministro” ficaram tão incomodados e ágeis em legislar?
A resposta é que, afinal de contas, é pra isso que são PAGOS.


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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Raspa de Tacho





Aos filhos de Acelino Brito - Dinha, Toinho, Maria, Adalgisa, e os outros,cujos nomes esqueci, apesar de lembrar bem dos seus rostos.





Imagino a dificuldade que tem um adolescente dos dias de hoje para entender como uma criança dos anos 50 e 60 poderia ser feliz sem internet, I-Pod, celular, computador, jogos virtuais, TV e até mesmo rádio. Pior ainda se morasse numa pequena cidade nordestina como a Umbuzeiro daquela época: cinema só um filme por mês e parque de diversão no Natal e na festa anual da Padroeira.

Aquela linda cidade tinha Grupo Escolar mas não tinha ensino médio; tinha duas lindas praças embora não tivesse energia elétrica, água encanada, hospital e, sequer um médico.

A eletricidade só chegava às casas e na fraca iluminação das poucas ruas a partir das cinco da tarde, quando um enorme e barulhento motor à diesel era ligado, bem ao lado da nossa casa. Chamávamos o local de “usina” e estávamos sempre por lá durante o dia, aprontando alguma brincadeira. A cidade tinha energia até meia noite quando tudo voltava às escuras após três avisos com piscar de luzes a partir das 23:45. Quando o motor quebrava, quase toda a cidade ia até a usina pra ver o que tinha acontecido e se seria possível consertá-lo sem peças de reposição, o que levaria dias.

Dois ônibus saiam por dia com destino ao Recife: um ao meio dia, e o outro às duas da madrugada, após todos os passageiros serem acordados em suas casas por um funcionário da empresa. Chegava ao Recife às oito e voltava ao meio dia. Hoje esse percurso é feito em menos de uma hora e meia.

Os aparelhos de rádios funcionavam durante o dia ligados a uma bateria dessas de carro, que tinham que ser recarregadas com freqüência, ligadas a um equipamento chamado “tunga”. Seu Valdemir Donato era um dos poucos que dispunham desse aparelho, e nos emprestava sempre que precisávamos.

As casas tinham cisternas (reservatórios para água) que eram abastecidas pelas águas das chuvas durante o inverno através de canaletas colocadas nos telhados. No verão, quando as cisternas esvaziavam, valíamo-nos da saudável água do Orondongo (uma fonte nas  redondezas) que era trazida em ancoretas sobre o lombo do nosso jumento Roxinho, comandado pelo fiel escudeiro “Tõe Dodofinho”.

Mamãe tinha Pupu e Nenén para ajudá-la com a casa, e assim podia dedicar mais tempo aos filhos com os deveres de casa e as deliciosas comidas que preparava. As horas de folga eram preenchidas com brincadeiras que exigiam muito esforço físico como correr de cavalo de pau (um cabo de vassoura com uma fita azul ou encarnada pendurada no “pescoço” e um barbante servindo de cabresto), jogar futebol em casa com bola de meia ou na rua com bola de borracha, entrar nas ruínas da igreja velha (para o nosso tamanho parecia um imenso castelo abandonado) e lutar espadas fabricadas por nós mesmos com uma vara de marmeleiro e uma quenga de coco para proteger a mão. Na ponta colocávamos uma borracha de lápis para não ferir o companheiro.

Fabricávamos nossos próprios papagaios (pipas), caçávamos passarinhos de baleadeira, jogávamos  bola de gude e pião nas ruas de barro, tomávamos banho de chuva sob o comando de papai, quando esta era torrencial, apesar dos gritos de medo de mamãe, assustada com a possibilidade de sermos atingidos por um raio.

Criar filhos numa cidade pequena assim, e naquela época, era um ato heróico. Lembro da calma com que mamãe tratava das nossas feridas ou doenças – como a gripe asiática – apesar do medo estampado nos seus olhos. Quando caiu leite de avelóz nos meus olhos, tratou-os com clara de ovo e muitas orações. Os casos mais graves eram levados para Seo Lula e Dona Nen, os donos da farmácia que, sejamos honestos, eram o médico e parteira de toda a cidade.

Vi, por duas vezes Seo Lula descer a rua principal numa carreira desembestada, enquanto, com a seringa numa das mãos e a injeção na outra, tentava passar o líquido da primeira para a segunda com medo de não dar tempo de salvar o paciente. Foi assim para atender Jacó, que faleceu de angina do peito, e papai, a quem aplicou  cafeína, salvando-o da morte iminente.

Tínhamos futebol aos domingos, vaquejada uma vez por ano, a festa da padroeira, o São João e um excelente carnaval.

Umbuzeiro era uma cidade de amigos. As famílias se presenteavam com freqüência. Se alguém preparava uma deliciosa canjica, aproveitava para retribuir o bolo que ganhara do visinho. Se um tinha geladeira (a querosene), gelava as garrafas de suco para o almoço do amigo que não tinha.

Dona Terta, a melhor costureira da cidade e grande amiga de mamãe, confeccionava nossas roupas, conseguindo uma brecha entre as muitas encomendas, para não deixar ninguém mal satisfeito. As roupas mais simples mamãe mesmo fazia.

O filho mais novo de Da. Terta - Walter Moura Lins - morava em Recife e era baterista da orquestra da TV Jornal do Comércio, e aparecia tocando por partitura durante o programa Você Faz o Show, todos os domingos, para deleite de papai que ficava encantado com alguém que tocava bateria por partitura. Muitos anos depois (1986 - 1988) tive o prazer de ter Warter tocando no meu bar "El Paso" na revitalização da Rua do Bom Jesus.

Seo Acelino Brito costumava nos presentear com a raspa do tacho onde fabricava queijo de manteiga, ou com um prato fundo cheio de queijo quente, ainda derretido. Uma vez este presente chegou na hora do almoço, e mamãe desmanchou no fogo uma “lata” de goiabada com um copo de água e outro de vinho tinto. Inesquecível aquele sabor do queijo e da goiabada ainda quentes, como sobremesa.

Seo Acelino e sua família eram um dos orgulhos da nossa cidade. Era um homem muito alto e forte, alvo e de cabelos grisalhos. Suas filhas eram lindas, com “maçãs do rosto” de causar inveja a qualquer Sophia Loren. Lembro de Adalgisa com sua pele cor de rosa, e de Maria, uma morena clara. Lembro ainda das caras das outras, mas não dos seus nomes. Os filhos homens eram muito fortes e corajosos. A casa da fazenda deles ficava ao lado do cemitério da cidade, e eles nos contavam que brincavam de esconder por entre as catacumbas. Só em saber disso eu já não dormia. Íamos algumas vezes até a fazenda deles, onde colhíamos mel de abelhas e andávamos a cavalo no pelo. Eram todos muito educados e fazem parte das melhores lembranças que guardo daquele tempo.

Aos 13 anos eu estava interno no Colégio Americano Batista daqui de Recife, e recebi de mamãe, por um portador, um grande pedaço de queijo de manteiga da fazenda de Seo Acelino. Acanhado, pois era um dos primeiros meses de internato, guardei o queijo no meu armário, que se destinava a produtos de higiene pessoal e material escolar.

Nos primeiros dias não lembrei de descer com o queijo para o café da manhã nem para o jantar. Abafado no armário, depois de uma semana o cheiro já não era dos melhores, e agora eu já não descia com ele por esse motivo. Os dias foram se passando e o mau cheiro aumentando no dormitório. Chegaram a desratizar todo o colégio achando que era rato morto e que poderia haver uma peste. Quando ameaçaram abrir todos os armários para descobrir do que se tratava, acordei de madrugada e joguei o queijo pela janela, caindo bem ao lado do refeitório. Na manhã seguinte foi o maior comentário: uns achavam que o fedor vinha daquele queijo que já estava ali mesmo; enquanto, outros, mais espertos, entenderam que alguém atirara o queijo do primeiro andar. Passei dias sem poder abrir meu armário com alguém por perto, até o mau cheiro desaparecer.

Éramos imensamente felizes naquela Umbuzeiro.