sexta-feira, 25 de maio de 2007

Com a Bunda Exposta na Janela

Graças à Nossa Polícia Federal.
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De alguns anos para cá, nossa Polícia Federal tem aberto inesperadamente algumas janelas do poder executivo, do legislativo, e por último do judiciário, expondo algumas bundas que se julgavam protegidas por seus gabinetes, suas gravatas importadas, seus carrões de luxo e uma grande rede de comparsas habilitada a correr agilmente em seu socorro, caso necessário. Até mesmo na iniciativa privada era difícil abrir qualquer dessas inusitadas janelas, pois bandidos que permeiam os poderes constituídos interpunham-se entre a mão decidida da Polícia Federal e o ferrolho encalacrado da corrupção, que teimava em impedir a abertura dessas janelas.
O que temos presenciado é um desfile de bundas gordas – pela fartura em que vivem – e macias – pelo conforto dos carrões, mansões e gabinetes em que se afundam – passar todos os dias na nossa telinha expondo suas caras assustadas e escondendo com casacos suas merecidas algemas.
A exposição de bandidos do primeiro, segundo e terceiro escalão dos governos federal, estaduais e municipais virou rotina. É raro o dia que não desfilam assustados diante dos nossos olhares estupefatos. Aos poucos, os incrédulos deputados e senadores passaram a se horrorizar ao verem eles próprios ou seus pares com a bunda exposta na janela das nossas TVs, sempre com as mesmas desculpas: "Sou um homem íntegro! Não tenho nada a ver com tudo isso! Vou me afastar do cargo de ministro para facilitar as investigações que devem ir até o final, doa em quem doer! A prova que não tenho nada com isso é que eu mesmo já havia mandado investigar! Esse lobista, antes mesmo de ser lobista, já era meu amigo há mais de vinte anos!". A casa da qual fazem parte ou presidem – Câmara ou Senado – imediatamente criam mais três ou quatro novas leis para que esses crimes que envolvem milhões de reais, não se repitam. E meses depois tudo acontece do mesmo jeito, apenas com uma roupagem diferente para atender àquelas novas leis, criadas de forma a permitir novas investidas. Quando a pressão da opinião pública é mais forte, criam uma CPI e combinam quais os que vão ser punidos, e esses, geralmente, são os que não dispõem de dossiês contra o passado dos demais. Mesmo estes escolhidos para "bode espiatório" podem renunciar, sabendo de antemão até qual dia e hora poderão faze-lo. São todos bandidos... bandidos mesmo, de alta periculosidade com o agravante da covardia, porque temem mostrar suas caras e tremem diante da possibilidade de expor suas bundas aos disparos da polícia como faz a maioria dos seus colegas das periferias e favelas.
De alguns anos para cá, temos tido diversas oportunidades de conhecermos também as bundas do judiciário. São alvíssimas porque nunca foram expostas e se enrubescem com muita facilidade diante de qualquer escândalo que as envolvam, porque sabem que não apenas sua família e seus amigos, mas toda a população do país ficará incrédula e perderá mais uma vez as esperanças. Advogados são flagrados pagando propinas a policiais para verem seus clientes soltos e abastecem com drogas e celulares seus clientes que encontram-se nas penitenciárias. Promotores de justiça, juizes, desembargadores, ministros dos tribunais superiores, todos envolvidos em atos ilícitos da maior crueldade para com esse povo sofrido, pois em troca de grandes somas de dinheiro ou de mimos – leia-se suborno através de caríssimos presentes – vendem sentenças, devolvendo às ruas corjas inteiras de malfeitores que vão continuar minando os recursos desse nosso país que poderiam estar sendo aplicados em unidades neo-natais, bolsas de estudo ou medicamentos mais caros para pacientes do SUS.
Nosso melhor programa de TV passou a ser as atuações espetaculares da nossa Polícia Federal, com suas armas modernas, sua indumentária negra, seus carros também negros dirigidos com destreza, suas operações envolvendo tantos inescrupulosos figurões públicos e privados e mantidas no mais absoluto segredo até as primeiras horas da manhã, quando são retirados das mansões em que vivem, compradas com nosso dinheiro, e seus carrões e iates apreendidos e transferidos em carretas cegonhas para Brasília. Após as primeiras prisões, é tragicômico assistirmos os depoimentos dos seus advogados irritados com a autoridade policial por haver enjaulado de forma tão espetacular pessoa tão íntegra. Dias depois, ao assistirem na mesma janelinha onde suas bundas desfilaram, transcrições das conversas telefônicas gravadas em abundância por nossos heróis, mudam o tom e não são encontrados.
Após esta última grande operação da Polícia Federal, que recebeu o nome de "Navalha", eles todos, dos três poderes, mais juristas de renome e até a Ordem dos Advogados do Brasil, berram num uníssono coro contra a eficácia dos nossos policiais, tentando levantar a opinião pública contra eles, argumentando que estão querendo transformar o país num estado policial e fascista. Por que não chamaram a Itália de fascista durante a operação "mãos limpas"? Quem disse que não é justamente isso que o povo brasileiro tanto esperava ver: bandidos de todos os calibre presos da mesma maneira, de surpresa, diante das câmaras e dos holofotes, algemados e rebocados para a delegacia dentro de camburões.
Os excessos não são da nossa Polícia Federal, os excessos são de bandidos engravatados distribuídos em todos os setores da vida pública brasileira que se rendem diante de qualquer suborno oferecido por empresários que enriquecem da noite para o dia às custas da mesquinhez de caráter desses criminosos travestidos de "autoridades" e do sofrimento do nosso povo.
Viva a nossa Polícia Federal.
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terça-feira, 22 de maio de 2007

Boa Noite, Morte.

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Esperei anoitecer para levar o vigia Isaac para o Farândola. Seria sua primeira noite de trabalho para mim.
Nos últimos trinta dias o barzinho vinha sendo arrombado semanalmente. Levaram algumas garrafas de cerveja na primeira investida; na segunda resolveram atacar também a cozinha, e levaram algumas porções de carnes; na terceira, alguns litros de bebidas quentes; até que, na última sexta-feira – anteontem - quando chegamos para preparar o bar para a grande noite da semana, percebemos que haviam levado quase tudo: todas as porções de carnes, todas as bebidas geladas, todos os litros de bebidas quentes, todos os copos (que já eram poucos), todos os talheres e alguns utensílios de cozinha, dois botijões de gás, umas dez cadeiras brancas de plástico e, o que me deixou realmente irritado: quinze cadeiras francesas que vieram do “El Paso” e que não existem mais no mercado, pois foram importadas em número de cem exclusivamente para aquela casa noturna.
. Já eram dezoito horas quanto saí em disparada para repor os produtos e utensílios pelo menos em quantidade indispensável para que o bar funcionasse naquela noite. Como sempre, tivemos um excelente movimento, e o que não deu para repor, era pacientemente justificado a cada cliente, que se solidarizava e trocava o pedido por outra bebida ou outro petisco.
No sábado, antes de fazer as compras para o Farândola, passei primeiro na delegacia de Casa Caiada para prestar queixa do arrombamento. Quando já estava sendo atendido pelo Comissário, meu funcionário Júnior, que resolvera por conta própria e de bicicleta, fazer uma visita a cada loja de objetos usados na área do Varadouro, ligou me avisando que encontrara as cadeiras francesas em uma delas. Feliz com a notícia liguei pro meu filho Rudy, que tomou as providências junto à Polícia Militar, possibilitando assim a prisão em flagrante do receptador, bem como a apreensão das cadeiras. Fomos todos para a delegacia e só fui liberado por volta das dezesseis horas. Foi muito duro enfrentar outra madrugada sem o cochilo da tarde que dura umas três horas, e complementa as duas horas que durmo após chegar do bar. Já há uns dez anos que me contento com apenas cinco ou seis horas de sono por dia.
Saí do Farândola naquela madrugada de domingo com o dia quase que amanhecendo e determinado a levar um vigia para lá pernoitar durante toda a semana. Ofereci a vaga a Isaac, vendedor de macaxeira em frente ao mercadinho “Bom Marche”, que me solicitava um emprego quase todos os dias.
Quando descemos do carro, percebi que a janela da cozinha estava escancarada e a tampa do freezer levantada. Fiquei muito puto porque entendi que esse arrombamento não havia sido feito à noite como os anteriores, e apenas um dia após o último assalto. Dentro da cozinha, bem próximo à janela que encontramos aberta, estavam as últimas seis cadeiras brancas que restavam de um total de trinta, já empilhadas. Percebi então que eles voltariam para concluir o trabalho. Não quis ligar para Rudy, pois ele estava nos Aflitos assistindo o jogo do Náutico contra o São Paulo. Liguei então para Júnior, o gerente do Farândola, e ficamos os três no parque defronte ao bar, entocados, aguardando que voltassem. Por volta das onze da noite percebemos que dois homens aproximavam-se do bar de forma desconfiada, olhando para os lados e seguindo pelo canto do muro que contorna uma pracinha. O primeiro entrou imediatamente e pulou a janela que deixamos aberta como a encontramos, enquanto o outro despistava, fazendo de conta que utilizava o “orelhão”. Logo em seguida, também entrou no terraço e começou a receber do outro as cadeiras que deixaram empilhadas. Enquanto eu ligava para o posto da PM na Ribeira, enviei Júnior de bicicleta até uma viatura que já estava de sobreaviso. Eu ainda estava na ligação com a policial quando a primeira viatura encostou rapidamente em frente ao bar. Eu e Isaac corremos em sua direção e fui logo gritando que os dois estavam lá dentro. Armas em punho e com os holofotes ligados, prenderam o primeiro deles, que fingia estar dormindo no terraço. Não me contive: caí em cima do cara agindo como meus ancestrais de milhares de anos atrás, só saindo de lá puxado pelos policiais e por Júnior que rasgaram toda minha camisa para consegui-lo. Reviramos todo o bar e não encontramos o outro. Os policiais subiram no telhado, olharam dentro da caixa d’água, na casa da vizinha... e nada. Outra viatura chegou sob o comando da tenente Vivian, e mais uma vez tudo foi revirado, agora de forma meticulosa como só as mulheres sabem fazer. Não acreditávamos que ele conseguira escapar. O que foi preso, confessou que o seu comparsa, era o flanelinha que eu permitia usar o terraço do Farândola para dormir, depois de passar a noite guardando carros no Clube Atlântico ou em outras festas das redondezas.
Costumo dar essas “confianças”, e são raras as vezes que não “quebro-a-cara”. As vezes em que tudo termina bem, acabam por compensar as decepções, alimentando assim minhas esperanças de que ainda pode ser possível acreditar na sensatez das pessoas. Pena que sejam tão poucas essas vezes.
Esse “flanelinha” estava dormindo no terraço do Farândola já há uns seis meses. Quando eu chegava nas sextas-feiras ou nos sábados por volta das dez horas da manhã com as compras para a noite, procurava abrir a porta sem fazer barulho para não acorda-lo. Quando ele acordava assim mesmo, dava-lhe uns trocados para descarregar o carro. Desde o primeiro arrombamento que procurava saber dele se não ouvira nada e me respondia sempre que não, que devia ter sido num horário em que ele não estava por lá. No arrombamento imediatamente anterior, o da sexta-feira, meu filho interrogou-o, e ouvimos ele dizer que chegara a ver dois elementos – palavras dele – dentro do bar, sendo um moreno alto (o que prendemos) e um outro galego, também alto (seu próprio biótipo).
Chegamos mais uma vez à Delegacia de Casa Caiada, agora por volta dos trinta minutos da segunda-feira. Algemado, cabisbaixo, sem camisa (no dia seguinte encontrei-a no terraço do bar), recebeu ordens para sentar no chão, voltado para a parede. Enquanto os PM’s preenchiam seus relatórios, um policial civil aproximou-se dele e percebeu que defecara na já imunda bermuda que vestia. Apanhou um sabão e ordenou-lhe que tomasse um banho e lavasse a bermuda, alertando-o que, se voltasse fedendo, iria ter uma conversa com ele. O outro policial militar que não estava preenchendo papéis, ficou à porta do banheiro ensinando-lhe como devia proceder para retirar toda aquela sujeira que havia sobre sua pela e na sua bermuda, enquanto o vigiava para que não pulasse pela pequena janela do banheiro.
Aos poucos as viaturas iam chegando com os casos mais diversos. Dois traficantes apanhados com alguns “papelotes” ficaram aguardando a vez de serem autuados. O estado de um deles era deplorável. Via-se que recebera educação e que estudara, mas, o estado das suas roupas, dos seus dentes, os seus tênis com a parte de cima completamente descolada da borda, só serviam de moldura para o seu semblante de desolação e medo. O policial civil que mandara o “meu” bandido tomar banho, aproximou-se do traficante e ordenou que tirasse o chapéu (boné) que usava. Ele tirou e depois o colocou outra vez. Recebeu um “pescoção” e a mesma ordem aos gritos: “Aqui dentro você fica sem chapéu! Entendeu?”
A tenente Vivian que passava em frente à delegacia, vinda de uma diligência, aproveitou para entrar e perguntar como estava o caso do arrombamento do bar. Foi muito gentil em demonstrar interesse na oficialização do caso e me fez rever meu conceito sobre a presença das mulheres na Polícia Miliar.
Os casos mais simples eram passados à frente do nosso. Por volta das duas horas chega um homem desesperado, dizendo que assaltantes estavam causando terror logo depois do Shopping Tacaruna, assaltando os veículos que passavam, valendo-se de armas pesadas para isso. Uma viatura da Civil saiu em disparada com quatro policiais em direção àquela barreira, seguida pelo denunciante que, enquanto estivera na delegacia, lastimara-se por não estar armado como sempre costuma estar, e que, na granja da sua família, casos assim são resolvidos na bala por eles mesmos, e que já matara quatro, fora os que os outros da sua família já mataram. Cheguei a pensar que ele seria preso por confessar esses assassinatos, mas nada aconteceu.
Às três da madrugada chegou a nossa vez. Eu, Júnior e Isaac contamos nossas histórias e depois foi a vez de Alexandre – era esse o nome do arrombador, que não portava documentos e não sabia a data de nascimento, apenas que tinha uns trinta anos.
Enquanto Júnior e Isaac prestavam seus depoimentos, fiquei sentado ali naquela primeira sala da delegacia, ao lado de tantas outras vítimas e de tantos outros “marginais”.
Quando foi perguntado por um policial curioso, sobre sua vida, Alexandre complementou os dados, dizendo que morava com sua “mulé”, que trabalhava como “catador” no lixão de Aguazinha, e que conhecia um policial de nome tal, o que causou revolta em quem lhe fizera a pergunta, que lhe repreendeu gritando: “Não bote nenhum “cana” nessa história não! Garanto que não foi ele que mandou você arrombar bares por aí!”
Meu olhar sobre ele agora, trazia-me lágrimas, como estas que me chegam agora diante do monitor. Que chance de uma vida melhor, com alguma dignidade, algum carinho e respeito tivera esse desgraçado? Junto ao seu primeiro nome, havia apenas mais um: o sobre-nome da sua mãe. Minha mão direita, agora estava inchada, cortada e extremamente dolorida. Apesar de haver agido por impulso, desprezava-me pelo que fizera ao flagra-lo no bar. Quem era realmente o culpado de tantas diferenças e de qual dos lados eu estava?...
Uma outra viatura chegou trazendo dois policiais civis que acabaram de assassinar um assaltante que fora agir no bar onde eles estavam bebendo. Meia hora depois chega a família de um dos policiais e o advogado do outro: era um homem de idade avançada, careca, com orelhas enormes e o mais afastadas da cabeça possível; tinha ombros muito largos, era alto e estava usando uma calça de tecido grosso muito bonita, uma camisa preta como sua gravata e seu paletó. Lembrava muito aquele grandalhão mais velho da “Família Adams”. Imediatamente começou a preencher o pedido de “hábeas corpus” para que fossem para casa.
Alexandre, depois de prestar depoimento, subiu para a cela que fica no primeiro andar da delegacia, e em seguida seria encaminhado à penitenciária.
Saímos de lá às cinco e meia da manhã e eu tive um dia horrível, com mais questionamentos que o normal. Não consegui sair de casa nem pra ir trabalhar na obra do novo endereço do Farândola, que tanto tem me motivado.
Durante meu depoimento, fiquei sabendo que o comissário de plantão no dia anterior, quando lá estivemos para lavrar o flagrante do dono da loja que receptara minhas cadeiras francesas, não preenchera sequer o “Boletim de Ocorrência”, havendo liberado aquele bandido mais grã-fino, por motivos que não terá coragem de contar pra ninguém..
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quarta-feira, 16 de maio de 2007

Bom Dia, Vida!

O borracheiro "Borracha"
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Pin
eu
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O home educado
Não fala fiado
Não cospe no chão
Não fala palavrão.
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Ontem foi o segundo dia das obras onde será o novo endereço do Farândola. Iniciei-as assim mesmo, quase sem grana nenhuma, dependendo ainda do financiamento do meu Uno 96 para minha querida Nadja.
Passaria apenas rapidamente por lá e em seguida cumpriria dois compromissos em Recife: o primeiro foi uma reunião na Nobel, onde acertamos uma interessante parceria, e o segundo, levar meu compadre e grande mestre de obras Lourenço até a reforma, para dicas muito importantes que serão muito bem aproveitadas durante esses próximos dois meses.
O percurso entre minha casa e a obra fica mais curto se feito pela PE 15, principalmente se utilizar a “perimetral” que liga Jardim Atlântico àquela rodovia estadual. Logo no início percebi que o carro balançava um pouco, num ritmo que era mais rápido ou mais lento de acordo com a velocidade do carro. Lembrei-me que um dos pneus traseiros estava nas últimas e que, com o início das obras naquela situação de penúria, não seria o melhor momento para comprar sequer um “meia vida”, como costumo fazer, pois isso me custaria no mínimo cinqüenta reais.
Ao passar por uma pequena borracharia que fica ainda na perimetral, resolvi saber se eles não teriam algum pneu usado por um preço mais acessível, para que num outro dia, quando estivesse com mais grana eu o comprasse. Assim que fui parando o carro, um homem de grande porte, com braços e pernas muito fortes e pés imensos, largos nas extremidades como os de Justino, aproximou-se. Justino foi um morador das cercanias de Umbuzeiro-Pb, que papai costumava contratar para serviços muito pesados e insalubres como carregar grandes pedras ou limpar a fossa, e que, por nunca haver calçado um sapato ou alpercata em toda a sua vida, tinha pés imensos e com quase vinte centímetros do dedão ao mindinho.
Após ouvir um alto e sorridente “Bom dia!” perguntei, sem descer do carro e sem conseguir reproduzir aquele sorriso, se ele não teria um pneu usado, em bom estado, para um cliente sem dinheiro. Imediatamente deu meia-volta e retornou com um pneu nas mãos e disse: - “Tome! Pode levar!”
- Mas, quanto vai custar? Perguntei...
- Não vai custar nada! Você “num tá” sem dinheiro?!”
Desci do carro e, mais desconcertado do que satisfeito, expliquei que estava rodando sem pneu de suporte já há uns oito meses, e que agora o carro estava balançando muito, deixando-me assustado com a possibilidade de ter que abandona-lo em plena via pública, qualquer madrugada dessas, já que um dos traseiros estava nas últimas.
Rapidamente ele examinou os dois pneus e deu o diagnóstico: - Nenhum dos dois presta mais pra nada. Vou buscar outro.
- E trouxe outro pneu tão bom quanto o primeiro, fazendo questão de explicar que aqueles dois não eram descartáveis como os que eu estava utilizando. Eram mais antigos, e não se deformariam ao passar sobre uma pedra maior ou bater num meio-fio. Com uma rapidez impressionante colocou o macaco sob o eixo traseiro, levantou o carro e retirou os dois pneus. Levou-os para uma pequena área de trabalho em frente à porta da borracharia e, com aquelas espátulas enormes e uma grande marreta de borracha, retirou os pneus das jantes, após esvazia-los e saltar com as pernas abertas sobre eles. Passou óleo queimado nas jantes e nas bordas dos pneus, enchendo-os e calibrando-os em seguida. Com a mesma rapidez colocou-os de volta, exclamando em seguida: - “Abre o “capus” aí!”
- Ao ver que o local para o pneu de suporte estava ocupado por um em frangalhos e esvaziado, com as ligas metálicas partidas e expostas, saiu rapidamente até o interior da pequena barraca e voltou com outro pneu nas mãos. Este estava mais gasto, não era um 175-70-13 como os dois primeiros, mas dava pra rodar bem no Fiat. Rapidamente colocou-o na roda e depois em seu devido lugar, olhou pra mim e concluiu: - Pronto, chefe! Você agora tá calçado!
Eu não tive o que fazer... Peguei a única nota de cinqüenta que tinha no bolso e entreguei a ele, dizendo: “Tome! Esta é a única que tenho! Se der pra sobrar alguns trocados, melhor ainda!” Ele entrou na barraca, depois voltou correndo e disse-me: - Espere um pouco que eu vou trocar na padaria.
Voltou com dez reais para mim e ouviu-me dizer carinhosamente: “Você é um homem bom... Qual o seu nome?
- O senhor também é uma pessoa boa, doutor... Meu nome é Ricardo, mas pode me chamar de “Borracha”.
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quarta-feira, 9 de maio de 2007

Chove Sobre o Rio de Janeiro, e Aproxima-se Uma Tempestade.

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A chuva incessante de balas de todos os calibres que parece cair dos céus sobre os cariocas que moram nas favelas ou em suas cercanias, poderá parecer uma simples garoa, se comparada à tempestade que se aproxima com atentados a órgãos públicos, queima de ônibus, fuzilamento de delegacias e execução de policiais, se concretizada a transferência para a cidade do Rio, dos doze bandidos de alta periculosidade que serão trazidos de uma penitenciária de segurança máxima do Paraná, por ordem da nossa exemplar e zelosa justiça.
Essa chuva de balas, intensificada ainda mais na Vila Cruzeiro que fica dentro do Complexo do Alemão, está evidente que não passa de traficantes e seus capangas com armas silenciosas atirando contra a população civil, na tentativa de criar um movimento de revolta dos moradores contra a presença maciça de policiais naquele reduto de marginais. Essa presença deve-se a uma reação da Polícia Militar daquele Estado depois do assassinato de mais dois policiais em emboscada.
O desrespeito e a certeza de impunidade é tão grande que os marginais constroem uma nova barricada de concreto toda vez que a anterior é removida, impedindo assim o livre acesso da polícia aos locais onde se encontram entrincheirados.
Se essa demonstração de força e de desrespeito com a população e as autoridades cariocas, não foi capaz de justificar a permanência daqueles doze perigosos bandidos na penitenciária onde se encontravam, ou em outra do mesmo nível de segurança, pelo menos a proximidade dos Jogos Pan-americanos deveria ter influenciado nessa desesperançosa decisão do ministro Paulo Galotti do Superior Tribunal de Justiça.
Ontem à tarde, mais dois policiais – um civil e outro militar – foram assassinados com mais de oitenta disparos por quatro homens encapuzados, elevando para cinqüenta e sete o número de policiais mortos em emboscadas nesses primeiros meses de 2007 no Rio de Janeiro.
A tempestade que se aproxima, ainda poderá ser contida pela medida judicial que está sendo estudada pela 3ª Promotoria de Execuções Penais do Ministério Público, na tentativa de derrubar a decisão do “sábio e sensível ministro”.
Trazer os “cabeças” do crime organizado do Rio de Janeiro para junto de suas quadrilhas, é apostar na desordem e na barbárie generalizada.
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Ontem, 17.05.07, a justiça concedeu liminar que impede a trasferência dos bandidos para o Rio de Janeiro, até que seja julgado o mérito.
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sexta-feira, 4 de maio de 2007

O Dr. Paulo Medina - do TSJ - e o Monstro Champinha - da Febem.

Todo cuidado é pouco, para não misturarmos
"alhos" com "bugalhos".
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Ao meu querido irmão Luiz Carlos...
homem sensível e atento a todas essas injustiças.
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Enquanto Champinha nascia em 1987 em Embu-Guaçu e era registrado como Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Doutor Medina já possuía uma imensa folha de bons serviços prestados ao povo brasileiro e, conseqüentemente, à humanidade.
Champinha engatinhava nu entre sobras de macaxeira trazidas da roça por sua mãe e entre garrafas de cachaça esvaziadas em um único dia por seu pai, enquanto o Doutor Medina já amealhara em seu passado, títulos como o de Presidente do Diretório Acadêmico da sua faculdade, Presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal De Juiz de Fora, Monitor das cadeiras de Direito Administrativo e Constitucional, Orador da sua turma da Faculdade, concomitantemente com o mandato de vereador e Presidente da Câmara Municipal de Rochedo de Minas. Tudo isso entre os anos de 1961 e 1966, quando tornou-se Bacharel em Direito e fez os cursos de "Especialização em Ética e Pedagogia" e "Técnica de Comunicação e Expressão". Prestou exames para a OAB-MG em 1966 e tornou-se advogado, onde exerceu a profissão por dois anos.
Nesses vinte anos que ainda faltavam para o nascimento de Champinha, o Doutor Medina foi aprovado no concurso para Juiz de Direito em Minas Gerais, onde foi Juiz das Comarcas de Ervália, Camanducaia, Santos Dumont, Conselheiro Lafaiete e Belo Horizonte; Juiz-Diretor do Foro Eleitoral de Belo Horizonte, Juiz do Tribunal de Alçada da Segunda Cível e da Primeira Criminal onde foi Presidente. Simultaneamente, foi aprovado em Concurso Público para Professor de Direito Judiciário Penal da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora; Professor de Direito Penal da Faculdade de Direito de Barbacena; Professor de Direito Penal e de Direito Civil da Faculdade de Direito de Conselheiro Lafaiete; Diretor da Faculdade de Direito de Conselheiro Lafaiete e Professor de Direito Civil da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
No tempo em que o Doutor Medina, dava seqüência à sua brilhante carreira de Magistrado presidindo as Câmaras Criminais do Tribunal de Alçada, e Vice-Presidindo o próprio Tribunal de Alçada, sendo ainda Desembargador do Tribunal de Justiça da Quarta Câmara Cível, da Segunda Câmara Cível da Segunda Câmara Criminal e Presidente da Terceira Câmara Criminal, Champinha crescia na periferia da periferia, ao lado do pai alcoólatra que espancava sua mãe todos os dias, quando esta voltava da roça. A necessidade de permanecer em casa ao lado do pai viciado, associada aos maus tratos e à fome, desencadearam problemas mais graves de saúde que lhe faziam convulcionar freqüentemente.
Certamente, pelo brilhantismo com que desempenhava suas múltiplas e honradas funções, inclusive as de Magistrado, o Doutor Medina tornou-se Membro do Conselho Superior da Magistratura, Membro da Corte Superior, Vice-Corregedor Geral de Justiça, Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, Corregedor-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais e integrante, por três vezes, de lista tríplice para Ministro do Superior Tribunal de Justiça; Membro do Conselho Superior da Magistratura e Membro da Corte Superior.
Os problemas de saúde que provocavam convulsões em Champinha, agravaram-se por falta de medicamentos e cuidados, o que o levaram a abandonar a escola no terceiro ano primário e ganhar as ruas e desfrutar da liberdade que aquela vida oferecia, sobrevivendo de esmolas pedidas nos sinais de trânsito e dos primeiros favores para as quadrilhas de bandidos que aterrorizavam Embu-Guaçu. Aos 14 anos, matou a tiros e facadas um caseiro, conhecido por Bin Laden, em uma discussão pela posse de uma galinha que lhe mataria a fome. Os primeiros sinais de insanidade começaram a aparecer: Sempre com um facão na cintura, ele se impunha na região pelo medo que transmitia aos vizinhos. Assaltava e não ficava satisfeito em levar carteiras, bolsas e relógios. Aterrorizava suas vítimas fazendo roleta-russa – colocava a arma na cabeça da pessoa, girava o tambor com apenas uma bala e depois apertava o gatilho. Chegou a cortar parte do dedo de um comerciante que se recusou entregar o dinheiro do caixa durante um assalto.
Enquanto isso, a sociedade brasileira sentia-se protegida pelo Doutor Medina que agora juntava ao seu currículo os títulos de Presidente da Associação dos Magistrados Mineiros – AMAGIS; Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros – AMB e Presidente da Federação Latino-Americana de Magistrados – FLAM.
Por sua vez, Champinha dava entrada inúmeras vezes na Febem, donde conseguia fugir após comandar rebeliões internas chamadas de “cavalo doido”, voltando às ruas, ao abandono, ao crime, cada vez com mais ousadia e descontrole.
O Doutor Medina agora publicava diversos artigos em revistas e periódicos especializados, além do livro "Cidadania só com Justiça "sobre as relações do Poder Judiciário com o poder político e a sociedade. A partir de 2001, tornou-se Ministro do Superior Tribunal de Justiça como Membro da 3ª Seção e da 6ª Turma.
Ao mesmo tempo em que o Doutor Medina seguia sua inexorável escalada rumo ao Supremo Tribunal Federal, Champinha cometia um brutal assassinato com tortura e estupro da estudante Liana Friedenbach, 16 anos, morta com 16 facadas após ter seu corpo desfigurado. Depois de assassinada, Champinha violentou-a durante quatro dias. O mesmo destino teve seu namorado Felipe Silva Caffé, 19 anos, assassinado primeiro, pelos seus comparsas nesse crime.
A idéia de seqüestrar a jovem e de matar Felipe foi de Champinha, com dezesseis anos à época. Alguns dias após a morte de Felipe, Champinha viu que não seria possível levar o seqüestro adiante e mataram a jovem. - "Para conversar com esse sujeito (Champinha), é preciso ter um estômago de aço", disse o delegado Balangio. O menor disse ao delegado que matou Liana porque "deu vontade".
Champinha foi levado para a Febem - hoje Fundação Casa - em novembro de 2003. Os funcionários que lá trabalhavam, foram sumariamente demitidos juntamente com o diretor da unidade Vila Maria, após a fuga de Champinha no dia 02.05, apesar de recapturado no dia seguinte - anteontem. Esses funcionários, que custodeavam oitenta internos de alta periculosidade, souberam, muito antes do julgamento dos comparsas naquele crime brutal, todos os detalhes da violência sexual sofrida por Liana. Afinal, Champinha repete a história quase todos os dias, para quem quiser ouvir. - "Mesmo depois de morta, fiz de tudo com ela", costuma dizer. Essa é uma de suas frases preferidas diante de sua atenta platéia, a quem narra com minúcias o que fez durante os quatro dias em que violentou a jovem e desfigurou seu cadáver. - "É muito nojento ouvir essas barbaridades", diz uma das funcionárias da unidade. Segundo ainda esta funcionária: - "Com outros infratores, mesmo perigosos, é possível ainda conversar, mas com o Champinha não tem jeito. Ele é uma pessoa sem escrúpulos, sem noção do respeito ao próximo. Não tem a menor capacidade de viver em sociedade. Prova disso é que vive fazendo ameaças às funcionárias: - Quando pegar você lá fora, acabo mesmo".
Em julho do ano passado – 2006 - bastou a educadora da Febem se distrair no meio do pátio, e Roberto Aparecido Alves Cardoso – Champinha - agora com 19 anos, passou a mão em sua genitália. Indignada, ela o esbofeteou. Ele tentou revidar, mas foi seguro por outros dois funcionários. Os demais adolescentes internos entraram em alerta. "A senhora não pode bater em vagabundo", berravam. Depois do tapa, para acalmar os ânimos, a funcionária teve que "bater a fita" com os colegas de Champinha - ou seja, explicar o que tinha acontecido. Eles estavam indignados com a bofetada que o líder do grupo havia levado. Mas, para sorte da educadora, um dos internos tinha presenciado a cena e contou para os demais. Os demais infratores foram então pedir pra Champinha não fazer mais aquilo.
De acordo com os especialistas do IML, "Champinha revela uma personalidade imatura e egoísta. Suas vontades estão acima de tudo e de todos, não aceita esperar nada, quer todas as gratificações e satisfações do desejo imediatamente. Age por impulso. Não se importa com as conseqüências de seus atos. "É pessoa que, pelo distanciamento afetivo e emocional que toma frente ao mundo e principalmente frente aos demais, atua de forma arrogantemente impositiva quando lhe convém, e até simbiótica, juntando forças e atos irracionais para obter o que deseja, sem dilema e sem culpa", conclui o laudo.
Esta tem sido a vida desse criminoso capaz de executar de forma tão bárbara adolescentes indefesos. Estas são as suas conquistas, os seus troféus.
Já o Doutor Medina, por sua vez, tem, entre Condecorações, Títulos e Medalhas: a Medalha de Honra da Inconfidência; Medalha Santos Dumont, grau Ouro; a Medalha Ordem do Mérito, pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais; o Colar do Mérito Judiciário do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais; o Colar do Mérito Judiciário do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro; a Comenda José Maria Alkimin do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais e os Títulos de Cidadania Honorária de Belo Horizonte, Juiz de Fora, Conselheiro Lafaiete, Caxambu e Santa Bárbara.
Apesar dessa execução, tortura e abusos, não creio que se pudesse esperar outra coisa de um adolescente com esse perfil de insanidade e essa história de vida. Aqui, temos que fazer a pergunta: Onde estava o Estado Brasileiro, a sociedade brasileira e os magistrados brasileiros? Quem criou esse monstro horripilante e asqueroso que todos desejamos ver esfaqueado dentro do internato para onde for enviado como fera indomável? O caso de Champinha é apenas mais um entre centenas na história criminal brasileira. Não é o primeiro e está muito longe de ser o último, pois, a cegueira provocada pela vida luxuosa; a insensatez proveniente da vaidade com bens excessivos; a frieza que vem com o orgulho pelo nome de família e pela cor da pele, fertiliza com "Champinhas" os ventres de milhares de meninas adolescentes em todas as periferias das periferias. Continuarão nascendo às dezenas, centenas e depois milhares, e descarregarão todo o seu ódio contra inocentes e culpados dessa sociedade insensível.
Mas, e o Doutor Medina? Um homem do outro lado. Do lado dos vaidosos por seus inúmeros títulos; dos orgulhosos pelo nome de família e pela cor rosada das suas bochechas; dos que adquiriram respeitabilidade e acham que esta, adquirida, é superior à respeitabilidade inerente a todo ser vivo; dos que sentam no assento traseiro dos carros oficiais e se acham maravilhosos porque dão bom dia ao seu motorista e, vez por outra, lhes oferecem uma camisa usada, dizendo: “quase não vesti!”... O que dizer desse pobre coitado que, após escrever o livro “Cidadania Só Com Justiça”, de ter feito o Curso de "Especialização em Ética e Pedagogia", e de ter um currículo invejável desses, não foi capaz de resistir à mesma tentação que move Champinha, ou seja: conquistar mais prazer a qualquer preço. Champinha, também coitado, nunca sentiu nenhum prazer em estar vivo, a não ser os oriundos das suas masturbações e de alguma transa com outra colega de infortúnio, suja, em frangalhos e fedida.

Mas, ao Doutor Medina, a quem não faltou o aconchego de uma família ajustada, boas escolas, excelente alimentação e o que toda criança adora: guloseimas, acompanhamento médico permanente e remédios ao menor sinal de desconforto, lhe foi dado pela "justiça social" o privilégio de ver todos os seus desejos transformados em prazer com muita facilidade.
O que se passava na cabeça de Champinha, entre uma convulsão e outra, ao parar momentaneamente diante de um aparelho de TV em alguma loja e constatar o luxo das casas e a felicidade do povo que no interior delas aparece, tudo retratado com tanta exatidão pelas nossas novelas?... O que imaginava, ao verificar que aquele povo existe de verdade e passa todos os dias ao seu lado, dentro dos seus carros cada vez mais difíceis de se ter acesso, e nem sequer olham para ele?... Acho que ele pensava alguma coisa como:... “Porque eu sou assim? Porque minha querida mãe vive assim? Porque eu sou pobre e não tenho direito a nada disso? Quem, e quando, decidiu que eu seria assim e eles assim ? E quando seus dentes doíam, sua barriga roncava de fome, seu corpo se acercava dos colegas nas madrugadas frias para impedir o frio, e aqueles carrões continuavam passando com pessoas lindas e sorridentes... o que passava em sua cabeça entre uma convulsão e outra?...
O Doutor Medina deve saber muito bem pois, além de passar por ele ou por outros milhares desses seres desgraçados todos os dias, ainda escreveu um livro sobre essa injustiça. Ele é um daqueles que, ao vê-los, tentam fugir da idéia de ver todos aqueles miseráveis mortos num passe de mágica; que habitam as melhores e mais seguras residências, eletrônicamente protegidas contra o horror que vem da periferia da periferia; que usam togas negras para demonstrar àquela escória social o quanto são honrados, "perigosos" e diferentes; que têm o poder de tomar decisões que poderiam, efetivamente, ajudar aos Champinhas da vida a serem acolhidos por ela com respeito, carinho e dignidade, se isso não lhes custassem um pouco do luxo que exibem a seus iguais, numa competiçao grotesca e nauseante.
Pois é! O Doutor Medina, apenas por dinheiro e o que este lhe poderia acrescentar de excessos, igualou-se a Champinha. Apenas aparentemente, seu crime é menos horroroso que o do outro monstro. Quantas outras sentenças ele não negociou escondido atrás da pessoa do seu irmão que agora levará toda a culpa? Quantos Champinhas ele não ajudou a fecundar e que ainda irão nascer? Quais os maus tratos, a fome, o olhar de desdém, o abandono, as convulsões que o Doutor Medina já viveu e que lhe conduziram a cometer tamanho crime? Quantos outros crimes medonhos serão cometidos por suas sentenças vendidas e apenas os executores receberão o tratamento de besta?
O crime de Champinha não é menos brutal, mas é menos vergonhoso.
Champinha é um doente mental que assassina pessoas no “varejo”, movido por impulsos incontidos que nunca foram tratados. Enquanto o Doutor Medina, apenas por algum dinheiro a mais, foi capaz de trair a confiança dos seus "semelhantes" e de toda a sociedade brasileira. É um criminoso no “atacado”. É uma besta de bochechas cor de rosa que receberá - caso a sindicância promovida pelo mesmo Tribunal onde trabalha venha a condená-lo - a pena de aposentadoria compulsória, com seus vencimentos integrais.


Champinha continuará sendo esse monstro nascido nas trevas da periferia, e que acabará assassinado por policiais ou por um dos seus "irmãos de desventura".

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terça-feira, 1 de maio de 2007

Eu Fiz os Sushis e Saloca Trouxe a Erva.

Fazendo uma das coisas que mais gosto:
preparar sushis para pessoas queridas.
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Aos queridos amigos, Saloca, Lili, Lulu e Bebel.
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Conheci Saloca (Salomão) através do orkut das minhas queridas amigas Lili (Liliana Miranda) e Lulu (Roberta Luiza). Recado vai, recado vem, e já nos sentíamos bons amigos. Nos meus recados enfeitava os textos sempre com alguma coisa como “Baaaahhh Tchêêêê!!!”, enquanto ele não deixava por menos e vinha de lá com: “Oxente bichim! Como vai essa terrinha arretada?!” Logo-logo senti que o clima entre ele e Lili começou a esquentar. Os recadinhos passaram a ser mais carinhosos e daí para um encontro no Rio de Janeiro, que é mais ou menos a metade do caminho para ambos, foi questão de semanas. Lulu não recusou o convite e voou para a cidade maravilhosa também. Foram dias maravilhosos... Inesquecíveis mesmo, segundo relato de todos eles. Apenas um mês depois desse primeiro encontro, sou surpreendido nesse último sábado no Farândola com Lili e Lulu e ninguém menos que o gaúcho Saloca. Foi a minha vez de conhece-lo pessoalmente e constatar o porquê do entusiasmo delas duas. Com os trabalhos de uma noite de sábado no bar, nem pude dar a atenção que gostaria de ter dado. Combinamos então que na terça feira seguinte, hoje, dia do trabalho, eu e Nadja os receberíamos para uns drinques e um churrasquinho. Passamos a tarde e a noite da segunda feira – 30.04 - adiantando as comidinhas que acompanhariam o churrasco e dando os primeiros passos para servir-lhes também algumas comidinhas japonesas, prometidas a Lili e Lulu há muito tempo.
Olinda amanheceu alagada no feriado. Chegamos a pensar que não haveria como chegarem até nossa casa, pois as principais avenidas estavam todas alagadas.
Por volta do meio dia as águas baixaram e eles chegaram. Saloca, enquanto me presenteava com uma barra de chocolate, cochichou ao meu ouvido: “Estou trazendo uma erva da boa! Você gosta?” Nesse instante Lulu e Lili chegaram fazendo barulho e abrindo os braços para os abraços e nem respondi a Saloca sobre a erva.
Quando viram que tinha um “sunomono” de salmão, kani-kama e pele de salmão grelhada, a algazarra aumentou ainda mais. Lili trouxe feijão verde e charque da boa para preparar um “arrumadinho” para o seu amor. Enquanto eles devoravam o “sunomono” eu cortava os teka-maki e kapa-maki para eles. Sentamo-nos todos ao terraço enquanto Nadja comandava a escolha das músicas. Terminada a comidinha japonesa iniciamos o churrasquinho de cupim e maminha, acompanhado de macaxeira frita, batata solté, farofa, conserva de cebolinha branca ao curry e vinagrete levemente apimentado com minhas pimentas de cheiro plantadas no quintal. Divertimos-nos muito contando muitas piadas e fatos interessantes das nossas vidas. Lembrei-me da última que Nelsinho - ex-colega de bncc e grande amigo - me enviara de Aracajú por e-mail: "Um turista em Salvador-BA, após pedir um acarajé num tabuleiro de baiana, ouviu a pergunta: Quer com vatapá? - Quero sim! - Quer com verdura? - Pode botar! - Quer com pimenta? - Bote, mas como se o cu fosse da senhora..." Encerramos a comelança com minha última especialidade: uma deliciosa torta alemã.
Aproveitando um instante em que o sol voltou a brilhar e as crianças (Kekel filha de Nadja, e Bebel, filha de Lili) caíram n’água, Saloca arrastou da mochila um saquinho de erva e foi logo preparando caprichadamente uma rodada para todos nós que, a essa altura, já estávamos impacientes. Começou por Lili, depois Lulu, em seguida foi a vez de Nadja que aproximou dos lábios meio desconfiada, e em seguida eu, que dei boas puxadas para mostrar a todos que era íntimo daquele ritual. Por último foi o próprio Saloca, que teve que dar uma arrumada na erva para aproveitar melhor aquele finalzinho.
O efeito em Lulu foi quase imediato e ela soltou um grito para espanto nosso e, conseqüentemente, dos vizinhos também: “Essa erva de Saloca é especial! Essa é a melhor erva que eu já provei!” Todos fizemos sinal para ela falar baixo, para que os vizinhos não pensassem que se tratava de maconha e não de um verdadeiro chimarrão gaúcho.
Foi um dia muito legal, embora Saloca tenha esquecido de levar a manteiga do sertão (de garrafa) que lhe presenteei.
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