segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

TODA FARSA TEM LIMITES - POR PAULO NOGUEIRA










Vários fatores podem explicar o esvaziamento dos protestos a favor do impeachment no último domingo. Minha explicação favorita é o efeito-Eduardo Cunha.


Explico. Mesmo em política, toda farsa tem limites, até no Brasil e apesar do monopólio dos grandes meios de comunicação.


Foi o que lembraram os editoriais da Folha e do Globo, no fim de semana, dizendo que o tempo de Cunha se esgotou e é hora de livrar-se dele. Dirigindo-se a seus leitores, os dois veículos falaram, em particular, a um público mais especial -- o Judiciário, a quem cabe a incumbência de providenciar o afastamento de um chefe de poder que contamina o Estado brasileiro com sucessivos atos de delinquência.


Os editoriais informam que tanto o PGR Rodrigo Janot quanto o ministro Teori Zavaski, do STF, terão respaldo de pelo menos dois dos três mais influentes grupos de comunicação do país para agir contra Cunha -- seja lá qual for o caminho legal encontrado.


A questão não é ética, mas política: o presidente da Câmara tornou-se um aliado inconveniente. O preço de manter uma aliança com ele, submetendo-se à sua melodia e suas regras, tornou-se muito alto e pode comprometer o que realmente importa -- você sabe de quem e do que estou falando, certo?


Comandante em chefe da tentativa de impeachment numa etapa importantíssima, a passagem pela Câmara de Deputados, Eduardo Cunha é, conforme as pesquisas de opinião, o símbolo maior da corrupção política no país. Bela contradição, vamos combinar.


O parlamentar responsável pelo recebimento de um pedido de impeachment fraquíssimo, pois não apresenta provas materiais de envolvimento da presidente da República em crime de responsabilidade, possui três contas na Suíça, em seu nome ou de familiares. Foi pessoalmente envolvido em denúncias de propina na Petrobras. Mentiu para seus colegas quando prestou depoimento ao Conselho de Ética. No esforço para salvar a própria pele, submeteu um dos três poderes da República a uma sequência de manobras inescrupulosas e inaceitáveis, na semana passada. 
   

Há duas semanas, depois que se tornou impossível manter o currículo de Cunha em segredo -- para os profissionais, nada do que se disse ou ouviu por esses dias chegava a ser novidade real -- a oposição havia desistido de avançar o impeachment pela Câmara. A opção era seguir a batalha no Tribunal Superior Eleitoral, onde é possível contar com Gilmar Mendes. Isso explica a indignação -- de curta duração, diga-se -- de líderes do PSDB e do DEM diante das "provas" contra Cunha.
  

Nos últimos dias, assistimos a uma sequência de movimentos. Mesmo a contragosto e sem muita convicção, pois previa uma reação selvagem por parte de Cunha, a bancada do Partido dos Trabalhadores anunciou que votaria contra ele no Conselho de Ética, oferecendo três votos necessários para que o processo pudesse seguir adiante.
  

À frente de uma máquina que lhe deve, literalmente, toda lealdade que a política pode pagar, Cunha fez aquilo que o PT temia e até uma criança podia imaginar: virou o jogo.


A retaliação de Cunha era previsível e frequentava vários pesadelos políticos. Mais surpreendente, pela rapidez, foi a súbita virada da oposição, que não demorou a providenciar primeiros socorros a um paciente que já se encontrava na UTI de nosso sistema político. Esquecendo a veemência da véspera, seus líderes deram a Cunha todo o respaldo político de que necessitava. Salvaram o presidente da Câmara, fornecendo votos inclusive para um rito de encaminhamento do impeachment tão oportunista que acabou derrubado, por liminar, pelo ministro Edson Fachin, do STF.


O fato é que, capaz de engajar-se a fundo na queda de uma presidente eleita com mais de 54 milhões de votos apenas para a salvar o pescoço, Cunha tornou-se diretor de um espetáculo deprimente, que ninguém quer assistir até o final -- até porque é impossível saber como irá terminar.


Ontem, quando Faustão levou para o palco estrelas da TV Globo para perguntar seus desejos para 2016, não faltaram críticas ao Congresso. Fernandinha Torres pediu que o Conselho de Ética, bloqueado por Cunha e seus aliados, saísse da paralisa. Com a franqueza de sempre, Tonico Pereira falou da "quadrilha"que comanda os trabalhos no Congresso.


Foi possível ver, em pelo menos uma passeata pelo impeachment, um boneco de Eduardo Cunha, como se fosse um alvo a ser abatido. Desinformação grave. Do ponto de vista prático da política brasileira em 2015, Cunha é aliado da turma -- e não adversário.


Do ponto de vista de quem é contra o impeachment, a partir da visão de que não há um fiapo de prova contra a presidente, eu acho prematuro considerar que os protestos de ontem sejam o sinal de que o pesadelo de um golpe contra o Estado Democrático de Direito esteja encerrado.


A articulação para afastar a presidente eleita não é obra de militantes de camisa verde amarela e argumentos que contrariam valores e regras fundamentais da Constituição. Seu horizonte é uma tentativa de interromper de qualquer maneira o processo de mudanças positivas realizadas no país a partir de 2003, que, com todos os seus limites e imperfeições, abriu um período distribuição de renda e melhoria para as camadas superexploradas da população.


Não se trata de um movimento isolado, como se vê pela Venezuela, pela Argentina.


Não se trata de um pequeno troféu -- mas da sétima economia do mundo, uma posição de liderança inegável para os países situados abaixo do Rio Grande.


Este é o combate, que está longe de terminado, em minha opinião. Dilma enfrenta pressões gigantescas dos adversários e, como é notório, de falsos aliados internos, que já foram recrutados para o serviço. A sabotagem contra seu futuro é permanente e descarada.


Parte das dificuldades, no entanto, pode ser atribuída ao próprio governo.


Até agora, Dilma não foi capaz de oferecer a seus aliados, aqueles que garantiram sua vitória numa campanha que esteve perto da carnificina, a esperança de que vale a pena defender seu governo -- não porque seja perfeito, mas porque não se conhece, nas mercadorias em oferta no país real, uma alternativa melhor para a maioria dos brasileiros.
  

Esse é o ponto. Com mudanças na política econômica que aumentaram o desemprego e a inflação, e até agora não trouxeram nenhum dos benefícios imaginados, o governo deixou de ser reconhecido pelos seus próprios defensores. Enquanto permanecer nesta situação, o caminho estará aberto para a aventura e a desfaçatez.





O IMPEACHMENT DESANDOU NAS RUAS. SAIBA PORQUÊ.







Por Tereza Cruvinel, em seu blog no 247




As manifestações de ontem a favor do impeachment foram um anticlímax. Estão aí os dados do Datafolha mostrando a curva descendente de participação e uma retração superior a 70% em relação a março.  É claro que isso pode mudar, tudo pode mudar no processo social. Mas por que, justamente agora, com o processo aberto, a ideia do impeachment desandou nas ruas?


Por vários motivos, quase todos representados por erros da oposição.


1) O primeiro e maior erro dos adversários de Dilma e do PT foi apostar num impeachment liderado por Eduardo Cunha. Mesmo depois que ele começou a ser investigado pela Lava Jato a oposição manteve a aposta. Ensaiou um rompimento mas realinhou-se de forma ambígua depois que ele acolheu o pedido Bicudo/Reale. O povo não é bobo. Entendeu que Cunha chantageou o PT para votar a seu favor e vingou-se quando o partido tomou decisão oposição.


2) O segundo erro foi tentar atropelar as regras e a própria Constituição. O povo não é bobo. Sabe diferenciar um impeachment imperativo de uma armação golpista. Afora a fragilidade jurídica da acusação, houve a tentativa de controlar a comissão especial através de um inusitado “bate chapa” com voto secreto e até a interpretação de que a Câmara, e não o Senado,  terá o poder de tirar Dilma do cargo se o julgamento dela for autorizado por 3/5 dos deputados.


3) Ficou também explícita demais a ambição do vice-presidente Michel Temer pelo cargo. As “caneladas” dentro do PMDB para empurrar o partido rumo ao impeachment também foram muito bandeirosas e culminaram com a truculenta derrubada do líder Picciani,  que é contra o impeachment e continua sendo. As articulações precipitadas do PSDB sobre a participação num eventual governo Temer, da mesma forma, pegaram mal.


4) Boa parte da inteligência nacional posicionou-se contra tal impeachment. Artistas, juristas, intelectuais, sindicalistas, religiosos e reitores, entre outros, são setores sociais que têm peso específico na formação da opinião média. Daqueles que observam o rumo do vento antes de se posicionarem.
  

5) Por fim, a narrativa do impeachment não colou, ao passo que a denúncia do golpismo fez sentido e reverberou forte, afastando das manifestações aqueles que não querem figurar numa história antidemocrática. A narrativa do impeachment não colou, entre outros motivos, porque o discurso foi ambíguo. A acusação formal a Dilma foi de crime de responsabilidade por conta de pedaladas fiscais. Mas para a rua, a oposição falava em corrupção, mar de lama, pixuleco e outras metáforas do grande escândalo em curso, que já atingiu tanta gente, inclusive do PT, mas não chamuscou Dilma. Tanto que, no pedido formal, não foi acusada de ato de improbidade mas de má gestão.




O PATO DA FIESP E OS PATOS DO FIASCO





Alexandre Frota (aquele mesmo...) é o novo líder do golpe


Os organizadores do protesto anti Dilma na Avenida Paulista estão escondendo o fiasco atrás de uma estranha tese de que se trata de um “esquenta” e não da coisa para valer.


Foram apenas oito dias de organização, alegou um dos líderes (é impressionante como essas milícias têm apenas líderes). Foi frustrante, especialmente, quando se sabe que agora existe, em tese, uma cenoura à frente deles — ou uma mandioca atrás, dependendo do ângulo –, que é o acolhimento do pedido de impeachment por Eduardo Cunha.


Uma das razões para o esfriamento da mobilização é o fator Cunha. Manifestantes um pouco menos fanáticos perceberam, nas últimas semanas, que quem está dando as cartas é um deputado com uma ficha corrida épica.


Sobraram, na “luta”, ignorantes por opção e mal intencionados, que acreditam no fascismo rastaquera de gente como Marcello Reis, do Revoltados Online, e Kim Kata Guri, o popular “Japonês Ruinzinho” do MBL que arrecadou grana para o movimento em sua conta particular.



Havia sete caminhões de som postados a uma distância aproximada de 500 metros uns dos outros. Isso foi feito de modo a dar a impressão de aglomeração quando, na verdade, as pessoas não conseguiam circular porque os veículos impediam a passagem estacionados na transversal.


Um sinal claro de que a coisa não funcionaria era a presença de políticos do PSDB. João Doria Jr, Serra, Aloysio e Caiado, o amigo de Bumlai, tentaram pegar uma carona na micareta golpista. Alguns deles fizeram discurso.


Com o proverbial talento tucano para captar o ronco das ruas, foi o casamento perfeito da iniquidade com a falta de noção.


Mas a palhaçada pode ser resumida em duas presenças marcantes, que incorporam o espírito desse povo. A primeira é a de Alexandre Frota, um maluco que claramente precisa de ajuda psiquiátrica especializada.


Frota, que já havia gravado um vídeo com ameaças a Lula fantasiado de jihadista do “Estado Islâmico” com uma meia tapando metade da cara,  avisou que foi representar a “classe artística de bem”.



A segunda figura estava no meio da galera, impávido: um pato inflável, cortesia da criatividade do presidente da Fiesp Paulo Skaf, o Caveira, que numa entrevista ao Estadão cravou que “mudança pode ser por impeachment, renúncia ou outra forma”.


O pobre pato nunca achou que encontraria tantos como ele, com a diferença de que seus pares eram mais perigosos e esquisitos. O pato é o único animal que consegue dormir com metade do cérebro e manter a outra em alerta. Seus novos amigos, ele logo percebeu, mantêm as duas metades desligadas o tempo inteiro.