quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Dilma Estende a Mão aos Vândalos Derrotados

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"Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégio ou compadrio".
Em seu primeiro discurso como presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff reafirmou a consolidação, junto ao eleitorado, de um projeto republicano. A primeira providência de um vencedor nas urnas é remover os destroços da campanha. A esta altura, não cabe a menor dúvida de que a vantagem de 12 milhões de votos, que a separou de seu competidor, mostrou, de forma cabal, a irreversibilidade de uma agenda que contemplou desenvolvimento com redistribuição de renda.
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Em intensidade nunca vista, a prova das urnas esfrangalhou as estruturas partidárias da oposição demo-tucana, mostrando a ineficácia de uma estratégia firmada sobre dois pilares: o poder da mídia ressentida com as benesses que passaram a ser melhor repartidas e o desembarque do "iluminismo tucano" no mais deslavado integrismo católico, patrocinado descaradamente pelo líder da comunidade pedófilo/eclesiástica Benedictus XVI. No palco eleitoral, o personagem central dessa historieta, beijando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, tentando passar-se por filho do destino, escondendo vergonhosamente sua condição de ateu da qual deveria sentir orgulho, bem como o aborto praticado por sua mulher Mônica Serra no Chile, fiel escudeira e desvairada candidata a primeira dama. Deveria saber que o mito funcionaria contra sua intenção burlesca. Varrido pela tempestade dos votos que liquidaram quase todas as lideranças do seu partido, Serra atuou como cabo eleitoral às avessas. É triste o fim que o transformismo dá a quem o abraça a qualquer preço.
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Terminada a campanha, à vencedora cabe tomar a iniciativa de cicatrizar divergências sem a necessidade de compor  interesses rasteiros por baixo de uma retórica elevada. A primeira mulher eleita presidente do Brasil não pode, nem quer, ser prisioneira de uma rigidez política que a imobilize dentro de sua base de apoio. O problema, por enquanto, é a falta de um interlocutor que tenha sobrevivido do outro lado.
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A vitória de Dilma não foi fruto da vontade dos nordestinos, dos pobres e dos analfabetos como tenta fazer acreditar a derrotada mídia comprometida com o neoliberalismo. A sua vitória demonstra, isto sim, a maturidade da sociedade civil brasileira, pois estados como o Rio de Janeiro e Minas Gerais deram vitória mais expressiva que a média nacional. De nada adiantou o toque de direitismo, com tonalidades protofascistas, da campanha tucana. Os efeitos da eleição presidencial sobre o quadro partidário brasileiro confirmam com clareza um fenômeno já reconhecível há algum tempo: a desagregação do esquema político que deu sustentação aos oito anos de domínio neoliberal.
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O encolhimento expressivo das bancadas do PSDB, DEM e PPS  é evidente e extremamente emblemático. Reflete a rejeição a uma prática conservadora que, em desespero, açulou o que havia de mais primitivo no imaginário social, com o objetivo de estabelecer uma plataforma calcada no retrocesso cego, na calúnia gratuita, no falso moralismo e num nauseante repetir de mentiras no seu programa eleitoral. Porém, ao mesmo tempo em que levou as forças reacionárias ao paroxismo,  a oposição, involuntariamente, construiu uma unidade de pensamento que aglutinou expressivos setores da sociedade organizada a se aliarem em torno da aspiração da continuidade de mudanças profundas nas estruturas que, por muito tempo, sustentaram uma ordem social autoritária e perversa, porquê excludente.
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Por não estar em sintonia com o tempo político, incapaz de esmaecer suas indefinições internas, o núcleo duro do tucanato vive um momento de tamanha desestruturação que exigirá um esforço imenso para manter até mesmo a semelhança com um partido político. De ponta a ponta, o país está sendo varrido por uma ânsia de consolidação democrática que não tem mais condições de ser reprimida, o que impede a curto e médio prazos um retrocesso. Para a direita, diminuem as possibilidades de uma recomposição de campos de atuação. Querer refrear as oportunidades de mudança social surgidas nos dois governos petistas comandados pelo metalúrgico semi-analfabeto – conforme discurso repetido à exaustão pela mídia golpista - foi a grande tragédia que tolheu as pretensões de José Serra e seus aliados, e expôs suas incapacidades de enxergar o que sente, carece e sonha o povo desta nação.
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É lógico que, diante desse quadro, as áreas da imprensa mais vinculadas aos pontos de vista dos derrotados venham dando ênfase às diferenças na coligação vencedora. Apostam, com os olhos voltados para o passado, na fraqueza relativa dos partidos em nossa história republicana. Parecem não querer se dar conta de que há grande  possibilidade de uma convergência programática e de ação das forças políticas que, com Dilma, venceram as eleições de 2010. O baronato continua jogando suas fichas na impossibilidade da democracia como reinvenção. Já deveria ter aprendido que o rumo da história é ditado por forças dinâmicas.
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Outubro de 2010. O arsenal tático da guerrilheira atordoa as barricadas do atraso.
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É doce o sorriso de Vanda. Como suave é sua mão estendida.

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A Quem Dilma Derrotou...

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 Carioca comemora a vitória de Dilma.
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Dilma Rousseff, a eleita, teve de enfrentar a campanha mais feroz contra um candidato à Presidência na história do Brasil.
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Temos uma mulher na Presidência da República, primeira na história do Brasil. E que uma mulher chegue a tanto já é notícia extraordinária.
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Levo em conta a preocupação do Datafolha a respeito da presença feminina no tablado eleitoral: refiro-me à pergunta específica contida na sua pesquisa, sempre aguardada com ansiedade pelo Jornal Nacional e até pelo Estadão. A julgar pelo resultado do pleito, Dilma Rousseff representa entre nós a vitória contra o velho preconceito pelo qual mulher só tem serventia por certos dotes que a natureza generosamente lhe conferiu.

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A maioria dos eleitores moveu-se pelas razões que nos levaram a apoiar a candidata de Lula desde o começo oficial da campanha. Em primeiro lugar, a continuidade venceu porque a nação consagra os oito anos de bom governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Inevitável foi o confronto com o governo anterior de Fernando Henrique Cardoso, cujo trunfo inicial, a estabilidade, ele próprio, príncipe dos sociólogos, conseguiu pôr em risco.
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Depois de Getúlio Vargas, embora manchada a memória pelo seu tempo de ditador, Lula foi o único presidente que agiu guiado por um projeto de país.
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Ele poderia ter sido às vezes mais ousado em política social, mesmo assim mereceu índices de popularidade nunca dantes navegados e seu governo passou a ser fator determinante do êxito da candidata.
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A comparação com FHC envolve também a personalidade de cada qual. Por exemplo: o professor de sociologia é muito menos comunicativo do que o ex-metalúrgico, sem falar em carisma. Não se trata apenas de um dom natural, e sim da postura física e da qualidade da fala, capaz de transmitir eficazmente ideias e emoções. Lembraremos inúmeros discursos de Lula, de FHC, nenhum.
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Outra diversidade chama em causa a mídia nativa. Fascinada, sempre esteve ao lado de FHC, inclusive para lhe esconder as mazelas.
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Vigorosa intérprete do ódio de classe em exclusivo proveito do privilégio, atravessou oito anos a alvejar o presidente mais amado da história pátria. Quando, ao dar as boas-vindas aos 900 convidados da festa da premiação das empresas e dos empresários mais admirados no Brasil, o premiado Mino Carta (da Carta Capital) ousou dizer que o mensalão, como pagamento mensal a parlamentares, não foi provado para desconforto da mídia, certo setor da plateia esboçou um começo de vaia. Calou-se quando o colega Paulo Henrique Amorim ergueu-se ao grito de “Viva Mino!” Os fiéis da tucanagem não primam pela bravura.
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Pois Dilma Rousseff teve de enfrentar esta mídia atucanada, a reeditar o udenismo de antanho em sintonia fina com seus heróis. Deram até para evocar o passado da jovem Dilma, “guerrilheira” e “terrorista”. Como de hábito, apelaram para a má-fé para explorar a ignorância de um povo que, infelizmente, ainda não conhece a sua história, e que não a conhece por obra e graça sinistra de uma minoria a sonhar com um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem demos.
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Nos porões do regime dos gendarmes da chamada elite, Dilma Rousseff­ foi encarcerada e brutalmente torturada. Poderia ter sofrido o mesmo fim de Vlado Herzog, que os jornalistas não se esquecem de recordar todo ano.
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Mas a hipocrisia da mídia não tem limites, com a contribuição da ferocidade que imperou na internet ao sabor da campanha de ódio nunca tão capilar e agressiva. E na moldura cabe à perfeição a questão do aborto, praticado à vontade pelas privilegiadas e, ao que se diz, pela própria esposa de José Serra, e negado às desvalidas.
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Até o papa alemão a presidente recém-eleita teve de enfrentar. Ao se encontrar já nos momentos finais da campanha com um grupo de bispos nordestinos, Ratzinger convidou-os a orientar os cidadãos contra quem não respeita a vida, clara referência à questão que, lamentavelmente, invadiu as primeiras páginas, as capas, os noticiários da tevê. Parece até que Bento XVI não sabe que o Vaticano fica na Itália, onde o aborto foi descriminalizado há 40 anos.
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Salve minha presidente... Salve Dilma.

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