terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

O Sol, à Sombra.

Rodolfo Vasconcellos - Monte Bom Jesus - Caruaru
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As religiões já nascem póstumas...
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A concepção cristã de Deus – Deus como o protetor dos doentes, o Deus que tece teias de aranha, o Deus na forma de espírito – é uma das concepções mais corruptas que jamais apareceram no mundo: provavelmente representa o nível mais ínfero da declinante evolução do tipo divino. Um Deus que se degenerou em uma contradição da vida, em vez de ser sua própria glória e eterna afirmação!
Nele, declara-se guerra à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus transforma-se na fórmula para todas as calúnias contra o “aqui e agora” e para cada mentira sobre “além”! Nele, o nada é divinizado, e a vontade do nada se faz sagrada!... Nietzsche.
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“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”
Carl Sagan
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

João Hélio... Meu Filho.

Diego, um dos assassinos. Entregue pelo próprio pai à polícia.
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As imagens me sufocam... O carro salpicado de sangue; o asfalto – por quilômetros – com as marcas deixadas pelo corpo de João Hélio; o espanto do pai de Diego – um dos assassinos – ao entregá-lo à polícia; o medo de Diego diante das câmeras; a desolação e dor dos familiares do menino João Hélio ao sepultá-lo, sem sequer poderem olhar seu rosto depois de morto, ou mesmo, num futuro distante, reunirem forças para lerem seu atestado de óbito.

João Hélio poderia ser meu filho...

Impossível impedir que o choro se manifeste... consigo apenas doma-lo, permitindo-lhe lavar meu rosto e pulsar meu peito a cada soluço contido, em vez de deixa-lo irromper em choro convulsivo que, com certeza, me faria menos mal.

Pela internet, a confirmação do que já deduzira: a cabeça de João Hélio espatifou-se pelos sete quilômetros em que ele foi arrastado, preso pelos pés ao cinto de segurança, deixando seu corpo decapitado enquanto sofria incontáveis fraturas expostas ao ser moído sob a roda do seu próprio carro.

Impossível conter a revolta... não acusar a droga que os assassinos estavam usando para cometerem tamanha cena de horror; impossível não culpar essa classe desgraçada de seres humanos desonestos e impassíveis que são nossos políticos, e sua exclusiva preocupação com os holofotes; impossível não culpar a flagrante falta de perspectiva dos jovens das classes excluídas, diante de uma sociedade pretensiosa e vulgar, que não resiste sequer à vaidade de mostrar-lhes todos os dias pela TV, quão miseráveis, incapazes e desprezíveis eles são; impossível – diante dessa dor que passa ao largo e só nos respinga – não culpar nossa rendição à barbárie, minimizada pela quase certeza de que errará nossa porta na próxima investida.

Hoje, após a acareação de ontem entre os quatro maiores, acusados de promoverem este funesto crime, ficou também a certeza de que, Diego e talvez os outros acusados, tenham sido obrigados por Carlos Alberto – o último a se entregar - sob a mira de sua arma, a se envolverem com esse homicídio. Quanto ao menor, cujo nome e rosto, infelilzmente somos proibidos de conhecer, tornou-se uma presença indispensável em cada crime: protegido pela menoridade e consequente impunidade, não tem como dizer não ao bandido que domina sua área. Participa dos delitos para aparecer como o dono da arma e aquele que fez os disparos, livrando os bandidos maiores de idade, de penas mais longas, além de ganhar status dentro do grupo e a certeza de que, quando maior, também terá outros menores agindo como "boi de piranha" em sua proteção.

Em que outro país deste planeta um assassino não pode ser condenado a mais de vinte anos pois, se isto ocorrer, o julgamento será automáticamente anulado, tendo que haver um outro para ratificar a sentença; em que outro país apenas um sexto da pena é cumpria em regime fechado; como um bandido pode se sentir punido, estando dentro de uma cadeia onde rola todo tipo de drogas, telefones celulares para comandar seus comparsas em crimes e rebeliões, e onde podem, semanalmente, praticar sexo com as parceiras indicadas - em alguns casos, irmãs ou esposas de seus credores de dívidas contraídas pela venda de drogas e proteção oferecida dentro da própria prisão; receber indulto de Natal, Dia das Mães, etc.

Um bom exemplo é o do assassinato da jovem atriz Daniela Perez. Em janeiro de 1997, Guilherme de Pádua foi condenado a 19 anos de prisão pela morte da atriz. Após cumprir um terço da pena (seis anos e quatro meses), Pádua conseguiu a liberdade condicional em 1999, por bom comportamento. No ano seguinte, a Vara de Execuções Criminais de Minas Gerais concedeu a ele a redução de 25% da sua pena, que passou para 14 anos, dois meses e 26 dias. Em 2001, ele entrou com o pedido de indulto, que lhe deu a liberdade naquele ano. Se até dezembro deste ano de 2007, Guilherme mantiver um bom comportamento e não se envolver em nenhum outro crime, passará a ser considerado réu primário. Você sabe o que é isso? "Quer dizer que NUNCA cometeu nehum crime!" Caso alguém o chame de assassino, ele pode, inclusive, entrar com um processo por calúnia e difamação.

O que me impede, num campo de batalha desses onde, além da brutralidade flagrante e real, a monstruosidade do crime também está proporcionalmente ligada ao nível social da vítima e do bandido, de dizer também: "Diego... Meu Filho."?

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