quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Hasta Siempre, Comandante Fidel!

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Fidel está muerto.
!Que viva então el Fidel!
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. Morreu, Fidel?
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Se morreu, morreu na minha opinião, o maior herói do século 20.
Com ele morrem muitos personagens: o jovem advogado, filho de rico fazendeiro envergonhado de viver numa pátria em que um patife vagabundo como Batista havia transformado num bordel de luxo para a máfia e políticos norte-americanos corruptos.
Morreu o rapaz que passou dos 27 aos 29 anos na cadeia, por não aceitar a democracia imposta pelos americanos com votos comprados ou obtidos à força. Morreu o leitor de Martí, de frei Bartolomeo de Las Casas, de Marx e, certamente, de Cervantes.
Morreu o homem mais amado de Cuba e o mais odiado pelos cubanos que preferiram Miami e Disney.
Morreu também o homem que condenou muita gente à morte, entre elas, o número 2 das Forças Armadas Cubanas, envolvido com o tráfico de drogas.
Morreu o homem que a CIA tentou matar mais de dez vezes e que suportou o maior embargo econômico da história moderna.
Morreu o homem que fez a reforma agrária como já poderíamos ter feito há muito tempo: pagando aos latifundiários o que declararam que valiam as terras na hora de pagar seus impostos.
Morreu o homem que devolveu a auto-estima aos cubanos.
Morreu o homem que diziam possuir a quinta fortuna no mundo. Fidel respondeu que, se encontrassem um dólar numa conta em seu nome ou no nome de seus filhos no exterior, ele resignaria ao cargo.
, disse-me que não.
Profissional liberal. Soy limpia botas.
Na verdade, foram os americanos que jogaram Fidel nos braços da União Soviética. Queriam eleições em Cuba e tinham um candidato que - como já haviam feito com Batista - seria apenas um homem de palha. Foi muito ingênuo achar que, depois de limpar e dedetizar a casa, Fidel deixaria que os americanos colocassem alguém como um Collor, por exemplo, lembram-se?
Ou como Sarney e FHC, que deixaram o poder riquíssimos e o povo cada vez mais pobre e ignorante.
Morreu o homem que acabou com o analfabetismo, tornou obrigatório o Ensino Médio e financiou universitários.
Morreu o homem que fez de Cuba um exemplo para a medicina da América Latina.
Morreu o homem que fez de Cuba a maior potência atlética da América Latina.
Morreu o comunista que o Papa abençoou.
Certa vez, em Cuba, comecei a entrevistar passantes nas ruas. Todos estavam empregados, ninguém morava em casa alugada e todos, de certa forma, eram funcionários do Estado. Menos um. Perguntei ao senhor carequinha, o tal único, se era funcionário e ele, sorrindo
Arthur Miller, Robert Frost, Edmond Wilson, Sartre, Russell, Clifford Odets, Adiai Stevenson, John Steinbeck, entre outros grandes intelectuais da época, escreveram artigos pedindo a Kennedy que deixasse Cuba em paz. Mas Kennedy preferiu promover o fiasco da Baía dos Porcos e receber, como hóspedes, cubanos leais ao governo americano que em Cuba ninguém queria.
Estive duas vezes com Fidel. Da primeira, perguntei-lhe por que não instituía eleições livres. Ele me declarou que sairia muito caro para eles e mais caro ainda para os americanos que mandariam dinheiro para corromper os poucos indecisos.
Da segunda vez, eu e outros jornalistas o acompanhamos num passeio pelas ruas - e não vi um guarda-costas. Formou-se uma multidão gritando Viva Fidel! e uma mulher grávida o abraçou. Perguntou-lhe quantos filhos já tinha. Ela disse que este seria o terceiro, e ele: Por que não está tomando pílula? Que seja o último. Nossa ilha não pode alimentar mais do que o seu espaço permite.
Hoje em dia falam muito das prostitutas de Cuba, mas esquecem-se de falar dos milhões de mulheres que, graças a Fidel, salvaram-se da miséria, da fome e da prostituição. Podemos dizer a mesma coisa no Brasil?
Mas Cuba é uma ditadura e Fidel um ditador.
Pois eu lhes digo que 80% do povo brasileiro jamais viu tal democracia. Da última vez que estive em Cuba, entrevistei Teófilo Stevenson, cinco vezes campeão mundial olímpico dos pesos pesados. Ele me apresentou a mulher e filhos, bem como os seus alunos de educação física. Perguntei-lhe por que não aceitara o contrato de US$ 5 milhões que os americanos haviam lhe oferecido. Respondeu:
Há muito a fazer em Cuba e, além disso, há coisas mais importantes que o dinheiro.
Fidel já morreu?
Não!
Viva Fidel !


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Fausto Wolf, é jornalista, escritor e poeta dos bons. Co-fundador e editor do Pasquim. Escreveu entre outros, Sandra na Terra do Antes - infantil, O dia em que Comeram o Ministro, A Mão Esquerda, O Acrobata pede Desculpas e Cai, O Lobo atrás do Espelho, O Nome de Deus - romances, Cem poemas de amor, e uma canção despreocupada, Gaiteiro Velho, além de inúmeras poesias.
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Texto gentilmente traduzido e enviado pelo economista Filipe Reis.
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