sábado, 12 de agosto de 2006

Sobre Amigos e Cães...

Homenagem a Pandora dy Módena, minha Mastim.
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Dedico este  primeiro texto a Neném, minha irmã mais velha que, durante toda sua vida, no trato com os seus sete irmãos mais jovens, sempre se preocupou mais em dar que em receber. Pra você, meu amor especial de irmão e filho.



O Amigo Pupí.


Pupí foi meu primeiro cachorrinho.

Filho de uma Fox Terrier que criávamos, de nome Fuchi, foi escolhido por mim de uma ninhada de sete filhotes, cada um de uma cor e características próprias, denunciando assim, os múltiplos amores de sua mãe durante aquele último cio.

Com uma semana de nascidos, no dia em que a ninhada abria os olhinhos, Fuchi morria envenenada, ou melhor, vítima de um pedaço de carne recheado com vidro triturado, atirado ao quintal da nossa casa por alguém.

Lembro das tentativas de papai para salva-la e do meu desespero ao ver grande quantidade de sangue saindo de sua boca.

Nos meus seis anos, ganhar aquele cachorrinho bicolor, trouxe-me uma felicidade imensa, apesar da dor com a perda de Fuchi.

Uns meses depois, correndo pelo quintal com meus irmãos, comecei a ouvir os passos de Fuchi atrás de mim. O ruído das suas unhas no cimento do quintal e no mosaico da sala era inconfundível. Fiquei apavorado com a idéia do fantasma da minha cadela estar me seguindo. Ao mesmo tempo, alguma coisa me dizia que aquilo não seria possível, e fiquei com vergonha de falar pra mamãe o que estava acontecendo.

Deixei a brincadeira com os irmãos e saí correndo sozinho em outras direções e em velocidades variadas, para confirmar se aquilo que eu estava pensando era verdade mesmo.

Quando eu parava, o ruído parava... Quando eu acelerava, ele também acelerava, chegando a combinar suas passadas com as minhas. Meu Deus! Seria possível?!

Poderia ser alguma coisa fazendo barulho dentro de casa, então eu resolvi ir para a calçada da rua e, lá estava ela a me seguir. O ruído vinha exatamente de trás de mim, não havia dúvidas.

Apavorado, resolvi sentar-me no chão, apesar do medo de que ela pudesse encostar-se a mim, como fazia quando estava viva e caíamos exaustos, após corrermos sem parar, um atrás do outro. Mas, não suportava mais tanta correria, estava esgotado, então, caí sentado, e, só aí, percebi que estava com o bolso de trás do calção cheio de sementes secas de carrapateira – mamona – que, com os meus movimentos de corrida, balançavam e se chocavam, produzindo aquele barulho.

Putz! Que alívio...

Corri então para os braços de Pupí, meu novo refúgio em situações de estresse.

O compromisso assumido com mamãe de que me encarregaria dos banhos e colocação de comida para Pupí, foram, aos poucos, sendo deixados de lado.

O cachorrinho corria por toda a casa, fazia cocô e xixi nos locais mais impróprios e roía pés de cadeiras e móveis, além de dar sumiço em alpercatas e sapatos.

Mas, antes de completar seis meses de nascido, Pupí desapareceu. Foi uma tristeza imensa.

Procurei-o por toda Umbuzeiro.

Após as aulas pela manhã, almoçava apressadamente e saía de casa em casa, perguntando se haviam visto um cachorrinho gordinho, branco e marrom, de nome Pupí
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Chorei muito nos dias que se seguiram, e vi mamãe sofrer muito com o meu desespero.

Com o tempo, esqueci Pupí, e tentei conseguir um novo cachorrinho, mas, mamãe estava irredutível: - “Nunca mais deixarei entrar outro cachorro aqui em casa!”

Um ano depois do desaparecimento dele, eu estava com os irmãos e alguns amigos jogando futebol no campo que havia em frente à nossa casa, quando, um cachorrão começou a correr atrás de mim, mesmo eu estando sem a bola.

Latia sem parar e, quando eu parava, ele parava em frente a mim e saltava colocando suas patas no meu peito, enquanto sua cauda tentava, agitadamente, dizer-me que aquele agora cachorrão, era o mesmo querido e traquino cachorrinho Pupí de um ano atrás.

Agora ele pertencia a outra família.

Uma senhora e cinco crianças, moradores dos arredores de Umbuzeiro teimavam em dizer que aquele não era Pupí, e sim Rex, e que o criavam desde pequenininho.

Claro que aquilo não era verdade. O que eu e Pupí sentíamos um pelo outro não morrera. Estivera apenas adormecido e, não precisava de nenhuma palavra de explicação para nos convencer do contrário. 
Rolamos pela grama do campo... Eu a cheirá-lo e a acariciá-lo, e ele a lamber-me a cara e a latir de alegria.

Corremos para casa para darmos a grande notícia a mamãe. Eu na frente e ele a me seguir, latindo e dando saltos.

Mas, a reação de mamãe não foi a que eu esperava. Em vez de entusiasmo e alegria, tivera espanto e decepção. Reencontrar aquele destruidor de móveis não lhe agradou, e fez com que o devolvesse à mulher e seus filhos, que já choravam com medo de perder Rex, sob a alegação de que aquele, realmente não era o meu cachorro.

Fiquei em prantos vendo Pupí, muito a contragosto, ser puxado por uma corda para outra casa, longe dali.

Passei o resto da manhã chorando enquanto esperava papai chegar para o almoço e contar-lhe que encontrara Pupí.

Assim fiz, mas, dele também não veio nenhum entusiasmo ou vontade de ir atrás do meu cachorrinho.

Durante o almoço, uma linda surpresa... Com latidos fortíssimos, desesperados mesmo, Pupí arranhava a porta da nossa casa pedindo para entrar. Fugira donde estivera sofrendo também de saudades e voltara à nossa casa, já que agora aprendera o caminho. Meus pais ainda tentaram me convencer do contrário, mas, não podiam fazer nada com Pupí, que não desistia de latir, chorar e arranhar a porta.

Ao perceberem que não tinham mais como lutar contra aquela incondicional amizade, papai e mamãe - que o haviam presenteado àquela família - autorizaram-me a abrir a porta, e então, caimos um nos braços do outro, loucos de amor.

Como toda criança, não me preocupava em cuidar dele. Queria-o apenas como meu amigo, meu cachorrinho. Essa tarefa mais árdua, esses cuidados diários, foram assumidos espontaneamente por Neném, minha querida irmã mais velha, com quem Pupi dividiu seu amor, ao me ver sair de casa para estudar... depois trabalhar... e nunca mais voltar definitivamente...

Foi Neném também, quem o acompanhou e encheu de amor durante os dois anos que padeceu do mal que o levou à morte.

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O Amigo Lula.


Em Dezembro de 1985, retornava a Recife transferido de Ilhéus-Ba pelo Ministério da Agricultura – BNCC.

No prédio onde fomos morar – o “Ilha de Córsega” – próximo à Jaqueira, conheci meu vizinho Luis Carlos Alves, que logo se transformaria no meu amigo Lula. 

Juntos, passamos a fazer as caminhadas na Jaqueira às cinco da manhã, regadas a um bom papo, que variava entre futebol, mulheres, novos bares e, ainda havia espaço para um pouco de filosofia, planos para os filhos, projetos pessoais...

Tomamos muitas biritas juntos e, por conta disso e da confiança que nasceu entre nós, contamos quase todos os nossos segredos ao outro.

Admirador de boa música, sempre estava dando dicas de novos talentos que iam surgindo.

Nos sábados, após a caminhada na Jaqueira, íamos até a mercearia de seu Chiquinho - vizinha ao nosso prédio - comer uma sardinha portuguesa em lata, com limão, um pão ainda quentinho, e um bom azeite, acompanhando umas duas cervejas matinais mofadas.

Em 1990 veio a extinção do BNCC, iniciando um período de muita apreensão, onde todos os medos e projetos eram, diariamente, divididos com Luis Carlos.

Surgiu o projeto do El Bodegón - primeiro barzinho tipicamente cubano do Recife – a primeira viagem a Cuba, a edição em sua casa das fitas de vídeo que fiz na Ilha de Fidel e, lá estava Lula, participando vibrantemente de cada parte desse sonho, até vê-lo tornar-se realidade.

Nos dias que antecederam a inauguração desse que foi meu primeiro barzinho, Lula levou-me a alguns bares e restaurantes dos quais conhecia os proprietários, para que me passassem algumas dicas dessa gostosa mas árdua tarefa.

No dia da inauguração estava lá, com sua família e o maior número de amigos que conseguiu reunir.

Seriam muitas histórias, cheias de amizade sincera para contar sobre Lula, e aqui não é o espaço ideal para alongar-me tanto, mas, uma delas quero que fique registrada, até porque, hoje, 12.08, um dia antes do do Comandante Fidel, é aniversário dele.

“Um mês após inaugurado, o El Bodegón funcionava apenas comigo e um cozinheiro que contratara entre os alunos do Senac, ficando as principais tarefas, como as de barman, churrasqueiro, garçom, gerente e caixa, comigo mesmo.

Numa sexta-feira, pela manhã, quando acabara de abastecer o bar para o expediente da noite e já ia saindo para almoçar e deitar um pouco, vi o El Bodegón ser invadido pela maioria dos ex-colegas do extinto BNCC que queriam conhecer meu barzinho.

Naquela animação toda pelo reencontro, o meu entusiasmo em contar-lhes que achava que o barzinho ia dar certo e a alegria típica de quem está cercado de amigos, tomando todas, o tempo foi passando, a pilha de cascos de cervejas vazias aumentando, misturadas a doses de Montilla , Bacardi e Whisky. Quando nos demos conta já eram dezoito horas, hora de abrir o bar ao público.

Deixei-o entregue ao inexperiente cozinheiro e fui pra casa tomar um banho e dar só um cochilo, para ficar em condições de suportar as exigências da madrugada. Assim o fiz.

Quando acordei, tomei outro banho rápido para diminuir a ressaca, coloquei a roupa e saí correndo para o bar.

Enquanto o elevador descia, resolvi conferir a hora e... Quase tenho um troço! Eram quatro e quarenta e cinco da manhã.

Passou um filme de terror em minha mente com um final desastroso, em apenas alguns segundos.

O El Bodegón passara toda a noite entregue apenas ao inexperiente cozinheiro que, não sabia preparar nenhum dos coquetéis cubanos que eu aprendera atrás do balcão do La Bodeguita 
del Médio, atender às mesas, selecionar as músicas, fechar as contas, receber seus valores e, ainda por cima, dar conta da cozinha. 
Foi uma sensação horrível.

O bar representava para mim a única alternativa diante daquela situação de recém desempregado, e eu estava começando muito mal. Aquilo não deveria estar acontecendo.

Ao abrir a porta do elevador, dou de cara com Lula... Com ele eu não tinha segredos e fui logo relatando minha irresponsabilidade, enquanto o puxava pelo braço para que me acompanhasse até o bar para ver o tamanho do estrago.

Nisso, Lula parou, colocou uma das mãos no meu ombro e retirou do bolso da calça um monte de papéis e dinheiro, e disse: - “Tome! Este é o resultado do movimento do seu bar. Tomei conta dele pra você.

Ele trabalhava dois expedientes como diretor financeiro de uma grande empresa pernambucana, e saíra do trabalho direto pro meu bar, pensando em tomar uma geladinha e descansar um pouco.

Nossa amizade continua a mesma, agora estendida também aos nossos filhos."

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Cinco anos depois, com o El Bodegón no auge, inaugurei o El Paso na rua do Bom Jesus – primeira casa a ser inaugurada no projeto de revitalização da Rua do Bom Jesus no Recife Antigo – e, três anos após, éramos despejados de lá pela Prefeitura - criadora e exterminadora do projeto, além de proprietária do imóvel onde funcionávamos, e autora do pedido de Liminar para que de lá fossemos despejados por falta de pagamento dos aluguéis – juntando-nos aos outros que já haviam falido e, antecipando-nos aos que viriam em seguida.

Essa derrocada levou por terra também o meu El Bodegón.

Nos dias, meses e anos que se seguiram, senti a dor de ver uma notícia de falência não fraudulenta, provocada pela própria Prefeitura e seus incapazes gestores à época, transformar a vítima em inimigo público número um e, presenciei atônito, como algumas pessoas que pareciam amigas, ficaram assustadas até com a possibilidade de que outros seus amigos soubessem de suas proximidades comigo, ou, simplesmente sumiram, espantadas com a hipótese de que eu pudesse procurá-las.


Para saber quantos amigos você tem, "dê uma festa". Para saber a qualidade deles, "fique doente."












3 comentários:

  1. Wanessa: Oiiiiiiiiii!!!!
    Tudo bom???
    Adorei o texto!!!
    Uma ótima semana para ti!!!
    Bjãooooooooooooo
    http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=7540666

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  2. Rodolfo, querido amigo

    Hoje você me fez chorar com esse texto. Como sinto você cada vez mais transcendendo...é lindo!
    Sei bem o que significa um cão na vida de uma criança , mesmo quando essa criança cresce e se torna adulta . A minha Nana ( nanica para os íntimos ) foi morar muito longe de mim, em Belo Jardim.
    Choro ainda quando falo dela. Sonho com aquela carinha safada ...às vezes. Sinto uma saudade enorme da minha netinha. Sim, porque ela era da minha filha Marina. E a vovô cuidava, levava para a praça, dava banho e disciplinava . " Amigo é coisa pra se guardar...do lado esquerdo do peito...e cachorro tambem.

    Um beijo no coração,

    Iara

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  3. Anônimo10:56 AM

    Pense que criei esse Blog com um único objetivo, poder comentar os brilhantes textos de meus amigos, em especial de meu amigo Rodolfo Vasconcelos... O cidadão tem um dom especial em descrever suas histórias, todas verídicas, que o mesmo teve o prazer de viver, e hoje sinto que deve ter grande alegria em retratá-la para todos os seus amigos... Vou ver se tomo vergonha na cara e escrevo alguma coisa substancial aqui nesse meu espaço.
    POSTED BY IGUINHO AT 12:45 PM 0 COMMENTS

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