terça-feira, 13 de julho de 2010

A Prática Macabra de Mutilar a Genitália Feminina

Mutilação sem anestesia.

“Eu tinha seis anos de idade naquela noite. Estava deitada em minha cama, quente e em paz, naquele estado prazeroso onde fica a metade do caminho entre estar acordada e dormindo, com os sonhos róseos de infância sobrevoando a mente, como contos gentis em uma rápida sucessão. 
Eu senti algo se movendo debaixo dos cobertores, algo como uma mão enorme, fria e áspera percorrendo meu corpo, como que procurando alguma coisa. Quase simultaneamente outra mão, tão fria, grande e áspera quanto a primeira tampou a minha boca, como me prevenindo para não gritar. Eles me carregaram para o banheiro.

Eu não sei quantos eles eram, e também não lembro de seus rostos, ou se eram homens ou mulheres. O mundo parecia, para mim, estar embrulhado numa neblina negra que não me deixava enxergar. Ou talvez eles tivessem colocado algo para cobrir meus olhos.

Tudo o que eu lembro é que eu estava assustada e que eles eram muitos, e prenderam minhas mãos, meus braços e minhas coxas com ferro, para que não pudesse resistir ou mesmo me mover.

Em 90% dos casos os procedimentos são feitos à faca.
 
Eu também lembro do toque gélido dos azulejos do banheiro embaixo de meu corpo nu, e vozes desconhecidas e cochichos interrompidos de vez em quando pelo som de algo metálico raspando, o que me lembrou o som de um açougueiro quando afia a faca, antes de matar uma ovelha em um abatedouro.

Meu sangue estava congelado em minhas veias. Para mim parecia que ladrões haviam invadido meu quarto e me seqüestrado de minha cama. Eles estavam se preparando para cortar minha garganta, como sempre acontecia com garotas desobedientes como eu nas estórias que minha velha avó gostava tanto de me contar.

O procedimento, quando realizado em hospital, não é menos brutal.

Eu agucei meus ouvidos tentando captar o som metálico que agora já vinha de dentro da minha própria casa. No momento em que este cessou, foi como se meu coração tivesse parado de bater com ele. Eu não podia ver, e de algum modo minha respiração parecia que havia parado também. Tentei imaginar o que estava fazendo o barulho cada vez mais perto de mim. De algum modo aquela coisa não estava se aproximando do meu pescoço como eu esperava, mas sim de outra parte do meu corpo.

Em algum lugar abaixo da minha barriga, como que procurando algo enterrado entre minhas coxas. Naquele momento eu percebi que minhas coxas haviam sido separadas, e que cada um de meus membros inferiores estavam o mais longe possível um do outro, seguros por dedos de aço dos quais nunca esquecerei a pressão sobre minhas pequenas pernas de criancinha. Eu sentia que a faca ou lâmina estava indo direto para baixo, em direção a minha garganta.

Então, de repente, a ponta metálica, afiada, pareceu cair entre minhas coxas, e lá cortar um pedaço de carne de meu corpo. Eu gritei de dor, apesar da mão forte que tampava minha boca; uma dor que não era apenas dor, era como uma chama ardente a percorrer todo o meu corpo. Depois de alguns momentos eu vi uma piscina de sangue ao redor de meu quadril.

 Garantia de que será vendida por um bom preço.

Eu não sabia o que eles haviam tirado do meu corpo e não tentei descobrir. Apenas chorei e chamei a minha mãe por ajuda. Mas o pior choque de todos ocorreu quando eu olhei em volta e a vi de pé ao meu lado. Sim, era ela, eu não poderia estar enganada, em carne e osso, bem no meio desses estranhos, falando com eles e sorrindo para eles, como se eles não tivessem participado do corte de sua filha momentos atrás

Eles me carregaram até minha cama. Eu os vi pegando minha irmã, que era dois anos mais nova, exatamente do mesmo modo com que eles me pegaram alguns minutos antes.

 A dor de constatar que a própria mãe é uma das agressoras.

Eu gritei com toda minha força. Não! Não! Eu podia ver o rosto de minha irmã preso entre as grandes mãos ásperas. Seus grandes olhos pretos e esbugalhados encontraram os meus por um rápido segundo, num relance negro de terror que eu nunca esquecerei. Um tempo depois e ela se foi atrás da porta do banheiro onde eu havia acabado de estar. O olhar que nós trocamos parecia dizer: 'agora nós sabemos o que é. Agora sabemos onde está nossa tragédia. Nós nascemos parte de um sexo especial, o sexo feminino. Nós somos destinadas a experimentar o desgosto, e a ter parte de nosso corpo rasgado por mãos frias e insensíveis'.”

Nawal El Saadawi é uma líder feminista egípcia, socialista, médica, novelista e autora de uma clássico sobre as mulheres no Islã, “A Face escondida de Eva”.
Ela teve uma carreira distinta como diretora de Educação sobre Saúde no Ministério da Saúde no Cairo, até ser sumariamente dispensada de seu cargo em 1972 e presa, como conseqüência de suas de suas atividades e artigos políticos.

 Warie Dirie

Estamos chegando do Cinema Apolo que fica no Bairro do Recife Antigo. Eu e Nadja fomos assistir ao filme “Flor do Deserto”, que relata a biografia da somali Waris Dirie, hoje ex modelo.

Por sua leveza, mesmo tratando de um tema tão brutal, a ótima direção de Sherry Horman fez com que fosse escolhido como o melhor Filme Europeu - Prêmio de Público - do Festival de San Sebastián de 2009, na cidade espanhola de mesmo nome.

 A atriz e modelo Liya Kebede com Waris Dirie

Waris Dirie sofreu mutilação genital feminina aos três anos de vida. A prática faz parte da cultura da Somália, de quase toda a África, Ásia, e também é praticada na Europa e Estados Unidos, e consiste em arrancar o clitóris junto com os grande e pequenos lábios, fechando a vagina com grandes espinhos ou cordão, que deixarão uma grande cicatriz e um pequeníssimo orifício que mal dará passagem ao xixi. Essa atrocidade é realizada no chão de casa ou no próprio deserto, e sem nenhuma condição de higiene, o que leva muitas meninas a morrerem de hemorragia ou infecção. 

 Capa do livro que deu origem ao filme.

A justificativa para este ato brutal é que isso torna a mulher pura para o casamento e preserva a virgindade. Sem isso ela não poderia se casar. Na noite de núpcias o marido reabre a genitália com uma faca para poder penetrá-la. Waris Dirie fugiu da aldeia em que vivia com a família aos 13 anos de idade, um dia após saber que seria obrigada por seu pai a se casar com um homem de 60 anos, que a comprara para ser sua quarta esposa. 

 Cena do filme.

Atravessou sozinha um dos desertos somalicos inteiro, sofrendo com fome e sede, ficando com vários ferimentos nos pés, dos quais até hoje tem cicatrizes. Conseguiu chegar até a capital de seu país, Mogadisco, onde encontra a sua avó que após algum tempo conseguiu que sua neta fosse levada a Londres, para trabalhar como faxineira na Embaixada da Somália. Passou a adolescência apenas trabalhando, sem sair da casa, por isso mal aprendera a falar inglês. 

 Cartaz do filme.

Finda a Guerra na Somália, todos da Embaixada tiveram que retornar ao país. Waris Dirie foge então pelas ruas de Londres e com ajuda de uma desconhecida, que tornou-se sua amiga, conseguiu emprego como faxineira em uma lanchonete onde foi descoberta pelo grande fotógrafo Terry Donaldson, que a lançou no mundo como modelo. 

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Waris Dirie converteu-se numa defensora da luta pela erradicação da prática da Mutilação Genital Feminina e atualmente é embaixadora da ONU no combate a esse crime absurdo.
 



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Um comentário:

  1. Sem comentarios para essa atrocidade!!!!!!!!! Me emocionei ao ler a materia!!!!!!!!!

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