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Aos dezoito anos, voltei a morar em Caruaru, agora na casa dos tios: João Bartolomeu e Dolores, na Praça Nova Euterpe. Trabalhava em São Caetano e estudava em Caruaru. O trabalho era na Compesa – Companhia Pernambucana de Saneamento - naquela época, ainda Caene – Cia. De Águas e Esgotos do Nordeste - e o expediente ia até às dezoito horas. O primeiro ônibus da noite, pela empresa Caruaruense, só saía meia horas depois, e eu tinha aula já às dezenove, o que me obrigava a ir para a BR apanhar uma carona.
O Escritório funcionava na parte alta da cidade, numa casa grande e muito velha. Lá, éramos três, e havia mais uns seis funcionários de campo: encanadores e auxiliares. Entre os do escritório, um era Ramalho, senhor de uns sessenta anos que morava em Recife e passava a semana em São Caetano, dormindo, por economia, no próprio escritório da empresa. Estava sempre contando histórias macabras de almas sem cabeças que caminhavam à noite, arrastando correntes pelo corredor da casa, enquanto ele, rezando, tentava dormir.
Numa sexta-feira, ao chegarmos para o trabalho, encontramos um enorme buraco, de aproximadamente um metro e meio de diâmetro e uns dois de profundidade, em um dos quartos da casa. Apesar das negativas, estava claro que Ramalho havia tentado encontrar uma botija. Ficou o dia todo desconfiado, inventando histórias sinistras para justificar aquele buraco.
Pra conseguir chegar a tempo na aula, saí do escritório com quinze minutos de antecedência e cortei caminho, passando ao lado do muro do cemitério da cidade. Era um muro alto e, por cima dele, apareciam algumas árvores imensas, além de velhas catacumbas e suas cruzes. Apesar de fazer isso de segunda a sexta, nunca consegui me acostumar. Do meu lado esquerdo, nenhuma casa, só mato. Do outro, aquela cena de filme de terror. Talvez meus receios fossem por conta do horário: final de tarde e começo de noite; talvez por conta do barulho das minhas pisadas sobre o cascalho solto da estrada, ritmadas, como aquelas músicas de filmes de terror. Caminhava sem conseguir desgrudar os olhos das catacumbas. Raramente cruzava com alguém naquela estrada e, quando isso acontecia, ficava imaginando se seria um vivo ou um morador do outro lado do imenso muro. Acabava correndo. Era um esforço danado pra me controlar mas, poucas vezes, conseguia fazer o percurso apenas caminhando. Podia ser a pressa também, pra não perder a aula... Essa estrada me levava exatamente até o posto da Polícia Rodoviária Federal, onde já era conhecido dos patrulheiros, que sempre conseguiam uma carona pra mim, no primeiro ônibus ou caminhão que passasse.
Naquele dia, um patrulheiro parou um caminhão e perguntou:- Vai passar por Caruaru? Leve este amigo...E, como acontecia todas as vezes, subia agradecido e logo entabulava uma conversa com o motorista, quase sempre sobre as curiosidades ou os perigos daquela profissão de caminhoneiro.
Mas, daquela vez, um ranger, que parecia mais de ossos, deixou-me inquieto, durante a viagem.
- Nossa! Que barulho esquisito é esse que vem da carroceria?... Perguntei.
- Ah! É da carga de carvão que estou transportando. - Respondeu o descontraído motorista.Quando passamos da primeira entrada pra Caruaru - aquela onde hoje tem o Hotel do Sol - vi que havia alguma coisa errada, pois o motorista não entrou. Logo adiante, antes que se afastasse mais, perguntei: "Qual entrada o senhor vai pegar pra Caruaru?" E ele, surpreso, foi logo encostando o caminhão e falando:
- Eu não vou entrar na cidade, vou direto pra Bezerros.Estava neblinando, e as primeiras luzes da cidade estavam a uns três quilômetros.
Não havia outro jeito, tive que descer. Na pior das hipóteses, eu só iria perder as aulas daquela noite.
Quando o caminhão arrancou, deixando-me ali à beira da estrada, levando consigo os faróis que, até então, a iluminaram, foi que eu percebi o tamanho do problema. Nossa! Era uma escuridão imensa! Quanto mais o caminhão ficava distante, mais o meu medo aumentava e mais coisas eu comecei a perceber naquela escuridão: as luzes dos vaga-lumes acendendo e apagando, o canto dos grilos vindo de todas as direções, o coaxar dos sapos, zangados com aquela repentina e estranha presença. Além disso, apenas um silêncio sepulcral. Do alto daquela parte da estrada, as luzes que eu via, deviam ser as da Rua Preta, separadas de mim por mato e escuridão. E, às minhas costas, o que haveria?... Precisava olhar. Venci o medo que àquela altura já me deixava quase sem fôlego e me virei lentamente... Nossa! Estava tudo preto. Não dava pra ver nada... Nem onde começava o céu ou onde terminava a terra. Não podia ficar nem mais um minuto ali. Não tinha alternativa, a não ser sair em disparada em direção às luzes lá embaixo. E o que haveria entre mim e aquelas luzes? Como seria aquele terreno? Naqueles poucos segundos que me separaram do caminhão e do início da carreira, eu só pensara no que fazer mas, quando iniciei aquela descida desembestada, lembrei-me imediatamente dos moradores do cemitério de São Caetano. Fiquei todo arrepiado... Sentia que meus olhos queriam sair das órbitas e o coração pela boca. As pernas fraquejaram, pensei que fosse desmaiar... Quando atravessei a estrada e desci o barranco até o matagal, deixei de ver as luzes das primeiras ruas de Caruaru, que até então me serviram de orientação. Em alguns trechos, o mato era da minha altura, em outros, era mais baixo, mas, em todos eles, havia muitas pedras, grandes buracos, e cascalho solto que me levava ao chão. Todas as almas daquele cemitério estavam ali comigo: esfarrapadas, fedorentas, esqueléticas, sedentas de sangue, ameaçadoras...Umas rastejando, outras correndo, algumas dando vôos rasantes sobre minha cabeça. Foram minutos horríveis que pareceram horas. Em plena escuridão, caindo e levantando, esbarrando nas enormes pedras, nos arbustos...olhando pra trás, pros lados, "vendo a hora" ser abraçado por um daqueles defuntos que abandonaram o Cemitério de São Caetano da Raposa, para me transformar num dos seus. Passei então por uma subestação da Celpe – Cia. De Eletrificação de Pernambuco - cercada de arame farpado, com transformadores enormes, fazendo aquele zumbido próprio dessas estações de alta voltagem, além das placas com caveiras, anunciando o perigo pra quem ali entrasse. Estava tão desorientado, sem saber exatamente em qual direção deveria caminhar, que só fui encontrar as primeiras casas nas imediações do pontilhão sobre o rio Ipojuca, onde hoje funciona a Feira da Sulanca. Havia corrido em diagonal. Estava em frangalhos. Parei em uma casa para pedir um pouco de água e, pelo susto que as pessoas da casa tomaram ao me verem, deu pra imaginar o estado em que me encontrava. Tomei aquela água calmamente, enquanto explicava àquela generosa gente o que me acontecera. Não tinha então mais pressa alguma... Saí calmamente pelas ruas da cidade, admirando cada poste de luz e o calçamento brilhando com a chuva, a presença das pessoas a passarem por mim e até sorrirem, os carros com seus faróis acesos a iluminar o que já estava iluminado... Nossa! Como Caruaru estava linda e acolhedora! Ao chegar a casa, apesar de bem mais calmo, ainda ouvi minha querida Tita (minha tia Dolores) exclamar preocupada:
Naquele dia, um patrulheiro parou um caminhão e perguntou:- Vai passar por Caruaru? Leve este amigo...E, como acontecia todas as vezes, subia agradecido e logo entabulava uma conversa com o motorista, quase sempre sobre as curiosidades ou os perigos daquela profissão de caminhoneiro.
Mas, daquela vez, um ranger, que parecia mais de ossos, deixou-me inquieto, durante a viagem.
- Nossa! Que barulho esquisito é esse que vem da carroceria?... Perguntei.
- Ah! É da carga de carvão que estou transportando. - Respondeu o descontraído motorista.Quando passamos da primeira entrada pra Caruaru - aquela onde hoje tem o Hotel do Sol - vi que havia alguma coisa errada, pois o motorista não entrou. Logo adiante, antes que se afastasse mais, perguntei: "Qual entrada o senhor vai pegar pra Caruaru?" E ele, surpreso, foi logo encostando o caminhão e falando:
- Eu não vou entrar na cidade, vou direto pra Bezerros.Estava neblinando, e as primeiras luzes da cidade estavam a uns três quilômetros.
Não havia outro jeito, tive que descer. Na pior das hipóteses, eu só iria perder as aulas daquela noite.
Quando o caminhão arrancou, deixando-me ali à beira da estrada, levando consigo os faróis que, até então, a iluminaram, foi que eu percebi o tamanho do problema. Nossa! Era uma escuridão imensa! Quanto mais o caminhão ficava distante, mais o meu medo aumentava e mais coisas eu comecei a perceber naquela escuridão: as luzes dos vaga-lumes acendendo e apagando, o canto dos grilos vindo de todas as direções, o coaxar dos sapos, zangados com aquela repentina e estranha presença. Além disso, apenas um silêncio sepulcral. Do alto daquela parte da estrada, as luzes que eu via, deviam ser as da Rua Preta, separadas de mim por mato e escuridão. E, às minhas costas, o que haveria?... Precisava olhar. Venci o medo que àquela altura já me deixava quase sem fôlego e me virei lentamente... Nossa! Estava tudo preto. Não dava pra ver nada... Nem onde começava o céu ou onde terminava a terra. Não podia ficar nem mais um minuto ali. Não tinha alternativa, a não ser sair em disparada em direção às luzes lá embaixo. E o que haveria entre mim e aquelas luzes? Como seria aquele terreno? Naqueles poucos segundos que me separaram do caminhão e do início da carreira, eu só pensara no que fazer mas, quando iniciei aquela descida desembestada, lembrei-me imediatamente dos moradores do cemitério de São Caetano. Fiquei todo arrepiado... Sentia que meus olhos queriam sair das órbitas e o coração pela boca. As pernas fraquejaram, pensei que fosse desmaiar... Quando atravessei a estrada e desci o barranco até o matagal, deixei de ver as luzes das primeiras ruas de Caruaru, que até então me serviram de orientação. Em alguns trechos, o mato era da minha altura, em outros, era mais baixo, mas, em todos eles, havia muitas pedras, grandes buracos, e cascalho solto que me levava ao chão. Todas as almas daquele cemitério estavam ali comigo: esfarrapadas, fedorentas, esqueléticas, sedentas de sangue, ameaçadoras...Umas rastejando, outras correndo, algumas dando vôos rasantes sobre minha cabeça. Foram minutos horríveis que pareceram horas. Em plena escuridão, caindo e levantando, esbarrando nas enormes pedras, nos arbustos...olhando pra trás, pros lados, "vendo a hora" ser abraçado por um daqueles defuntos que abandonaram o Cemitério de São Caetano da Raposa, para me transformar num dos seus. Passei então por uma subestação da Celpe – Cia. De Eletrificação de Pernambuco - cercada de arame farpado, com transformadores enormes, fazendo aquele zumbido próprio dessas estações de alta voltagem, além das placas com caveiras, anunciando o perigo pra quem ali entrasse. Estava tão desorientado, sem saber exatamente em qual direção deveria caminhar, que só fui encontrar as primeiras casas nas imediações do pontilhão sobre o rio Ipojuca, onde hoje funciona a Feira da Sulanca. Havia corrido em diagonal. Estava em frangalhos. Parei em uma casa para pedir um pouco de água e, pelo susto que as pessoas da casa tomaram ao me verem, deu pra imaginar o estado em que me encontrava. Tomei aquela água calmamente, enquanto explicava àquela generosa gente o que me acontecera. Não tinha então mais pressa alguma... Saí calmamente pelas ruas da cidade, admirando cada poste de luz e o calçamento brilhando com a chuva, a presença das pessoas a passarem por mim e até sorrirem, os carros com seus faróis acesos a iluminar o que já estava iluminado... Nossa! Como Caruaru estava linda e acolhedora! Ao chegar a casa, apesar de bem mais calmo, ainda ouvi minha querida Tita (minha tia Dolores) exclamar preocupada:
- Rodolfinho, meu filho! O que aconteceu com você? Você parece que viu alma!!!...
A partir daquela noite, perguntávamos sempre aos motoristas no posto policial de São Caetano: "Vai entrar em Caruaru?"
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Caro Rodolfo,
ResponderExcluirDei muitas risadas com sua história, mais pela maneira como escreve, que com seu sofrimento naquele dia. E fiquei muito surpreso, com a coincidência, pois passando um fim de semana em São Caetano da Raposa, passei pelo cemitério tão conhecido seu (Acho que não há outro), voltando para Recife hoje bem cedinho (ainda não tinha amanhecido).
Outra coincidência foi, ao pesquisar no google algo sobre a cidade, achar um texto seu, que está na minha lista de amigos do orkut (vc não, o texto, claro).
Será que o Ramalho conseguiu achar a botija?
Um forte abraço,
Jorge