terça-feira, 24 de janeiro de 2017

UM PRESIDENTE FICHA SUJA, LANÇADO AO PODER PELO QUE HÁ DE MAIS PODRE NA DECREPITUDE DOS NOSSOS REPRESENTANTES, NOMEARÁ UM NOVO MINISTRO PARA A MAIS ALTA CORTE, QUE, ENTRE OUTRAS COISAS, TERÁ A FUNÇÃO DE JULGÁ-LO







A seguir, texto de Carlos Fernandes no DCM

Mal começou e 2017 já disse a que veio. Se tivéssemos que fazer uma espécie de retrospectiva do ano que se inicia menos de um mês transcorrido, o resultado se encontraria em algo entre desalentador e catastrófico.
As macabras chacinas que ainda estão em curso no nosso “controlado” sistema prisional, mais do que expor a barbárie a que estão submetidos os apenados sob custódia do Estado, escancararam de vez as mazelas de uma sociedade intolerante e obtusa na compreensão e no trato dessa verdadeira tragédia humana.
Do lado de fora, enquanto cabeças continuam sendo decapitadas, o horizonte nunca esteve tão tenebroso. Sobretudo para quem ainda mantinha alguma esperança que a partir dos cacos a que foi reduzido a nossa democracia, algo de minimamente decente poderia surgir.
Às vésperas das eleições para os novos presidentes da Câmara e do Senado, os dois maiores partidos da esquerda brasileira – ou o espectro caquético que ainda restou dela – não se sentiram nem um pouco incomodados em aprovar o seu apoio à nata da corja golpista que não só destituiu uma presidente legitimamente eleita quanto definitivamente arruinou o projeto de governo vencedor nas urnas pela maioria da povo brasileiro.
O descalabro do PT e do PC do B em apoiar nomes como Rodrigo Maia  (DEM-RJ) e Eunício Oliveira (PMDB-CE) para as presidências da Câmara e do Senado, respectivamente, não encontra sustentação em absolutamente nada que se queira coerente, ético e moral.
Mesmo em se tratando da política brasileira e seus empoeirados fisiologismos, é simplesmente indecente que as duas maiores bancadas no Congresso alinhadas diretamente à defesa da democracia brasileira, agora se aliem pragmaticamente aos seus próprios algozes.
Os assentos na mesa diretora a que essa “aliança” supostamente garantirá não são, nem de longe, motivos para que esses parlamentares virem as costas para toda a luta, o suor, o sofrimento e a angústia dos milhões de brasileiros que tiveram seus votos cassados e foram obrigados a assistir a Constituição Federal ser queimada em praça pública.
O preço por essa traição poderá ser devastador. Não só pelo estrago capaz de causar na já combalida esquerda deficiente, quanto nos efeitos consequentes de uma crescente e paulatina descrença nas forças de oposição ao fascismo em expansão.
Não é a toa que até o Papa Francisco já chamou a atenção para a perigosa ascensão de “salvadores” que irão querer nos “devolver nossa identidade” com “muros e arames farpados”.
Se é bem verdade que a frase é destinada diretamente a Donald Trump, não é menos verdade que ela se aplique perfeitamente a Michel Temer, que tomou o poder à base da força, da mentira, do conluio e da manipulação.
E como o destino parece conspirar contra aqueles que se deixam levar pelo que Francisco chama de “salvadores”, além de não aparecer nada de novo que pudesse indicar uma singela que fosse reconstrução de nossas instituições, eis que pela vontade incompreensível de um ser superior ou simplesmente pela força de interesses, digamos, menos celestiais, morre Teori Zavascki.
O simples exercício de imaginar que será um presidente ficha suja, lançado ao poder pelo que há de mais podre na decrepitude de nossos representantes, a nomear um ministro da mais alta corte do país que, entre outras coisas, terá a função de julgá-lo, nos remete à certeza plena de que o poço obscuro em que nos metemos, melancolicamente, não tem fundo.
2016, agora passamos a suspeitar, não foi o pior ano de nossa história recente, foi apenas um prólogo do que poderá ser 2017.


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